Uma licença para o trabalho escravo


O Brasil está conseguindo um feito inédito no cenário internacional que é retroceder aos tempos arcaicos do patriarcalismo das capitanias hereditárias e dos senhores de engenhos com a figura dos coronéis da “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre, onde o senhor todo poderoso era o dono de tudo, além da terra e dos escravos, e a ele todos deviam obediência absoluta. Outro país do mundo não consegue tal proeza!
Assim caminha o nosso maltratado Brasil de hoje, recuando ao tempo passado remoto, diferente das outras nações que procuram cada vez mais aplicar medidas evolutivas no trato do ser humano, através da melhoria da educação, da saúde, da ciência e da tecnologia. O nosso país prefere andar na contramão do progresso social, de volta aos tempos primitivos e coloniais.
Como se não bastassem a terceirização em todas as atividades, as reformas trabalhistas e previdenciárias de dominação do capital e aniquilação dos cidadãos, privatizações e entreguismo do patrimônio público, as retiradas de proteção ao meio ambiente e até das mulheres vítimas da violência dos seus maridos, agora o mordomo de Drácula manda o Ministério do Trabalho baixar uma portaria que concede licença à pratica do trabalho escravo nas arcaicas lavouras ruralistas brasileiras.
Como forma de pagar os votos dos ruralistas da Câmara dos Deputados, os quais irão dizer sim ao relatório fajuto que o inocenta das acusações de crimes de corrupção, o mordomo presidente, antecipadamente, recompensa os oportunistas, premiando-os com a Portaria 1.129 que reduz o conceito de trabalho escravo, dificultando a sua caracterização e consequente fiscalização.
A mesma Portaria determina que a inclusão de empresas na lista suja do trabalho escravo passa a depender de ato do ministro, tirando a autonomia da área técnica, tornando mais difícil a comprovação do crime. No resumo da ópera, a Portaria equivale a uma permissão do rei para o uso do trabalho escravo, não só no campo como na construção civil e em outros setores industriais.
Logo mais deve vir aí decretos para o retorno de concessões de patentes nacionais de coronéis aos latifundiários da terra, títulos de barões, condes, duques, condessas e duquesas. A tropa de enrustidos, seguidora do mordomo, já está defendendo que, como pagamento ao trabalhador rural, basta o patrão dar a comida e a dormida. Eles devem estar maquinando outros retrocessos contra as liberdades de expressão, o avanço e as conquistas das mulheres, dos negros, dos gays e de todas as minorias.
No retrocesso educacional, o Brasil caminha para o precipício. O estudo Políticas Públicas para Redução do Abandono e Evasão Escolar de Jovens, elaborado pelo Ensino Superior em Negócios, Direito e Engenharia, constatou que, no universo de 10 milhões de estudantes jovens entre 15 a 17 anos, a cada ano, quase três milhões deles deixam a escola no Brasil. As universidades estão sendo sucateadas pelo corte drástico de recursos.
Caso este ritmo de atraso continue, o nosso espoliado Brasil levará 200 anos para alcançar o objetivo de universalização do ensino médio, previsto no Plano Nacional de Educação de 2016. Como já havia assinalado acima, o Brasil caminha na contramão das tendências internacionais, uma vez que 74% dos países do mundo avançam mais rapidamente na velocidade da inclusão dos jovens na escola do que no nosso país. Sem educação eficiente a todos, temos atualmente uma nação inculta, fácil de ser manipulada por aproveitadores e oportunistas de plantão.
É o caso de gente imbecil que defende e pede uma intervenção militar no país. Nesse aspecto, o escritor catarinense Carlos Henrique Schroeder cita a Argentina que em termos judiciários e literários teve uma postura bem diferente da adotada pelo Brasil em relação ao fim da ditadura.
Segundo ele, lá teve um processo de deglutição de tudo que aconteceu, com a publicação de livros e mais livros, e julgamento e condenação dos torturadores. No Brasil, o movimento foi de silenciamento, do deixar por isso mesmo. Ninguém foi julgado ou condenado, sem acerto de contas, “tanto que a ideia de ter militares no poder está voltando, o que jamais deveria ocorrer”. Em sua opinião, essa falta de acerto de contas com o passado alimenta esse tipo de manifesto de intervenção militar.
Nesta semana fui agraciado com a leitura de uma entrevista do intelectual, historiador e escritor baiano Luiz Alberto Muniz Bandeira, de 81 anos, que há muito tempo mora na Alemanha. De lá ele diz que o Brasil é visto como uma republiqueta, lamentando que hoje muitos jovens queiram, de qualquer jeito, deixar o país porque não veem futuro pela frente aqui. “Como pode alguém ser otimista?”
Diante da radical divisão da sociedade brasileira, desmoralização dos poderes públicos, assenhorados por chefes e membros de organizações criminosas, a falta de um projeto nacional e aumento do ódio e da intolerância, Moniz Bandeira chega a prever uma intervenção militar.
No final da entrevista, o professor deixa seu recado: “Todos sabem como um golpe inicia, mas não como pode terminar, sobretudo nas atuais circunstâncias em que se encontra o Brasil”. Em retrocesso, caminhando pra trás, o país está fragilizado e pode ser arrebatado por aventureiros tiranos ou tiranetes. O negócio deles é retroceder o quanto possível!