Que tal tombar as “muriçocas de Juazeiro” como patrimônio imaterial


Jeremias Macário

Que beleza curtir Juazeiro da Bahia com seus 140 anos debruçado ao lado do “Velho Chico”, com Petrolina de Pernambuco na outra margem, e ainda ter o pôr-do-sol no fim de tarde por detrás da ponte que liga as duas cidades! Que saudades do antigo bar “Vaporzinho” no cais que dava vida às noites etílicas e divertia tanta gente alegre tragando amor! Lá se foram os “vaporzinhos”, mas ainda tem os barquinhos cruzando o rio São Francisco na sua labuta diária de transportar os passageiros de lá pra cá.
Pena que encostaram o “Vaporzinho” num canto como um condenado criminoso qualquer, ou um ser contagioso! Mas, tudo isso me faz lembrar os velhos tempos de muitas farras com os amigos Renato, Bubú, Jorge sem carteira, “Toinho” que já se foi, Gilson que também partiu, Titio, Nivaldo com suas palhaçadas, amigas e namoradas Grécia, Rutinha, Regina, Tereza e tantos outros em bares e botequins. Quantas batucadas e presepadas de discussões acirradas, seguidas de reconciliações para outros esquemas e badalações! Tudo começava no bar de dona “Ritinha” até quando ela não se danava e botava toda aquela “molequeira” pra fora.
Naqueles invernos e verões quentes de quarenta anos atrás, as muriçocas de Juazeiro já estavam de olho em nós, mas, na falta de coragem e destemor, o álcool que nos jogava no sono profundo dos braços de Orfeu era uma arma poderosa e infalível para encará-las, se é que se pode falar assim. No outro dia o estrago já estava feito pelo corpo, mas ninguém se importava e nem xingava as danadas que faziam e ainda fazem suas moradias nos esgotos a céu aberto.
Para os desavisados visitantes que inocentes não sabiam e nem sabem como enfrentar os bandos que em tropas tramam seus ataques para se alimentar de sangue dos humanos, aquilo era e ainda é tormento e desespero. Um coitado viajante contou-me, certa vez, que na sua primeira noite numa pensão acordou debaixo da cama com o rosto todo inchado. As vampiras em trabalho de equipe derrubaram o homem e chuparam todo seu sangue. Não teve mais ânimo e saiu fugido da cidade como se corria de um fogo cruzado dos cangaceiros de Lampião. O estranho ficou irreconhecível.
É mesmo verdade as histórias das centenárias muriçocas de Juazeiro, que o diga meu caro primo Washington Macário de Oliveira, técnico, fiscal e inspetor de meio ambiente do Inema, que ainda continua no encalço incessante dos prisioneiros de pássaros no sertão Bahia, com seus disfarces de detetives que deixam a turma da CIA de queixos caídos.
Apresar de todo seu cuidado e proteção em favor dos animais, sem falar aqui do seu mal-estar de tanto ver o “Velho Chico” no seu leito de morte, um dia vi o primo irado em sua casa com uma raquete matando as pobres muriçocas indefesas, pulando de um lado e do outro, suado de tanto exercitar. O esforço não impedia que elas atacassem em bandos de nuvens sem fim. A briga era feia, mas nada adiantava a matança.
Fiquei horrorizado com aquela cena. Se não me engano foi no mesmo dia e noite que me convidou, no Bairro Castelo Branco, para tomar uma gelada no bar do seu amigo. Pelas tantas da noite, lá foi eu para mais uma de suas armadilhas, e nem me lembrei das “bichinhas” irritantes que zunem no seu ouvido lhe deixando com os nervos em frangalhos. Não sabia que elas adoram forasteiros, e os nativos ficam tranquilos quando eles aparecem em seus territórios. Só assim conseguem umas tréguas temporárias e ainda gozam de nós chegantes.
No primeiro copo tentei sentar, mas não consegui. Levantei atordoado e pulava como um saci. As pessoas me olhavam esquisitas já imaginando outras coisas comprometedoras. O primo que estava imóvel explicou que os pernilongos criados ali só picam gente de fora, principalmente de carne enxuta e dura nordestina como eu. Sua vingança foi maligna, mas do meu jeito dei meu troco depois inutilizando sua raquete.
Sempre vou a Juazeiro para visitar minha querida filha Cintia e os amigos, como fiz recentemente em junho. O calor característico da cidade não me incomoda tanto como as centenárias sedentas de sangue. Tive que ir à rodoviária pelo final da tarde e confesso que fiquei surpreso com as nuvens de muriçocas coroando as cabeças dos passageiros como formação de batalhões para o ataque mortal.
Meu primo ri e nem liga para meu protesto, como se não fosse nenhuma novidade e, entre uma cerveja e outra no boteco, até defende as sequinhas de pernas finas dos meus xingamentos. Não pude me conter com sua atitude de menosprezo e, então, deixei-lhe uma sugestão para que a Prefeitura Municipal decretasse o tombamento das vampiras, com o posterior pedido junto ao Ministério da Cultura para que elas se tornem Patrimônio Material de Juazeiro. É muito justo para as cambitas.
Como patrimônio tombado, as muriçocas passariam a ser protegidas por leis e ninguém mais poderia matá-las com tapas nas pernas, nos braços, socos nos rostos ou através de raquetes assassinas e venenos, sob pena de multas e prisão de até dois anos nas nossas cadeias nojentas e medievais. Washington Macário seria o inspetor-chefe, e da forma como ele é durão em defesa da preservação da natureza, cabra nenhum iria se atrever de levantar um dedo, ou palavrão, contra as fininhas inofensivas. Pronto, elas estariam livres para sempre!
Num canetada só, com solenidade e entrevista coletiva da imprensa, o decreto de tombamento seria uma maneira de resolver o problema de uma vez, já que o poder público não toma providências com sistemas de esgotamento sanitário e limpezas na cidade para que as franzinas bicudas retornem ao habitat dos animais silvestre e façam seus banquetes de sangue por lá.
Claro que fui reprovado e advertido pelo fiscal do Inema. Tem cabimento uma coisa dessas! Onde já se viu rebaixar um técnico sério e com tantos anos de lida e experiências, para colocá-lo na linha de frente como protetor das muriçocas de Juazeiro! Fui de pronto chamado de irônico e, por pouco não me deu um sopapo no meu corpo franzino todo picado pelos insetos, mas estendi a “sugesta” de que colocassem estagiários para cuidar da empreitada de zelar pelo tombamento patrimonial das centenárias juazeirenses.