Policiais racistas, sociedade omissa


 

No dia 25 de fevereiro aconteceu mais uma cena lamentável de racismo explícito em Salvador, cidade majoritariamente composta de pretos. O correntista da Caixa Econômica Federal do Relógio de São Pedro de Salvador, Sr. Crispim Terral, 34, preto, casado e pai de cinco filhos foi agredido covardemente por policiais da PM da Bahia, quando foi ao banco reivindicar, pela oitava vez, uma devolução de R$2.056,00, retirados de sua conta indevidamente, quando foi surpreendido pelo gerente da agência Mauro, que o atendeu com indiferença, deixando-o esperando por quatro horas e quarenta e sete minutos. Indignado Crispim dirigiu-se a mesa do gerente geral Sr. João Paulo, que da mesma forma e ainda mais rispidamente não lhe deu a devida importância, e ainda cometeu o desplante de ameaçá-lo dizendo o seguinte: “Se o senhor não se retirar da minha mesa vou chamar a guarnição”.

Imediatamente dois policiais pediram, segundo Crispim, de forma educada, que ele e o gerente, fossem até a delegacia para prestar os devidos esclarecimentos. Quando desciam ao térreo da agencia, o gerente Paulo falou que só iria à delegacia se os policiais algemassem Crispim, dizendo que ele “não faz acordos com esse tipo de gente”.

Interessante que após este comentario racista do gerente, os policiais(um deles), antes educados, covardemente, deu uma gravata(mata-leão) em Crispim, que não esboçou nenhuma reação violenta(o vídeo mostra isso claramente), nem ameaçou a integridade física de ninguém , muito menos dos policiais, e ainda foi jogado violentamente ao chão, diante de sua esposa e filha, agarrado brutalmente pelo pescoço por um dos policiais, ante os olhares de dois deles que não fizeram nada para evitar a agressão covarde de seu colega de farda.

Fica evidente, mais uma vez, que esta situação somente ocorreu por se tratar de correntista preto. Se o correntista fosse branco, bem vestido, engravatado, portando uma pasta, acompanhado de uma mulher loira, certamente esta cena não teria acontecido e eu não estaria comentando este fato. 

O gerente da Caixa e os policiais são preconceituosos, racistas e usam dois pesos e duas medidas no trato com pessoas que não tenham a aparência que eles respeitem. Salvador é uma cidade constituída majoritariamente de pretos, incluindo a maioria dos policiais de nosso Estado, mas parece que isto não é suficiente para que eles saibam lidar com situações como está sem agredir nenhum dos dois lados.

Infelizmente a postura desmedida dos policiais, conta com a aquiescência de seus superiores que quase sempre se solidarizam com atitudes como estas e permitem que policiais continuem a fazerem o que fazem. Estas arbitrariedades só mudariam se a postura do comando militar fosse diferente, o que é muito difícil acontecer.

Exemplo disso, que hoje, 26/02, num programa policial da BAND-BA, por volta das 15horas, quando colocaram o Comandante da PM, Cel. Anselmo Brandão, para se posicionar, ele, sem nenhuma cerimônia, disse o seguinte: “Eu não posso comentar somente através das imagens, preciso ouvir os policiais”. Imagens para o coronel não valem nada, o que vale é o que seus comandados lhe dizem. È brincadeira.

Governador da Bahia, Rui Costa(PT), sugiro que o senhor retire todas as câmaras de segurança espalhadas pelas ruas de Salvador e economize este dinheiro porque o que elas estão filmando podem não valer para comprovação de infrações criminosas.

Se o pacote de bondades do projeto de segurança pública do ministro Sérgio Moro, que inclui entre outras mesmices o excludente de ilicitudes para policiais, que prevê o fim de investigações por mortes cometidas por policiais se eles alegarem legitima defesa, ai estará decretado que o policial terá carta branca para aplicar o mata-leão e outras coisitas mais em pobres e pretos(PP) pelo Brasil afora.

É bom lembrar que o Brasil é signatário de uma série de convenções internacionais e a nossa própria legislação diz que tem de haver investigação, portanto dar essa proteção constitucional para policiais ai será fim da picada, quero dizer, dos PPs.

A omissão não se dá somente pelos agentes do Estado, ela se dá quando a sociedade não se posiciona, principalmente a população negra, quando fica omissa e faz de conta que não viu ou não sabe de nada. Salvador tem quase uma dezena de entidades de movimentos negros e blocos afros; vereadores, deputados, artistas, cantores, músicos, pseudos intelectuais baianos (oportunistas), jornalistas, repórteres e apresentadores de TVs negros, e a gente não vê esse povo todo se pronunciar, excluído aí uma apresentadora negra de uma emissora de televisão pública de Salvador. Afinal ela trabalhou, no horário eleitoral de TV, na campanha presidencial de Haddad(PT) e não seria justo exigir que ela se pronunciasse a favor de um “simples negro” agredido pela polícia de seu patrão, Rui Costa.. Esta exceção também vale para os blocos afros e entidades de movimentos negros da Bahia que, como a apresentadora, vivem das benesses do governo baiano e não seria justo cobrar solidariedade deles para um único preto agredido por policiais. Pra eles isto parece irrelevante. E tenho dito.

 

Juarez Cruz

Escritor e cronista

Salvador-BA

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