Enfim o Topo


Por Paulo Nunes*
 “artigo escrito em 2 de Novembro de 2002″

Vivemos num país onde por quatrocentos anos gente foi escravizada, onde se impôs aos negros a submissão, a humilhação, a subserviência e, desta maneira, pessoas foram colocadas como se utensílios fossem. Ao libertarmos os negros, os deixamos sem eira nem beira. Aí então, só os artistas prosperaram com a música, a costura, o artesanato, enfim, com atividades que não dependem direta e necessariamente do capital. Nossa administração política libertou os negros, mas negou-lhes as condições básicas de progresso humano, como a escola, a habitação e, fundamentalmente, a propriedade da terra, enquanto abria os portos à imigração italiana e japonesa. Além do mais, aos trabalhadores que chegavam da Europa e Ásia, pagavam em dinheiro por seu trabalho, assinando inclusive contratos, enquanto que aos negros pagavam com a alimentação e nada mais.

A Coroa Português fazia dos habitantes da Colônia uma espécie de sub-raça. Depois veio o Império e aí então para se formar a Marinha e o Exército, os pobres e negros foram convocados, mas nunca passariam do posto de capitão. A Guerra do Paraguai deu status político aos oficiais das duas armas, que atendendo aos anseios do povo, derrubaram o Império e criaram a República e começaram a governar alternando com civis, desde que obedientes às Armas e ao mando político agrário nacional.

Apesar de algumas conquistas populares, sem tanta consistência, o povo não se sentia contemplado nem com o Império, nem tampouco com a República. Na verdade, o povo só sentiu algo de bom, por ironia do destino, no governo de um ditador: o presidente Getúlio Vargas. Outra ironia: apesar de ditador e militar de araque, foi o mais popular presidente do Brasil. Muita turbulência e a Segunda Guerra Mundial leva outra vez os militares ao poder. É deposto o ditador, um militar de verdade assume e mais tarde o ditador retorna nos braços do povo. Apesar da confiança popular expressada nas urnas, tenta calar à bala a oposição, provoca uma violenta reação política e militar e acaba suicidando-se.

Começa a bossa nova e lá vem Juscelino Kubitschek: o povo se sente no poder, era um Presidente civil, doutor! Mas, na verdade, também era coronel da Polícia Militar de Minas Gerais, apesar de ser Coronel Médico, mas militar de carreira. Enfrenta muita confusão política e militar, negocia ambas, não pune ninguém, chega ao fim do mandato, entrega a nova capital e a indústria automobilística, no palanque tenta eleger um Marechal para substituí-lo, mas pela vontade popular é eleito Jânio Quadros. O povo trocou a espada de ouro do Marechal Teixeira Lott pela vassoura de bruxa de Jânio. Sem que se saiba a verdade verdadeira até hoje, aceitou pressões de forças “ocultas” e renuncia aos sete meses de governo. Assume então o homem das famosas “reformas de base” – João Goulart. Assume, mas tem que permitir o parlamentarismo por exigência dos militares. O conciliador Tancredo é o Primeiro-Ministro. Adiante, o povo em plebiscito apóia seu presidente socialista e lhe devolve o poder. Não dura muito e em 64 novo golpe militar leva ao poder um militar intelectual na ditadura pós-64: Marechal Castelo Branco; e o ciclo militar se encerra com o fim do governo do militar mais burro, João Figueiredo.

Tancredo se elege no Congresso Nacional com votos de deputados federais, senadores e deputados estaduais que formaram um colégio eleitoral. Porém, morre antes de tomar posse. Por um acordo político militar, José Sarney, então vice-presidente da República, se torna presidente do Brasil, contrariando a Constituição Federal e com o bom senso e a maturidade do deputado Ulysses Guimarães. O povo não se sentiu contemplado no governo Sarney. Uma decepção para a esquerda, e se elege, lamentavelmente, Fernando Collor, um aventureiro, irresponsável, que sonhava com o parlamentarismo para se tornar imperador. Este é deposto pela sociedade civil organizada e é também a primeira vez que o povo derruba um presidente no Brasil. O vice assume, desta vez Itamar Franco: trapalhão, temperamental, mas faz um bom governo. Inventa o Real, reduz a inflação, melhora a qualidade de vida do povo e leva pelo voto o sociólogo Fernando Henrique Cardoso ao poder. Um presidente bom para um país carente de tudo e, apesar de idéias de esquerda, o presidente governou com a direita.

Lula, corre por fora, perde para Collor! O povo viu que Collor não deu certo. Luís Inácio, então, enfrenta Fernando Henrique em disputa que poderia vencer, não fosse a moeda, o Real. Não desiste. Em 1998 inventam a reeleição e Lula concorre com Fernando Henrique novamente, perdendo no 1º turno. Enfim, com essa história toda, nunca alguém comum, um homem do povo, pobre e civil, chegara ao topo do poder neste país. Todos os presidentes do Brasil eram doutores, ricos, empresários, fazendeiros ou militares de alta patente.

Agora, não! Agora é Lula, um passador de fome do agreste pernambucano que soube à sombra e por certo saberá à luz. Isto talvez em termos políticos, seja a coisa mais importante que levamos cinco séculos para ver e sentir, fazendo-nos acordar para a velha discussão das oportunidades. Quem sabe este país gigantesco, rico e poderoso, mereça alguém pobre, simples, igual à maioria do seu povo para guiar-nos para o caminho da solidariedade e do bem-estar comum a todos. Gostaríamos que Patativa do Assaré estivesse vivo entre nós para nos afirmar que o melhor da vida é o simples e não o complexo e dizer que o melhor gozo é aquele que todas as pessoas sentem igual, independente da quantidade de bens ou do saber que possam ter.

O povo pode se enganar com quem enfeita a lama, mas por certo um dia descobrirá que o miolo estava podre e parece ter sido descoberto só agora. Hoje estamos contentes, afinal, desde 1989 acreditamos. Eu espero, Lula, que você tenha tomado porre de felicidade que você desejou em 1994 aqui, em Vitória da Conquista. Desculpem. Sua Excelência, o senhor Presidente do Brasil.
*Paulo Nunes é jornalista e advogado