Vá por mim: não siga o que Bolsonaro recomenda nem faça o que ele faz


Por Paulo José Cunha 

Presidente da República Jair Bolsonaro chega ao Comando Militar do Sudeste.

“João Gilberto mudou a música de um país musical e a levou para todo o mundo, abrindo uma janela sem precedentes ao influenciar gerações de músicos e ouvintes. Encheu o Brasil de orgulho ao fazer a língua portuguesa ser ouvida em todo canto, de mexer com a música de culturas tão diferentes. É certamente o brasileiro que mais influenciou o mundo.” (Paulo Pestana, na crônica “O Senhor do Tempo”, Correio Braziliense, 12/07/2019).

Nem por isso Jair Bolsonaro concedeu-lhe a gentileza de decretar luto oficial. No máximo, através do porta-voz, disse reconhecer “a importância do artista João Gilberto para a música brasileira, como todos nós. Ele tornou a Bossa Nova um estilo de música conhecido internacionalmente”. Solidarizou-se com a família e os amigos e tamos conversados.

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Não há de se exigir de um presidente da república que conheça a obra musical de todos os cantores e instrumentistas de sua terra. Mas é fundamental que esteja sintonizado com as expressões de maior destaque não só da música, mas de todas as artes. Elas definem a identidade e o caráter do povo. O mais que Bolsonaro disse – diretamente, não através de porta-voz – foi que João Gilberto era “uma pessoa conhecida”. E ficou por aí. Provavelmente, se perguntado, não iria lembrar sequer de uma canção famosa do baiano genial.

Não dá pra perdoar, Pai: ele sabe o que diz

São conhecidas as limitações do atual presidente. Pudera. De uma pessoa que tem como mentor intelectual um imbecil da marca de Olavo de Carvalho não se pode esperar muita coisa.

Mas é preciso ressaltar que um governante não governa apenas por leis, decretos-leis ou medidas provisórias. Mas também pelo que sinaliza à sociedade. Essas sinalizações funcionam como uma espécie de orientação geral de comportamento. Porque o sistema presidencialista de governo substituiu o rei, o imperador ou o ditador – figuras que impõem suas vontades pessoais aos súditos – pela figura do presidente democraticamente eleito, que presta juramento perante o Congresso, e com ele governa, sob os parâmetros fixados, também de forma democrática, pela Constituição, à qual igualmente se compromete a respeitar. Mas, na essência, da figura do presidente emana a “aura do líder”, resquício do império de onde viemos. Não por outro motivo, nos parlamentos nacional, estaduais e municipais, mantemos o tratamento reverencial do “Vossa Excelência”. As palavras e atos do presidente funcionam, assim, como um norte, uma baliza, um rumo aos seus concidadãos. Só que as sinalizações oriundas do atual governo são as piores de toda a nossa história.

Não vá por onde ele manda: é furada

Nem durante as duas ditaduras que o país atravessou – uma civil, de Vargas, outra militar, com o revezamento de fardados de alta patente – ouviu-se alguma palavra de apologia à tortura, como faz Bolsonaro. Nenhum comandante supremo do país tratou de forma tão mesquinha a figura da mulher (Maria do Rosário e Marielle Franco são dois bons exemplos) como faz Bolsonaro. Nenhum presidente até hoje relativizou o trabalho infantil, como faz Bolsonaro. Nenhum presidente ou ditador investiu com tanto vigor contra conquistas de minorias sexuais ou de raça como Bolsonaro faz. Nenhum mandatário supremo da nação tratou áreas vitais para a identidade nacional, como a Cultura e a Educação, com o descaso com que faz Bolsonaro. Nenhum imperador, presidente ou ditador civil ou militar minimizou os riscos à vida com o desrespeito a normas primárias de trânsito, como os limites de velocidade e a obrigação do uso das cadeirinhas pelas crianças, como faz Bolsonaro. Até hoje nenhum ocupante da mais alta magistratura do país incentivou a cultura do armamentismo, liberando a prática do tiro esportivo por menores de idade, como faz Bolsonaro. Nenhuma autoridade brasileira, em qualquer época, visitou a Alemanha e relativizou o holocausto nazista contra os judeus como fez Bolsonaro. Nem qualquer ocupante do Palácio presidencial (incentivando o nepotismo) quis nomear o próprio filho para a embaixada mais importante como Bolsonaro.

As citações são de cabeça, estou sem tempo pra pesquisar mais a fundo, mas já dão uma noção singela do tipo de “farol” que se instalou na cadeira do 4º andar do Palácio do Planalto. Por essa amostra arrisco-me a afirmar que muito da descortesia, da truculência, da falta de modos, do autoritarismo que é perceptível ultimamente no comportamento de boa parte da população se deve à postura, aos atos, palavras e omissões dos integrantes dos cargos mais elevados do atual governo, sobretudo de Bolsonaro. Essa sinalização é altamente danosa porquanto está se tratando da formação do imaginário de um povo, com as consequências que daí advirão.

Na raiz da truculência estão os manifestantes bolsonaristas que boicotaram com uso de um paredão de som e um foguetório infernal a participação do jornalista Glenn Greenwald numa mesa de debates na Festa Literária de Paraty. Aposto que o leitor teria vários casos a acrescentar, desses que a gente presencia no ônibus, na escolla, no trabalho. Cada um de nós já viveu situações semelhantes. É preciso considerar que o clima de “liberou geral” endossado por Bolsonaro e seu governo (até agora não vi qualquer condenação à idiotice da manifestação truculenta em Paraty) só leva ao crescimento da intolerância em escala geométrica.

Vovô Getúlio e o sorriso de JK

(Quando falo em sinalização positiva, lembro-me do sorriso afável de Juscelino Kubitscheck. E até mesmo da figura tipo “avôzão” do ditador Getúlio Vargas, pra ficar em dois exemplos de nossa história).

E olha que João Gilberto, embora internacionalmente reconhecido como um dos maiores gênios da música mundial, não tinha, ao que se sabe, qualquer militância político-ideológica para merecer reação tão tosca diante da notícia de sua morte como a de Bolsonaro. O que reforça a convicção de que o pouco caso (“era uma pessoa conhecida”) se insere à perfeição no pensamento do líder nazista Joseph Goebbels, que cunhou uma frase tristemente célebre: “Quando ouço a palavra cultura saco logo meu revólver”.