Um adeus ao Cadete que era, na verdade, um marechal


Vi um vídeo emocionante sobre a trajetória do fotógrafo Antônio Francisco da Costa Neto, que Vitória da Conquista conheceu como Cadete. O documentário, curto, mas responsável por nos falar de uma história de mais de 80 anos, foi visto por muita gente nos últimos dias, infelizmente, pelo mais triste dos motivos: Cadete morreu no começo do sábado, 1º de dezembro. O paraibano que escolheu ser conquistense e que ajudou a revelar muito desta cidade, deixou o lugar que escolheu viver por mais de meio século, onde criou seus filhos e de onde tornou-se um dos personagens mais importantes.

É certo que ele estava silencioso nos últimos tempos. Ficava mais em casa, porque até gente como ele se debilita em algum momento da vida. Mas, eu estou falando de debilidade física. No caso de Cadete, quem o conheceu, com aquele pique, energia e a voz, rouca, mas sempre dois tons acima, ecoando nos ambientes a força que ele tinha por dentro, era mais difícil pensar que ele se recolheria tão cedo.

Há um tempo vinha falando com o filho dele que pegou o mesmo apelido (que virou nome), o médico Clodoaldo Fernandes Costa, que eu queria ir na casa dos pais dele para bater um papo com Cadete. Queria escrever algo sobre ele, não sobre o fotógrafo, que é a memória mais acesa que Vitória da Conquista tem dele, mas sobre o jornalista. Sim, eu tenho essa mania de chamar de jornalista todo mundo que um dia eu vi fazendo o que jornalista faz. E eu vi Cadete fazendo. Se ele não era jornalista, seria se tivessem lhe sobrado tempo e oportunidade.

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Aliás, Cadete pai poderia ser jornalista, Cadete filho e o mais novo (dos homens) Clodomar também. Está ali uma casa em que o povo é chegado a esse negócio de escrever, publicar, divulgar, comunicar. O pai fez isso por quase a vida inteira. Do carro de propaganda volante, aos guias (turísticos, comerciais, etc.), que eram verdadeiras revistas em formato de bolso, com a história de Vitória da Conquista, personagens, casos. O que hoje a gente pode achar com uma pesquisa no Google, Cadete colocava nos guias que fez por muito tempo. Simplesmente tudo. Dos endereços da chamada alta sociedade aos cabarés, com os nomes de suas damas proprietárias.

Quando cheguei a Vitória da Conquista, no dia 25 de setembro de 1984, fui recebido por Cadete, que me levou à pensão da Rua São Pedro II. A Tarde me mandou para trabalhar com ele na sucursal do jornal. O jornalista era Hélio Gusmão, o saudoso Hélio Boquinha, que estava adoentado e se afastara. Cadete era o representante comercial, fotógrafo, chefe de redação e professor. Me ensinava caminhos, me apresentava a pessoas, lugares, entendia rápido cenários, situações e me dava dicas, fosse para eu acertar na pauta, fosse para eu não me dar mal.

Mas, Cadete não escrevia matérias para o jornal A Tarde, embora muitas vezes o texto meu que saía lá tenha se originado de anotações feitas no papel por ele, com aquela letra gigante, cheia de curvas. Até que um dia ele me chama e diz que vai fazer um jornal. Ele, Clodomar, eu e colaboradores. Lembro da negociação com a colunista social – porque se não tivesse coluna social não seria jornal (hoje as colunas sociais viraram as revistas que conhecemos na cidade).

Ele convidou Glória Maria, que era vizinha e fazia uma coluna de sucesso no Tribuna do Café. Glória topou, mas não poderia assinar com o mesmo nome sob pena de confundir o leitor ou criar um conflito com Isnard Vasconcelos. Então, nasceu Gracilla Marla, que teria de vantagem sobre a concorrente, Glória Maria, a possibilidade de colocar fotos. O outro jornal era feito em uma impressora antiga e usava clichê, que custava caro e só era feito em Salvador.

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Os cinco “C” e Dona Ozelina, parceira da vida toda

Não lembro quanto tempo durou o jornal, que se chamava Tribunal Regional, tendo como subnome “Os Cinco C”, em referência à primeira letra de Cadete e de Clodoaldo, Clodovaldo, Clodomar e Clodege, os quatro filhos dele e de Dona Ozelina, sua companheira de jornadas, dores e alegrias por mais de 70 anos (60 de casados e dez de namoro). Tinha até um símbolo curioso, que não ficou muito presente na história de Cadete, que era um K estilizado, como se fosse uma pessoa segurando uma câmera fotográfica (que era chamada de máquina fotográfica naquele tempo).

WhatsApp Image 2018-12-03 at 23.10.18Quando eu vim para Vitória da Conquista eu fiz a minha aposta mais arriscada – e mais confiante. Eu deixei minha cidade natal, meus pais e irmãos e um emprego no antigo Banco do Estado da Bahia (Baneb) para tentar vencer “a maior cidade do sudoeste da Bahia”, lugar de mulheres bonitas, homens valentes, pessoas poderosas, muito café e um frio retado. Sabe aquele medo que existe para nos dar coragem? Vim com ele. Eu não sabia que encontraria Cadete e a família. E eles me receberam com imensa generosidade. Me deram abrigo, comida e por muito tempo via na amizade e na casa deles, a segurança de estar longe de casa sem medo de me perder.

Profissionalmente, nos afastamos em 1985, depois que fui trabalhar na prefeitura. Mas, não desfiz a ligação emocional, costumava ir à casa dele e de Dona Ozelina nos feriados. Sempre havia alguma coisa bem gostosa para comer, uma cachacinha de nome pitoresco para alegrar o dia e a boa prosa de sempre. Como já escrevi outras vezes, sou uma pessoa chegada a saudades. Acho que isso também tem a ver com gratidão, que, para mim, é dívida eterna. E quando eu li a mensagem que Clodoaldo me enviou pelo WhatsApp dizendo “Papai acaba de falecer”, recebi a notícia como se ele soubesse que eu tinha o pai dele como um pai também. Fiquei bem triste.

A mensagem fora enviada à 0h47. Eu só a vi às 11h25. Fui ao velório me despedir de Cadete e abraçar Dona Ozelina e os filhos. Achei tão bonito os cavaleiros da Loja Maçônica Fraternidade Conquistense nos dois lados do caixão empunhando suas espadas, em um digna reverência ao irmão. Pensei em como aquilo sairia no Tribuna Regional. Imaginei uma manchete: Despedida de um cadete com honras de marechal. Porque, depois de tantas batalhas enfrentadas, tendo, no dia 1º de dezembro de 2018, vencido a guerra, com certeza, o propagandista, fotógrafo, jornalista, mestre de obra, cantador de bingo, filantropo, marido e pai, Antônio Francisco da Costa Neto, com toda certeza, já chegou no céu promovido.

Saudade, Cadete. Obrigado.

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Antônio Francisco da Costa Neto, o (muito) popular Cadete. 1933 – 2018 (Fotos: Álbum da família)

 

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