Uma crônica sobre João Gilberto


Jornalista José Bonfim

Caro Brown,

Estou ainda chocado com a morte do nosso maior gênio da música. Sou terrivelmente apaixonado por João Gilberto, a maior síntese da MPB. Eis um relato que fiz após a última apresentação dele aqui no Teatro Municipal. Caso queira compartilhar, fique à vontade. Abraços

Mais uma ótima colaboração de Valterci de Souza Freire, o nosso Valter, conquistense radicado no Rio de Janeiro há décadas.

Desta vez, Valter destaca o genial João Gilberto, que morreu ontem (sábado, 6 de julho de 2019).

Valter escreve sobre sua ida ao show de João Gilberto, em comemoração aos 50 anos da Bossa Nova, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 24 de agosto de 2008.

Vamos ao relato:

Noite do domingo (24 de agosto de 2008). Passei pela Avenida Presidente Vargas (Rio de Janeiro) quase deserta e todos sinais estavam livres.  Ao entrar na Avenida Rio Branco senti que alguma coisa estava diferente. Não havia flanelinhas nas imediações do Theatro Municipal e vários carros de policiais estavam à vista.  A fila dos vips já dobrava o quarteirão. Estacionei o carro em frente ao belíssimo prédio da Biblioteca Nacional. Comentei com o policial que estava na calçada como é bom não ser extorquido pelos “donos” das ruas, pois todas as vezes que vou ao Teatro Rival ou ao Cinema Odeon, tinha que deixar “uma nota preta” para os flanelinhas, pois o preço estipulado é de acordo com o espetáculo. 

A temperatura amena, a multidão na frente do teatro, composta com todas as tribos da noite do Rio já mostrava que seria uma noite mágica. Era o primeiro milagre do João Gilberto. Minha mulher falou para não entrarmos, para aproveitar aquele raro momento.  Ao meu lado, Moraes Moreira falava com Jards Macalé que ainda não tinha convite, mas que tinha que “ver o João de qualquer jeito”.  As insuportáveis atrizes da Globo, todas com caras de inútil paisagem, se exibiam procurando os paparazzis, enquanto discreta e anonimamente Ruy Castro, Manoel Carlos e Nelson Motta esperavam pacientemente na fila. 

Entramos no teatro e fui comprar uma água, pois a ansiedade de ver pela primeira vez (e provavelmente a única) o João me deixava com a boca seca.  Encontrei com o simpático Alfredo Del-Penho e comentamos que valeu a pena chegar antes das 5 da manhã para comprar os ingressos (os vips, convidados e ricos ganharam convites do banco patrocinador) e rimos da ideia dele de perguntar aos cambistas dez músicas do João.  Provavelmente nenhum saberia. 

Um burburinho, gente falando alto. Virei para ver. Era o furacão Naomi Campbell (que bocão maravilhoso tem essa mulata!) chegando com o namorado russo.  Fomos para nossos lugares. A expectativa era grande e o atraso já era de 30 minutos.  Vinte minutos depois, João entrou no palco. Foram dez minutos de aplausos. Ele começou com “Você já foi à Bahia” e outras do mestre baiano.  O silêncio era absurdamente espacial.  Eu estava em êxtase total. Quase não respirava de tanta emoção. Será que eu estava realmente ali? Via João no mesmo palco que vi o Tom? Os aplausos eram intermináveis após cada música.

João falou do conjunto Os Cariocas. Falou do Sergio Ricardo (o autor de “Zelão”, tão presente na minha vitrola nos anos de chumbo, ainda mora no Vidigal). Errou letra de música. Cantou “sambinhas” dos anos 30 e muita bossa nova.  Olhei para minha mulher e ela estava abrindo a bolsa para pegar uma bala com o maior cuidado pois “estava com medo de fazer barulho e ele pegar o violão e sair do palco”.

O show continuava antológico e chegou ao fim. De pé, o teatro aplaudiu por minutos eternos. E João, que não dá bis, voltou. E ficou mais 40 minutos no palco. Nunca vi um bis com 40 minutos. Quando cantou “Chega de Saudade”, num baixíssimo sussurro, poucos da plateia, com medo, cantaram junto.  João falou: “Ouvi um sussurro muito bonito e afinado cantando comigo. Que bonito. Vamos fazer de novo?”  Então ele tocou e a plateia cantou. Momento eterno aquele. Ele voltou a falar: “Estou gostando. Acho que não vou embora”. Cantou então “Retrato em Branco e Preto”. Lágrimas silenciosas em branco e preto saíram dos meus olhos. Cantou, tocou e encantou.

Nunca haverá outra noite igual a essa no Theatro Municipal? Haverá outra noite mágica igual a essa?  A que se compara o espetáculo que vimos?  Compara-se com aquela noite que Isadora Duncan dançou? À apresentação de Aprile Millo? À estreia de “Vestido de Noiva”?  À apresentação de Sarah Bernhardt?  À apresentação do Balé Bolshoi? À apresentação de Plácido Domingos ou à homenagem que o Rio de Janeiro fez a Clementina de Jesus enquanto viva?  Para mim, foi a maior noite de Municipal. O teatro foi se esvaziando aos poucos. Todos mostravam um semblante de alegria renovada.  Falei com minha mulher: “Agora posso morrer”. Ela retrucou: “Você falou isso no show The Dark Side of the Moon, do Roger Waters, na Apoteose, e deu no que deu!”.  Passamos pela Cinelândia, pelo mal iluminado Passeio Público, cruzamos a Lapa, subimos a Avenida Mem de Sá e voltamos para casa. Uma noite mágica e eterna. 

Salve João Gilberto.

Salve Rio de Janeiro.

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