A Copa…que não pegou


Lucas Gabriel Cirne

É triste para um apaixonado por futebol escrever um texto como este.
Não se trata de opinião, mas sim de uma constatação da qual não se pode fugir: a Copa do Mundo de 2018 não mobiliza o país como nas edições anteriores.
É muito provável, inclusive, que esta seja o torneio com o qual os brasileiros estejam menos envolvidos em todos os tempos.
Até mesmo nos brutais tempos da ditadura militar, quando a seleção era, por vezes, utilizada como “cortina de fumaça” para um governo autoritário e violento, havia mais integração, que fazia inclusive os oposicionistas, em determinados momentos, se renderem a esta paixão que a seleção canarinho representava.
Não se vê, como outrora, as ruas pintadas, bandeiras em janelas, enfeites em carros, discussões em mesa de bar… clima de Copa do Mundo.
De maneira indubitável, não há mobilização social, nem tampouco interesse, ainda que a principal emissora de televisão (fazendo o rotineiro trabalho) queira incutir na alma do brasileiro o sentimento de torcedor, que ficou perdido no passado.
Alguns motivos podem justificar tal distanciamento da população com a Copa do Mundo, mas três deles, sem embargo dos demais, são os mais relevantes.
Em primeiro lugar, há de se destacar o contexto político-econômico do país. Vive-se uma crise capitaneada por um governo corrupto e ilegítimo. Àqueles que um dia foram esperança hoje estão presos. Não há expectativa da população em geral com a proximidade das eleições federais, uma vez que nenhuma das plataformas e pessoas que se apresenta como candidato se mostra capaz, moral e profissionalmente, de reestabelecer a paz social no país.
Nas Copas anteriores o diapasão política sempre se mostrou diferente: ou havia expectativa por novos modelos econômicos e políticos, ou soprava uma brisa de esperança e renovação, que alimentava a confiança, autoestima do povo e, por conseguinte, o afeto à seleção nacional.
Para além disso, com o passar dos anos, foi escancarada a corrupção que sempre permeou a entidade que comanda o futebol nacional, o que, sem dúvida, minou a relação da população (já tão revolta com os desmandos e conchavos da política) com a seleção brasileira.
Por fim, como engrenagem nessa roda, há a posição da própria seleção brasileira e sua comissão técnica, que, por mais que reforce o discurso de retorno às origens, e que possua um técnico que, diferente dos demais, se preocupa com temas que vão além do futebol em si, parece não fazer questão, na prática, de estar próximo à população do seu país.
Apenas para se ter uma ideia, o Brasil foi a única seleção sul-americana que não disputou um amistoso de despedida em seu país antes da Copa do Mundo.
(Sim, precisamos aprender muito sobre nacionalismo e valorização do país como nossos vizinhos de continente).
Somado a isso, toda a globalização e o dinheiro do mercado internacional que levam os nossos jogadores, ainda jovens a experimentar outra realidade, distante física e afetivamente do país, o que afasta ainda mais o time do povo brasileiro, que já não se vê mais tão representado como ocorria em outros tempos.
Enfim…apesar desta realidade, é provável, diante da qualidade técnica da seleção brasileira (uma das favoritas ao título), que, durante o torneio, as pessoas embarquem no espírito da Copa do Mundo e consigam vivenciar um pouco da alegria e do sentimento de nação, que a cada dia é um pouco mais arrancado dos seus corações.