Kit Goebbels – (À memoria de Péricles Gusmão Regis)


Professor Ruy Medeiros

O Tribunal Superior Eleitoral obrigou o capitão reformado candidato a Presidência da República a retirar de sua propaganda informação de que o candidato que lhe faz oposição (ou o partido desse) teria criado o kit gay a fim de precocemente induzir crianças a partir de seis anos de idade dirigir sua orientação para a homossexualidade.
O Tribunal deixou evidente que informação do capitão reformado e de seus partidários mais virulentos é gritante mentira.
O capitão não teve a decência de informar a seus eleitores que um de seus fortes argumentos de campanha era uma farsa.
Sei de mães, que não desconfiaram do absurdo do chamado Kit Gay, e direcionaram, em razão da existência dele, seu voto para o capitão reformado. Uma delas disse haver recebido mensagem na qual se esclarecida que dentre os componentes do kit encontravam-se reproduções de pênis e vagina “bem realistas” (sic) que eram entregues à manipulação de crianças.
Toda a mentira foi exaustivamente propagada e, entre indignação e revolta da consciência, mães, avós, tias pais, etc, apoiaram o capitão reformado em sua cruzada contra a deturpação do ensino das crianças na escola com a adoção do kit gay. Não pararam para desconfiar que aquilo não poderia ser verdade.
Seguramente muitos foram vítimas da orientação que Joseph Geobbels fixara para a propaganda nazista: repetir sempre a mentira para que essa se tornasse convenção entre as pessoas. Alguns sintetizavam: a mentira bastante repetida toma ares de verdade. É a orientação que se encontra na base de tudo o que foi divulgado envolvendo a (inverídica) existência do Kit Gay.
O que, antes de desconfiar do absurdo, muitos intuíram foi que o chamado Kit Gay violentava sua própria formação e feria a sua consciência e por isso substituíram a análise pela indignação. Havia forte condicionamento sócio-cultural para que isso ocorresse. Isso e tudo o mais que está descendo “goela abaixo”, inclusive de pessoas que possuem algum nível de formação. Essa situação já foi examinada em outros contextos, como o fez Madaleine Albright.
Madaleine Albright, ex-Secretária de Estado dos Estados Unidos (entre 1997 e 2001) e embaixadora de seu país junto a ONU, de formação liberal, sobre condicionamentos e motivadores do fascismo (é disso que se trata!) dentre outras coisas diz: (…) “a energia do fascismo é alimentada por homens e mulheres abalados por uma guerra perdida, um emprego perdido, uma lembrança de humilhação ou a sensação de que o seu país vai de mal a pior. Quanto mais dolorosa for a origem da mágoa mais fácil é para um líder fascista ganhar seguidores ao oferecer a expectativa de renovação ou prometer restituir-lhes o que perderam”.
Mas como ficam aqueles que, acreditando no kit gay, direcionaram sua escolha eleitoral ao capitão reformado? Tomarão conhecimento de que foram vítimas de grotesca mentira de uma propaganda geobbelsiana? Entenderão o caráter fascista da coisa?
Primo Levi, autor de livros célebres, com “É isto um homem?”, “A trégua”, “Se não agora, quando?”, etc, anotou: “Toda era tem o seu próprio fascismo”.
Sim, velho escritor, toda era tem o seu próprio fascismo, inclusive a era atual. Tivemos outras eras fascistas, como aquela iniciada em 1964, que tantas vítimas deixou enlutando famílias. Uma dessas foi Péricles Gusmão Régis, Vereador em Vitória da Conquista, morto em dependência militar após prisão por golpistas. Viana, fotógrafo que labutava no Beco da Tesoura, foi chamado para fotografar o cadáver e a alguns ele exibiu retrato de um Homem moreno, jovem, emborcado sobre vaso sanitário de uma cela, joelhos e pernas no chão molhado de seu sangue. Era Péricles e era o preço que fascistas cobravam da sua consciência livre e de sua generosidade.