Aécio Neves e a erosão do capital político das oposições no Brasil


  Aécim popo 6(Artigo de Daniel Quoist, mestre em jornalismo e ativista dos direitos humanos – publicado no Jornal Digital Brasil247 de 16 de abril de 2015)

Aécio Neves vive um momento zumbi-de-palanque. Dia e noite se desdobra a ocupar espaço na mídia para dizer coisas disparatadas, quase sempre sem nexo, sem aprofundar o pensamento em ideia alguma e sempre de olho em sua nova (e única) base de apoio popular: os intolerantes que se vestem de bandeira nacional e vão às ruas gritar pelo impeachment de Dilma Rousseff, os saudosos da ditadura militar exigindo à volta dos tempos de chumbo, os artistas anarquistas com prazo de validade vencido como Lobão e Roger, as velhinhas filhas de militares que querem a todo custo manter suas ricas pensões pagas pela União, os oportunistas deslumbrados com gente nas ruas a vociferar pela saída do PT do Palácio do Planalto.
Aécio Neves tem sido muito mal assessorado: como não tem história própria e sempre tira proveito da expertise política do avô Tancredo Neves, parece não estar nem aí para o mau uso que vem se fazendo de sua imagem: está sempre a um passo de andar abraçado a gente como Jair Bolsonaro, Paulinho da Força, José Agripino Maia, Roberto Freire, Pastor Everaldo, Levy Fidelis, Lobão, Rodrigo Chequer, Carlos Sampaio e o garoto asiático do alto de seus dezenove anos de experiência política. Faria bem melhor se buscasse a companhia de seus companheiros mais comedidos. Trocasse Paulinho da Força por José Serra, trocasse Carlos Sampaio por Geraldo Alckmin, trocasse Jair Bolsonaro por Marconi Perillo, trocasse Ronaldo Caiado por Álvaro Dias.
Precisava disso?
A cada novo flerte do neto com os tempos ditatoriais – tempos em seu pai, o deputado Aécio Cunha era eleito pelo partido dos militares, a Arena – o grande Tancredo Neves deve se revirar no túmulo. Aécio não tem propensão para honrar minimamente a herança política e libertária do avô. Ao contrário, parece sofrer de ‘derrotite aguda’, aquele mal que acomete os maus perdedores e os que estão dispostos a tudo fazer para levar na marra o que não conseguiu levar na observância dos ritos democráticos e nos limites sensatos do estado de Direito.
Maturidade política e visão de longo alcance têm seus mais vistosos pares tucanos: José Serra e Geraldo Alckmin.
O ex-ministro da Saúde de Fernando Henrique Cardoso cultiva com gosto sua imagem de homem sério, de político confiável, de administrador público calejado e alheio a arroubos juvenis e irresponsáveis. Com isso Serra reconstrói sua imagem para 2018 e nos próximos anos seus adversários na corrida para o Planalto não terão a enxurrada de vídeos, notas políticas, entrevistas e dezenas de passos em falso dados por Aécio Neves desde que foi derrotado por Dilma Rousseff em outubro de 2014. Serra tem muitos erros biográficos a serem explorados, mas os piores na política ele não tem: simpatizante de movimentos claramente fascistas em suas motivações, conspirador de golpe de Estado contra uma presidente recentemente eleita com mais de 54 milhões de votos, fantoche usado em manifestações de motivações espúrias e confusas em sua natureza, instabilidade emocional própria de oportunistas que na política fazem tudo o que dizem condenar. É óbvio que, nos dias atuais, José Serra se cacifa para novos voos presidenciais em 2018 e traz em sua bagagem nada menos que São Paulo inteira que, muito dificilmente, voltaria a apoiar nova aventura presidencial do mineiro Neves, exatamente aquele que perdeu feio – e em dois turnos das eleições – em seu próprio reduto e quintal eleitoral, a brava Minas Gerais.
O governador de São Paulo Geraldo Alckmin mantém sua aura de gestor responsável, de gestos comedidos e de experiência política consumada. Alckmin sabe muito bem que não se ganham eleições majoritárias com arroubos juvenis nem com bravatas pueris. Ao contrário, o famoso picolé-de-chuchu sabe que o eleitorado paulista é arredio a factoides, a guinadas bruscas rumo à direita e que prefere um conservadorismo light, bem ao gosto do povo quatrocentão de São Paulo. Alckmin tem se portado com dignidade e correção de conduta: não alimenta aventuras golpistas, não se deixa intimidar por palavras de ordens de gente como Jair Bolsonaro ou do Paulinho da Força, não endossa esses quando propõem om enforcamento de Lula e de Dilma e não fez até hoje qualquer aceno golpista ao impeachment à moda paraguaia ao qual está sendo tragado com celeridade o destemperado Aécio Neves. Alckmin tem como foco na vida fazer um novo bom governo em São Paulo, cumprir promessas de campanha, cimentar boas relações políticas e instituições com a presidência da República. E se resolver em 2018 se aliar a José Serra, com qualquer um deles na cabeça de chapa certamente estarão personificando a chapa mais confiável da oposição ao poderio petista em pleitos presidenciais.
Não à toa tanto Serra quanto Alckmin devem se divertir um bocado com as trapalhadas de seu companheiro Aécio tanto ao longo da campanha de 2014 quanto nos 100 dias seguintes à posse de sua rival e vencedora eleita para governar o Brasil de 2015 a 2018 – Dilma Vana Rousseff. Chega um momento em que Aécio discursar que é um democrata desde criancinha tem tanto efeito quanto um homem feio dizer que é bonito: não engana a ninguém. Como pode alguém se dizer democrata se está sempre apoiando recontagem de votos do último pleito presidencial, autoriza próceres a levar ao TSE pedido para que impugnasse a diplomação da presidente eleita com ampla maioria de mais de 3,5 milhão de votos e ele mesmo fosse o diplomado?
Para alguém que teve pouco mais de 51 milhões de votos, ainda assim bem insuficientes para ter legitimidade de subir a rampa do Planalto, a verdade é que esse capital político não é dele, não constitui latifúndio eleitoral próprio, pessoal, inquestionável, intransferível. Muito ao contrário. Os votos dos 51 milhões de brasileiros que digitaram o nome de Aécio Neves nas urnas eletrônicas disponibilizadas pelo TSE em 26 de outubro de 2014 são majoritariamente assim distribuídos:
A – Eleitores do PSDB de São Paulo, notadamente de José Serra e Geraldo Alckmin e uma parte bem menor de Fernando Henrique Cardoso. Estes votariam certamente em qualquer nome indicado de forma insofismável por esses três consumados caciques tucanos;
B – Eleitores de Marina Silva, admiradores de sua Rede Sustentabilidade, espalhados por todo o país, mas notadamente nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Terceira colocada quando do segundo turno, a acreana tem abocanhado sempre algo entre 15% e 22% nos pleitos iniciais de 2010 e 2014;
C – Eleitores do PSB que insuflaram ao longo dos anos 2013 e 2014 a candidatura do falecido líder pernambucano Eduardo Campos. Representava a terceira via na política brasileira, bem mais que sua então candidata a vice Marina Silva. O PSB pernambucano tem imenso capital político no estado de Pernambuco e em alguns outros estados do Nordeste, sem falar que ao integrar a chapa vitoriosa de Alckmin ao governo de São Paulo, o PSB conquistou elegeu seu vice-governador;
D – Eleitores do Paraná e de Goiás, respectivamente de Beto Richa/Álvaro Dias e de Marconi Perillo, foram os grandes responsáveis pela boa votação do mineiro nesses importantes estados. Novamente, com todo o desgaste de Beto Richa no Paraná, ainda assim, para 2018 certamente milhões de paranaenses e goianos votarão seguindo a guia de Dias e Perillo.
E – Resta assim para Aécio Neves algum contingente de votos dos mineiros, mas não a sua maioria uma vez que esta foi dada logo no primeiro turno ao petista mineiro Fernando Pimentel que se elegeu de primeira, ainda no primeiro turno eleitoral de 2014. Agora, no momento em que se demonstra à larga a farsa que era o decantado e propagandeado “choque de gestão tucano em Minas”, com o estado em situação de penúria financeira, há que se imaginar que Aécio precisará se desdobrar para reconquistar seu tradicional feudo.
Para alguém que ainda se acha “dono” de 51 milhões de votos reunir em todo o Brasil alguns milhares de simpatizantes (segundo o Datafolha, 83% dos que foram as ruas em protestos contra a corrupção e pedindo golpe contra Dilma Rousseff se disseram eleitores de Aécio Neves) não deveria significar mais que isso – uma manifestação contra o Governo. Ponto.
Para efeito de análise, na Argentina manifestações contra Cristina Kirchner ocorrem quinzenalmente, lotam com meio milhão pessoas a tradicional avenida 9 de Julho, fazem muito barulho, mas assim como se congregam, se dispersam e a vida continua – Kirchner continua governando, enfrentando a alvoroçada mídia tradicional portenha, sofrendo duros golpes em sua combalida economia, mas continua de pé e, segundo consultorias de renome internacional, deverá eleger seu sucessor no próximo pleito presidencial.
No Brasil será que seria diferente? Manifestações na avenida Paulista de São Paulo, na Atlântica do Rio de Janeiro, no Farol da Barra de Salvador, na Praça da Liberdade de Belo Horizonte e nas pontes coloniais do Recife antigo – será que todas elas juntas, na média de uma por mês (15/3/2015 e 12/4/2015) e com números decaindo por volta de 60% da massa que a elas acorrem, será mesmo que isso será suficiente para derrubar um governo legitimamente eleito como o de Dilma Rousseff? Daria para fazer pensar se o número de manifestantes atingisse algo como 10% dos que optaram pela chapa oposicionista em 2014 e esses fossem ao meio fio atendendo ao chamamento das oposições e, ainda assim, teriam que começar com uma base de 10% dos que votaram em Aécio Neves, qual seja, 5 milhões de manifestantes e esse número precisaria crescer exponencialmente, semana a semana, alcançando algo como 20%, daí então movimento da espécie poderia ser levado minimamente a sério. No mais, tudo não passa de birra de mau perdedor, de quem acredita que em um mesmo passeio dominical se pode rasgar festivamente a Constituição do país…
Portanto, feitas as digressões devidas, há que se perguntar:
1 – Aécio Neves pensando apenas em si mesmo, não estará praticando crime de “lesa-partidarismo”, dilapidando o patrimônio de votos que não são seus e sim da Oposição como um todo?
2 – Até quando caciques como José Serra e Geraldo Alckmin suportarão calados e inertes que esse patrimônio seja dilapidado a olhos nus diante das decisões imensamente com viés antidemocrático, altamente equivocadas, perigosamente anárquicas e de maneira imperial e autoritária tomadas a toque de caixa pelo presidente nacional do PSDB, o senador Aécio Neves, esse inconformado perdedor das eleições de 2014?
Uma coisa é certa: 2018 começou e os tucanos já começam muito mal posicionados no tabuleiro. Na verdade, não são os tucanos que começam mal e sim é Aécio que se auto empurra ladeira abaixo quando da escolha do candidato de seu partido para enfrentar o petista Lula da Silva. Nessa toada ensandecida para derrubar Dilma do Planalto chegará em 2018 mais contaminado que a usina japonesa de Fukushima, ou seja, seus melhores companheiros lhe evitarão até mesmo a companhia.
Precisava ser assim?