Metas estagnadas e falta de mais recursos para a Educação


Jeremias Macário é jornalista

Há muitos anos os textos sobre educação no Brasil só nos deixam deprimidos, tristes e decepcionados. São só índices negativos, e os planos desgarrados do contexto sempre fracassam porque não existe prioridade para o setor. Quando vamos escrever sobre o tema apresentando dados positivos, na certeza de que iremos ter um país bem melhor com justiça e igualdade social?
É uma interrogação que fica e ainda não temos uma luz no final do túnel que vislumbre boas perspectivas. É muita evasão escolar, e muitos jovens deixam o ensino médio sem saber ler e escrever. Nas competições e nos concursos, só desilusão e vergonha aqui dentro e lá fora, principalmente nas disciplinas de português e matemática.
Esse negócio de país alegre e feliz, como visto no exterior, é um mito. Como ser alegre e feliz sem uma educação de primeira? Não temos a imagem de uma nação séria, mas cheia de paradoxos, e em muitos casos até servimos de piada. Na falta de uma educação mais sólida, a nossa cultura se esvai, e não passamos de papagaios e marionetes imitando a dos outros.
INVESTIR CINCO VEZES MAIS
Agora mesmo, estudo lançado para Campanha Nacional pelo Direito à Educação registra que o Brasil deveria investir até cinco vezes mais do que aplica atualmente para melhorar o cenário da educação pública das creches ao ensino médio. O cálculo foi feito pelo Custo Aluno-Qualidade Inicial e leva em conta gastos para formação e valorização de professores, despesas com água, luz e outros tantos materiais necessários.
Nos recursos para creches em período integral é onde está a maior disparidade. Anualmente seriam necessários R$21.280,12 por aluno para custeá-las em áreas urbanas. Hoje o valor pago por meio do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) é de apenas R$3.921,67.
Para o ensino Fundamental, o cálculo feito estima que o valor deveria dobrar em cidades, e quase triplicar no campo. No ensino médio, o valor atual precisaria aumentar pelo menos 50%, passando de R$7.240,02 para R$19.167,47. Para a educação de jovens e adultos, os R$2.413,34 atuais necessitariam ser elevados para R$8.366,17.
De acordo com a estudiosa no assunto, Luciana Allan, do Instituto Crescer, o primeiro passo para o país avançar com qualidade do ensino público é contar com diretrizes educacionais claras, guiadas por um planejamento estratégico com metas para curto, médio e longo prazos, além de promover a avaliação periódica dos resultados. Fica claro que mais dinheiro é imprescindível, mas não é tudo. Tem que ser bem investido.
METAS NÃO AVANÇARAM
Relatório de acompanhamento do plano feito pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) constatou que das 20 metas estabelecidas pelo Plano Nacional de Educação (PNE), 16 estão estagnadas ou tiveram regressão nos últimos quatro anos.
Com vigência de 2014 até 2024, o PNE conta com 20 metas para todos os níveis da educação, do infantil ao superior. Destas, ao menos três têm prazos intermediários já vencidos.
A primeira meta estabelecia que o país alcançasse, em 2016, a universalização das matrículas para crianças de 4 a 5 anos. O índice, no entanto, está praticamente parado. Há quatro anos, 89,1% das crianças dessa idade estavam matriculadas. Em 2016 o índice subiu para 91,6%.
O índice também não evoluiu na meta que prevê alcançar 50% das crianças de 0 a 3 anos matriculadas em creche. No mesmo período, passou de 29,6% para 31,9%. O crescimento nas matrículas é lento nas demais etapas da educação básica.
O plano estima que até 2024, pelo menos 95% da população de 16 anos tenha o ensino fundamental (do 1º ao 9º ano) completo. O índice que era de 73,4%, em 2014, subiu apenas para 75,9% no ano passado. Neste ritmo o país não vai atingir a meta dentro do prazo. No ensino médio, a situação é a mesma. O percentual passou de 67,2% para 70,1%.
O Brasil tem baixa valorização de seus professores com 22 alunos por turma, segunda maior média mundial, só sendo superado pela Colômbia, com 27 alunos por sala, contra 12 em cada classe na China, o mais populoso do planeta.
O estudo que abrangeu 60 países foi baseado no relatório “Políticas Eficazes para Professores: Compreensões do Pisa” e divulgado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que defende aliviar a carga de ensino do professor, dando oportunidade para que ele possa preparar melhor as aulas. Contratar mais professores é outra solução para resolver o quadro preocupante.
Outro estudo da OCDE constatou que 60% dos professores com menos qualificação educacional no Brasil tendem a trabalhar mais em pequenas cidades. “Com qualificação mais fraca, são propensos a ensinar em escolas desfavorecidas, o que pode levar a um potencial menor de oportunidades educacionais para esses alunos”.
OS IMPRESSOS E OS ELETRÔNICOS
O livro impresso não está desaparecendo, como previram muitos falsos profetas quando surgiram os livros eletrônicos com o advento da Internet. A venda dos eletrônicos é um fracasso diante da venda dos impressos. O próprio dono da livraria Cultura confirmou que a comercialização dos eletrônicos não passa dos 3%. O mesmo está acontecendo nos Estados Unidos.
Há 15 anos venho discordando dessa onda de que o impresso iria desaparecer, mesmo porque, com o baixo nível de educação no Brasil, o hábito de leitura é inexpressivo. Digo sempre que, se a pessoa já não tem o costume de ler o impresso, também não vai se interessar pelo eletrônico. No Brasil temos leitores de títulos e manchetes, e muita preguiça para se debruçar num texto.
Quando surgiu o rádio, disseram que todos os outros meios de comunicação seriam apagados. O cinema eliminaria o teatro. A televisão ditaria o fim do cinema, e a internet acabaria com a literatura impressa. Nada disso aconteceu e não vai acontecer. Todos vão sobreviver.
O escritor Monteiro Lobato dizia que sem leitura não há salvação. É por isso que hoje estamos perdidos no Brasil. Na leitura, o leitor entra num clima de reciprocidade com o texto onde um ler o outro e os dois se interagem.
Muitos acharam que seriam geniais com um computador na mão. Puro engano. O filósofo Umberto Eco chegou a dizer que a internet deu voz aos imbecis, embora não existam somente eles navegando nesse mar de besteiras, asneiras, burrices, estupidez e intolerância onde amigos se tornam inimigos, irmãos brigam e casais se separam.