A Dignidade da Política


Em 1992, durante as eleições municipais de Vitória da Conquista, o então candidato José Pedral Sampaio, político de relevância histórica na Bahia, defendeu a construção de um aeroporto internacional. Tirando a grandeza de uma promessa típica de campanha, já se pressentia a necessidade de um aeroporto à altura da importância regional do município. Quase 30 anos depois, inaugura-se a esperada obra em meio a gestos de indignidade política.

A indignidade não está na disputa do protagonismo da construção da obra aeroportuária, mas na decadência que representa o gesto do atual prefeito no ato de inauguração do Aeroporto local.

Herzem Gusmão é um homem de direita. Tornou-se um político em busca de mandatos pela conveniência dos grupos locais antagonistas ao Partido dos Trabalhadores. Em 1996, foi cogitado a ser vice do então candidato petista à Prefeitura Municipal, Guilherme Menezes. Chegou a participar de reuniões do PT para discutir a chapa que sairia vitoriosa naquela eleição. Se incomodava ao ser comparado à Fernando José, ex-prefeito de Salvador, jornalista como ele, cuja gestão foi um fracasso dantesco.

Desde então, Herzem se cacifou pelas críticas, ora ácidas, outrora moderadas, às sucessivas gestões petistas, a partir da conveniência do momento político.

Na ausência de lideranças capazes de suplantar o projeto petista de perpetuação da gestão municipal, já que figuras como Coriolano Sales e Murilo Mármore não obtiveram êxito nas tentativas de derrotar o candidatos da situação, Herzem foi construindo um arco frágil de alianças, aproximando-se de políticos tradicionais, ligados à velha oligarquia cartista, ou lideranças de direita sem sólida base ideológica, cujo pragmatismo acentuava-se com a necessária tomada do poder local, ainda que inexistente um projeto claro para o município. Ou seja: alinhava-se ao velho da política, ainda que o PT não representasse necessariamente o novo.

Surfando na onda de 2013, que faz nascer o fenômeno do ultraconservadorismo no país, Herzem se elegeu prefeito em eleição acirrada. Em pouco tempo de gestão, viu aliados importantes perderem espaço na política ou serem presos, como o caso dos irmãos Vieira Lima. Neste contexto de isolamento, tornou-se refém do que há de mais vil e antidemocrático na política nacional, expressado pela ascensão da extrema direita, encarnada na figura de Jair Bolsonaro.

É dentro deste contexto, e tentando reverter sua impopularidade junto aos Estados do Nordeste, aguçada após sua preconceituosa fala sobre todos os paraíbas, que Jair Bolsonaro se disponibilizou a inaugurar o aeroporto de Vitória da Conquista. Não se trata de um gesto de cordialidade entre chefes de poderes, mas um ato de profunda indignidade política, que representa a decadência moral do grupo político que ocupa o poder local. Não apenas por desprezar a história da construção da obra, e entregar a responsabilidade do ato inaugural a quem em nada contribuiu para a sua realização, mas por legitimar, em pressupostos falsos, um Governo que deteriora a democracia, exclui populações da proteção estatal e impõe limitações à pluralidade política. Como reflexo direto deste feito, a inauguração da obra aeroportuária se dará numa “festa” para poucos, longe da participação de todos, dias após o Presidente da República ter feito humilhado todo o povo nordestino: a encarnação do espírito destes tempos.

Ao se aproximar acriticamente de Jair Bolsonaro, Herzem Gusmão opta por um caminho sem volta, aproximando-se de um Governo cujos feitos deixarão desprezíveis marcas nas instituições democráticas. Radicaliza no gesto e compromete a legitimidade de sua liderança política.

Na política real, que se realiza no fazer concreto da gestão do bem comum, cabem todas as formas de expressão social que habitam a polis, o espaço de realização do interesse público, desde que o pensamento, a ideologia ou a prática não sejam contrários à própria política. Quando os gestos da política violam o espírito público da cidade, revelados pelo seu compromisso com os valores constitucionais, resta a indignidade como castigo aos que dela soberbam.

Paradoxalmente, em meio à disputa entre Prefeitura e Governo do Estado, em um tempo tão próximo àquele que inspirou “Terra em Transe”, maior feito do cinema nacional, o no
me da obra em disputa pode servir de inspiração à rebeldia destes tempos: Aeroporto Glauber Rocha!

 

_Dimitri Sales, _advogado e professor universitário, natural de Vitória da Conquista, é Presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana do Estado de São Paulo._