A Cultura do berimbau


“Só toco berimbau”. Esta foi a resposta, acompanhada de gargalhadas, de Osmar Terra, quando os jornalistas lhe perguntaram sobre os seus planos para a cultura no Brasil. Indicado ontem para compor o primeiro escalão do presidente eleito Jair Bolsonaro, o político e médico gaúcho, filiado ao MDB, terá sobre sua mesa, no Ministério da Cidadania, uma extensa pilha de problemas e soluções que desafiam qualquer administrador público.

No primeiro encontro com a imprensa, o ex-ministro de Michel Temer confessou, sem acanhamento, total desconhecimento sobre sua responsabilidade nas áreas cultural e esportiva. Acrescentou que recebeu de Bolsonaro somente orientações sobre os programas sociais do governo.

Além de sua aptidão no manejo – tenho minhas dúvidas – do berimbau, Terra mencionou a Lei Rouanet, alvo de críticas durante a campanha eleitoral do militar da reserva. O programa, que financiou movimentos culturais nos governos passados, passará por uma auditagem.

A gélida Islândia, situada no norte da Europa, foi citada por Terra, como um exemplo no combate ao uso de drogas pelos jovens, oferecendo-lhes atividades culturais nos horários ociosos. Está nos planos do futuro ministro distribuir instrumentos musicais aos adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

Aficionado pelos esportes, ex-judoca, comungo do sentimento de preocupação dos esportistas deste país. Todos perguntam: “Como vai conseguir esse senhor Terra, ao mesmo tempo, dedilhar a corda do berimbau e chutar uma bola?” Como você, Jeremias, batalhador pela sobrevivência, aqui, em Vitória da Conquista, dos projetos culturais se posiciona neste momento?

Conheci Jeremias há mais de 30 anos, militando como repórter e editor de Economia, e, posteriormente, na chefia da Sucursal de “A Tarde”, em Conquista, numa época em que o jornal gozava do respeito dos baianos. Aposentado, Jeré passou a se dedicar à cultura local, como uma forma de retribuir o carinho recebido dos conquistenses.

Jeremias abriu um espaço em sua residência, onde são realizados encontros culturais (literatura e música); lançou dois livros (“A Conquista Cassada” e “Andanças”); e criou o blog “aestrada”, onde se propõe publicar poemas e fotos, e lançar um CD.
Depois de ler sobre o último sarau cultural deste ano, que versou sobre a obra de Graciliano Ramos e os 80 anos de lançamento de “Vidas Secas”, do escritor alagoano, questionei sobre o descaso que é revelado pelo poder público quando se trata de incentivar esses embriões culturais que vicejam em diferentes pontos da cidade.

A Secretaria de Cultura de Vitória da Conquista, que também abraça o esporte, o turismo e o lazer, tem no seu manual de conduta “a promoção de políticas de incentivo e preservação à cultura do município, em suas diversas formas de manifestação, proporcionando meios para sua difusão na comunidade”. Tem mais: “Catalogar e registrar a história cultural da cidade, além de apoiar os eventos culturais independentes”.

Não tenho ciência de que algum funcionário da Tina Rocha tenha feito uma visita ao “Espaço Cultural A Estrada”. A secretária não pode, nas suas horas de trabalho, apoiar a cultura local, chutando o axé para escanteio; verificar que o gramado de R$ 1 milhão do “Lomantão” provavelmente será considerado como impraticável pela FBF, a poucos dias do início do Campeonato Baiano; que a área do Cristo, cartão-postal da cidade, precisa ser recuperada.

Conceder títulos de cidadão conquistense; requerer ao prefeito a colocação de quebra-molas, contrariando uma norma do Denatran; e votar moções de aplauso ou de repúdio, o que sempre gera trocas de insultos. Estas são as atribuições dos doutos vereadores daqui e de quase todos os municípios brasileiros. Na verdade, desconhecem as necessidades dos seus eleitores. Excelências, concedam alguns minutos para ouvir e apoiar aqueles que, mesmo não sendo conquistenses de berço, se empenhem pela cultura local.

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