Cícero Amorim faz 99 anos; Vitória da Conquista agradece a chegada do Pernambucano


O empresário Cícero Amorim e o jornalista Paulo Nunes

 

 Ha cerca de 6 anos, comecei a brincar com Cícero Amorim,  sempre que o encontro faço questão de dizer sua idade, com um ano  menos, para sentir o prazer dele dizer a idade correta. Cícero desafia o tempo. Faz o que a maioria das pessoas de sua idade não faz. Cícero anda pelas ruas, dirige carro, frequenta supermercados, igrejas e praças. No mês de setembro passado, o encontrei no Hipper mercado e  brinquei mais uma vez: ” Cícero 96 anos?”  ele retrucou  -(99) faço dia 9 de outubro, eu disse- eu também faço, ele perguntou quantos anos Paulo Nunes-  respondi: 63, ele então disse: você é novinho, trocamos um abraço e aguardamos o dia 9 de outubro, enfim completamos 99 e 63 respectivamente.

Hoje quero aqui registrar o meu apreço a esse homem que escolheu minha terra pra viver. O Sertão da Ressaca recebeu Cícero em março de 1951, eu ainda não havia nascido, Vitória da Conquista possuía  17 mil habitantes, a estrada Rio- Bahia, ainda era em leito natural, mas ele acreditou no sucesso desta terra.  Ainda no Hipper Mercado, no nosso último encontro Cícero me disse,  ” ainda tomo conta das lojas e da s fazendas,dirijo todo dia, ando a pé também”.  Cícero é um retrato da história que o Nordestino é antes de tudo um forte. Nossos parabéns a esse grande conquistense e cidadão baiano.

 

Encontrei essa entrevista feita por Pedro Massinha em 2015, resolvi publica-la sem a a devida vênia do autor.

Natural de Afogados de Ingazeira, no agreste pernambucano, o empresário Cícero Amorim traz ao longo de seus 99 anos, a dedicação e luta que o fizeram uma das grandes personalidades de Vitória da Conquista.

Desde sua chegada ao sudoeste baiano são 64 anos dedicados a muito trabalho e esforço, que fazem do proprietário da empresa C Amorim, especializada em acabamentos para construções, uma das figuras mais respeitadas da sociedade conquistense.

BM: Como foi sua chegada a Vitória da Conquista?

CA: Vim por intermédio de meu irmão José Amorim, ele viajando comprou um caminhão em Pernambuco, no ano de 1946, e fez a viagem para São Paulo; o primeiro pau de arara trazido para capital paulista foi com ele.  Meu irmão tinha recém chegado da II Guerra Mundial, onde combateu como soldado expedicionário e nessas andanças após o período em que serviu e já com o caminhão, acabou descobrindo a cidade de Vitória da Conquista. Aqui ele arranjou uma namorada e falou comigo que iria se mudar para cidade, e me perguntou se não tinha interesse em vir com ele, pois o comércio era muito bom.  Eu já tinha começado lá em Ingazeira com uma mercearia e padaria. Mas, resolvi vir para o sudoeste baiano, após conseguir vender meu comércio no finalzinho de 1950, em Pernambuco.

Cícero com o deputado Fabrício o arcebispo Dom Pompeu

BM: O Seu ramo de negócio sempre foi material de construção?

CA: Logo quando cheguei aqui foi armazém, Silva Cereais, acompanhando um sergipano que vendia de tudo e tinha uns armazéns. Cheguei a ter armazém também, e daí aluguei a fábrica de bebidas Guarani. Fiquei com o armazém e a fábrica que produzia vinhos, cerveja preta e o guaraná Lucy. Depois chegou um camarada com a fábrica de balas Branca de Neve, lá de Caruaru, que depois eu comprei.  Acabei ficando com as duas fabricas só que meu comércio mesmo era o armazém. Já em 1962, fechei o comércio de cereais e passei pra o ramo de ferragens.

BM: O senhor é um homem vitorioso e fruto do trabalho desde a década de 50. Observamos também a fé que você e sua família demonstram. Como se explica essas duas coisas, o trabalho e a fé?

CA: Meus pais eram muito religiosos e desde pequeno fui criado na igreja indo sempre as missas. Quando cheguei aqui na Bahia ficava admirado porque quase não via homens nas igrejas, e sim, mais mulheres naquela época. Me questionava já que na minha cidade nos dias de domingo todo o pessoal do comércio ia pra Igreja. Nunca deixei de frequentar a missa, faço parte até hoje aqui em Conquista do Movimento Familiar Cristão, onde aprendi a entender a bíblia e o evangelho. São ao todo 47 anos de dedicação onde aprendemos muito.

BM: A sua vitalidade mesmo aos 95 anos impressiona a gente seu Cícero. Você que até hoje está na empresa batendo o ponto.

CA: Sempre estou lá na empresa e cuido também de minhas fazendas, na região centro-sul, onde tenho aproximadamente umas 1600 rês. Administro até hoje e gosto de tudo meu dentro da ordem.

BM: Você já está próximo do seu centenário e passa para nós uma experiência de vida e vivência diante de várias situações no Brasil. Como você definiria o momento de hoje em nosso país?

CA: Eu nasci em 1920, comecei a entender mais as coisas com 10 anos, na década de 30, já com Getúlio Vargas. Com o governo Vargas notei certa melhora ainda mais para nós em Afogados que não tínhamos professora formada pelo Estado, só tinha municipal. Quando ele entrou começaram a aparecer as professoras. Na época em que os generais tomaram conta achei que o Brasil desenvolveu muito também. Porque tudo que nós comprávamos no país era importado e com a vinda deles as fábricas nacionais começaram a crescer. O imposto de renda que pagávamos era descontado 30% para aplicação nas indústrias nacionais e muitos produtos passaram a ser fabricados no Brasil. Infelizmente o momento de nossa presidente, acho que ela não esteja preparada, era pra ter entregado a uma pessoa que tivesse capacidade de fato para assumir nosso país. Conheço uma parte do mundo e sei que não tem nada melhor que o nosso Brasil.

BM: Confrontando o passado com o presente, inclusive a Praça Tancredo Neves, o que se passa em seu imaginário?

CA: Vitória da Conquista está completamente diferente, por exemplo, a feira  era realizada onde hoje se localiza o Terminal da Lauro de Freitas e também no local que tinha meu primeiro comércio. Essa praça vistosa que vemos hoje não tinha nada além de terra. Conquista mudou, cresceu, nem parece a cidade de quando cheguei. Hoje a gente sente orgulho e felicidade de estar aqui nesse município, um local em progresso e que continuará crescendo.