A Conquista dos donos da cultura


A princípio, já sei, antecipadamente, que não serei apenas criticado, mesmo porque discordar faz parte da natureza humana e do debate democrático aberto a todos. Entretanto, muitos irão soltar impropérios e flechas venenosas com conotações depreciativas contra minha pessoa, do tipo rancoroso, imbecil, provocador e frustrado.
Com minha idade avançada, já não me importo mais com as pedradas. Sou cidadão conquistense vivendo aqui há quase 27 anos. Procurei durante este tempo estudar as origens e a história desta terra, bem como, observar a prepotência vaidosa intelectual de muitos que se consideram donos da cultura e que se portam como deuses intocáveis. Existe muita presunção na cabeça de muita gente.
O resultado disso é que tudo que se faz, ou se estar por fazer aqui em torno da cultura, tem que girar ao redor desses sacerdotes ilustres que comandam os rituais litúrgicos. Sem o aval deles, qualquer expressão ou trabalho artístico não consegue se sobressair e alcançar maior divulgação interna e externa. Para abrir passagem e ser prestigiado tem que pedir a benção deles.
Antes de adentrar na questão concernente ao título de cunho opinativo, permitam-me uma pausa para uma observação. No último dia 21 (terça-feira), na Livraria Nobel, quando do lançamento da obra “A Guerra das Coronelas Sá Lourença e Isabelinha no Sertão da Ressaca – Vitória da Conquista”, do autor José Walter Pires, fiquei sem entender o porquê da secretária da Cultura não ter sido convidada a fazer parte da mesa das celebridades. Foi uma gafe, ou foi coisa proposital, premeditada? Afinal de contas, ela estava ali presente prestigiando um evento da sua pasta, representando toda a cultura do município. Eu só queria entender!
Bem, voltando ao nosso tema provocativo e polêmico, a par de duas universidades, uma estadual e outra federal, de várias faculdades particulares de ensinos presenciais e à distância, a cultura de Vitória da Conquista não tem um projeto consolidado de realizações. Sem verbas próprias e uma diretriz traçada, vivemos de atividades pontuais soltas no espaço. A sensação é que muita coisa acontece sem um calendário programático. O que foi realizado num ano pode deixar de ser no outro.
O setor privado, ainda com sua mentalidade provinciana, dificilmente investe na cultura e no esporte porque acha que não compensa. Quando dá alguma coisa faz como forma de ajuda, esquecendo que o doador também está sendo beneficiado com a divulgação da sua imagem perante o público. Isso acontece, por exemplo, com o futebol da cidade. Quando o time está vencendo aparece alguma ajuda, mas se perde, não tem apoio. O atleta sofre para conseguir um patrocínio e desenvolver seu trabalho.
Com nosso complexo de superioridade (tem muita gente que não se considera nordestino) ainda nos alimentamos da fama de fora de que Vitória da Conquista é uma cidade cultural de alto nível, talvez por conta de um passado efervescente e por nomes como Elomar, Glauber Rocha, Camilo de Jesus Lima (Caetité) e tantos outros, Com todas suas ambiguidades, arrogâncias, pedantismos, prós e contras, cada um com seu grande valor artístico de reconhecimento nacional e internacional, ainda um dia vou me atrever a falar aqui dos titãs da nossa cultura (Elomar e Glauber).
Pela sua grandiosidade, Conquista poderia ter uma atividade cultural intensa, bem mais diversificada e rica, só deixando a dever com a da capital. Não é isso que temos. Não por falta de talentos, mas pela ausência de um plano piloto que contemple a todos, sem as amarras e sem precisar do amém dos donos da cultura.
Com todo esse potencial, maior parte inativa e refugiada em seu canto produtivo, não dá para compreender e aceitar como um Centro de Cultura fica fechado durante quatro anos por causa de uma obra de reforma sob a responsabilidade do Governo do Estado. Não é a cara da acomodação da classe artística local? Cadê o nível cultural? As expressões, as linguagens estão esfaceladas?
A nossa cultura está acéfala, ou o maior mal é o individualismo de cada categoria que se fecha em seu casulo? Ficamos com medo, subjugados e esperando pela reação dos donos? O certo é que a cultura não pode se resumir em pontuais eventos festivos, e nem um ponto importante das manifestações populares e acadêmicas ficar de portas fechadas por quatro anos. É um total absurdo e falta de pressão das lideranças políticas da comunidade!
Aqui, no nosso caso particular, cada segmento das artes (música, literatura, teatro, artes plásticas e outras expressões) se fecha em sua panelinha individual, ao invés de todos se juntarem em defesa de uma causa maior. Cada um tem em mente sua própria preocupação de sobrevivência e procura armar sua teia de críticas com fins destrutivos.
Glauber Rocha, com todos seus defeitos, glorificou o nome de Conquista no passado. Elomar vive no seu universo superior com seus concertos elitizados para poucos, bem longe das agruras dos simples mortais criadores artísticos dependentes do parecer dos donos da cultura. Sem uma provocação conjunta de todos nós, o setor só padece.
Como dizia o cancioneiro baiano Raul Seixas, que rasgava o tecido da alma com suas verdades, “O sonho que se sonha junto, torna-se realidade”. Não podemos ser como aquele filho medíocre que vive à custa do sucesso do pai. O poder público e seus representantes têm que estar abertos à crítica, com humildade, para combater o individualismo e a arrogância, dando a Conquista o seu merecido lugar de cidade cultural que foi no passado na política e na vida social.
É só mirarmos as décadas de 50 e 60 quando Conquista era vista como um centro de ideias revolucionárias que irradiavam para todo resto da Bahia e do Brasil! Tanto isso foi verdade que os generais militares do golpe de 1964 mandaram para cá suas tropas a fim de reprimir e prender as cabeças que iam de encontro às forças reacionárias. Naquela época, Conquista deu um basta aos coronéis do poder.