Um samba chamado Brasil


Numa mistura caricata, estereotipada, folclórica e mitológica entre o passado e o presente, com seus personagens aventureiros, “heróis”, reis, rainhas, princesas, oportunistas e populistas que protagonizam nossa história, o nosso querido Brasil é um fabuloso tema de enredo para o desfile de uma Escola de Samba na Sapucaí do Rio de Janeiro. Com sucesso nacional e internacional garantido de turistas e visitantes de todas as partes, a agremiação pode muito bem ser financiada por bicheiros, cafajestes, cafetões e traficantes.
Todos os segmentos da sociedade e suas instituições com ou sem desvios de condutas e caráter serão representados através do Abre Alas, com carros alegóricos de luxo bem fantasiados, de acordo com as características peculiares de cada um. Não pode ficar de fora o Circo Pindorama com seu velho corcondo Sistema Eleitoral, picadeiros, palhaços, ladrões, corruptos, gangsters, fascistas, cangaceiros, golpistas, jagunços criminosos e, por fim, o povo descamisado, desempregado, faminto, injustiçado e sem esperança.
Como é de praxe toda Escola de Samba ter sua Comissão de Frente, o mitológico brasileiro Monstro de Quatro Cabeças, representando a Mídia, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, fará a abertura do enredo. Cada membro apresentará suas performances espetaculares de mágicas que, através dos tempos, enganam a população em sua fé de acreditar em dias melhores cheios de glórias, num paraíso em que todos são iguais.
Logo após a Comissão de Frente com sambistas, pagodeiros e mulheres esbeltas seminuas de primeira grandeza, acompanham os luxuosos Carros Alegóricos da Mídia com seus monopólios ou oligopólios falados, televisados e escritos, ditando a comunicação da moda, do consumismo, da música lixo, da cultura de massa, das tendências ideológicas e do politicamente correto, como autênticos deformadores da opinião pública.
A maioria engole tudo que ela arrota e tem gente que não liga muito para seu poder de manipulação, não sabendo ser a cabeça mais perigosa de todas. É charmosa, hipnótica, encanta e engana com seus espetáculos sentimentalistas e exagerados. Seu carro mais parece de feiticeiros macumbeiros exus mensageiros das notícias que transformam areia grossa em ouro reluzente.
O Carro Alegórico Executivo tem seu charme de mostrar seus mais de 30 ministérios em forma de bonecos lambidos e pedantes, dos quais um grupo faz parte de uma quadrilha chefiada por um mordomo vampiro. A função deles é sacanear com os aposentados, escravizar trabalhadores, desmatar florestas como lenhadores, vender o patrimônio da nação e tributar os mais pobres e lenhados. Milhares de secretarias, comissionados e gentes indicadas, sem mérito, batem carimbos para engordar o Estado Burocrático.
O Legislativo, através do Congresso Nacional, suas 27 assembleias e quase seis mil câmaras de vereadores, com suas torres, palácios, mordomias e privilégios, é o carro alegórico mais glamoroso e mágico. Lá dentro, sob luzes ofuscantes e tapetes persas, seus membros armam seus esquemas e fazem suas leis de interesses próprios, totalmente de costas com a ala esfarrapada do povo. Nesta ala integra o bloco das estatais que são dilapidadas no decorrer do desfile.
Seus discursos prometem, prometem e sempre tudo fazem para manter o poder. Num balcão de negócios, mais parecido com uma feira, sempre estão recebendo boladas de dinheiro de verbas indenizatórias, de emendas parlamentares, venda de projetos de lei, medidas provisórias e propinas eleitorais. Seus representantes são divididos em bancadas ruralistas, da bala, da bíblia, da bola e dos propineiros corruptos. Nunca do povo.
Por fim, a Cabeça do Judiciário é mais uma aberração desse monstro mitológico na Comissão de Frente. Este carro alegórico é abarrotado de processos onde juízes com uma venda nos olhos e em câmara lenta expedem sentenças. Seus tribunais do medo têm o formato de caixas pretas e são o terror dos mais fracos sem dinheiro. Como se fossem deuses do Olimpo, muitos de seus membros se vestem de marajás e outros, com umas capas pretas, mais parecem urubus ou aves agourentas.
Nesta Escola de Samba chamada Brasil, temos atores principais e coadjuvantes que lambem as botas dos autores do enredo a troco de uma boquinha. A Ala do Capitalismo Selvagem com seus chicotes e chibatas, tem também seus carros alegóricos lotados de empresários, rentistas, burgueses e financistas mamando numa grande vaca leiteira.
A tradicional Ala das Baianas é substituída pela Ala dos Maleiros e das Sacolas cheias de dinheiro com gente engravatada correndo apressada de um lado para o outro, tentando despistar da polícia. Outros colocam grana em cuecas, meias e em bolsos de paletós. Corruptos e corruptores contam bolos de notas. Eles atuam em vários frentes dos poderes do Monstro de Quatro Cabeças. Tem ainda a turma de apoio que integra diversas alas, gente como os doleiros e intermediários das malas.
Tem ainda neste enredo o Bloco dos Partidos Políticos, o mais volumoso e agressivo com cerca de quarenta siglas diferentes, mas com fantasias praticamente semelhantes que chegam a confundir o público e a comissão de jurados. Eles circulam em forma de agrupamentos e são falantes de discursos exaltados e demagógicos repletos de promessas vis.
Como também exercem o papel de agentes duplos como maleiros, são apelidados de caras-de-pau. Até anos atrás eram poucos, mas cresceram assustadoramente porque conseguem dinheiro fácil. Dentro deste Bloco existem ainda várias alas que seguem o roteiro ditado pelos donos das siglas. Esse Bloco arrasta um imenso Carro Alegórico com suas máquinas registradoras potentes de fazer votos eleitorais. Todos caem na lábia deles.
Uma das mais recentes é a Ala da Operação Lava Jato que já foi a maior atração do público, mas, de uns tempos para cá, vem sendo bombardeada por membros de outras alas por se sentirem impedidos de expandir seus atos de delinquência. Com prisões, delatores do crime, e interrogatórios, este bloco é composto de agentes federais, procuradores e juízes.
A missão é algemar e condenar bandidos de colarinho branco, se bem que não conseguem grampear os intocáveis que fazem parte do Monstro de Quatro Cabeças. Com sacolas, montes de papéis e aparelhos de computação, agentes armados de coletes e máscaras contam com o reforço de potentes carros pretos e até aviões, mas os donos do enredo da Escola Brasil querem acabar com esta ala do barulho.
Por fim, a grande ala do povo servidor, dividido entre os chamados “coxinhas” e “mortadelas”, uns morando em casebres, nas ruas, em periferias sujas de esgotos, favelas, e outros em apartamentos e mansões. Uma parte desta ala mais parece com o inferno de Dante, com muito lamento, choro e lágrimas.
Este conjunto da Escola é rico em encenações diversas em que mostra o povo em filas que nunca acabam, ambientes macabros de corredores de hospitais com amontoado de gente doente e morrendo, barracos onde funcionam escolas precárias, balas de rifles zunindo em ruelas e esquinas, pessoas correndo atordoadas e a polícia fardada de cassetetes e armas nas mãos mandando o sarrafo nos mais pobres, negros e gays. Muita tortura e mortes nesta ala.
O mais irônico é que a grande maioria submissa e inculta trabalha para sustentar as mordomias das outras alas, e cada um tem um aparelho brilhante na mão para falar besteiras, futilidades, imbecilidades e praticar discriminações homofóbicas, xenofóbicas e racismos de toda espécie.
Eles também usam de suas artimanhas e jeitinhos para levar vantagens em tudo. São exímios capoeiristas em passar a rasteira uns nos outros, e só se unem nas tragédias. No entanto, sem esta turma de diferentes e anormais não existiria o Samba Enredo Brasil tão excêntrico e paradoxal! Tudo junto dá um filmaço de arroba vencedor de vários Óscares!