Nossa História, Nossa Gente: Lutas entre famílias: “Tragédia do Tamanduá”


Irmãos Lourdes, Gregório e José Ferraz juntos com os sobrinhos Gilson e Edilson filhos de Napoleão Ferraz
Irmãos Lourdes, Gregório e José Ferraz juntos com os sobrinhos Gilson e Edilson filhos de Napoleão Ferraz

Anteriormente, no ano de 1895, o Município de Conquista foi palco de um tremenda luta entre famílias do Cel. Domingos Ferraz de Araújo e da viúva Lourença de Oliveira Freitas, ambas aparentadas entre si.

O fato se deu na fazenda Tamanduá de propriedade daquele coronel, cuja sede se situava no atual Município de Belo Campo, outrora distrito de Conquista.

Fizeram-se sobre o assunto pesquisas minuciosas, para se saber as causas da luta entre aquelas duas famílias, mas não se chegou ainda a nenhuma conclusão unânime. Tudo indica que fora por questões de terras. Um acontecimento fútil, qual seja a morte de uma vaca do coronel, que teria sido morta pelos filhos de Lourença (Calixto, Sérgio e Gasparino), ou ” por causa de uma quarta de mandioca, segundo Leobino Dias Lima. Foi, sem dúvida, a causa inicial.

O certo é que houve muitas brigas preliminares, nas quais tomou parte ativa Afonso Lopes Moitinho, genro de Domingos Ferraz. Agredido pelos filhos da viúva, teria tempo depois, já revestido de autoridade policial matado Sérgio e Gasparino, que se encontravam enfermos no interior do lar, alegando resistência à prisão.

Tanto Afonso como Calixto eram de temperamento agressivo e de indomável coragem, não medindo as  conseqüências pelos seus atos.

Assassinados os dois filhos, Lourença foi a cidade implorar justiça às autoridades, conduzindo numa carroça os corpos dos dois filhos. Por não ter sido ouvida em testemunho policial, deixou-os insepultos no cemitério local, dizendo: “Vocês mataram os meus filhos, agora coma-os.”

A esse tempo Calixtinho, como era mais conhecido, havia fugido  para as lavras Diamantinas, onde conseguiu angariar a amizade de alguns jagunços que lhe seriam útil na vingança. Trouxe-os consigo a Conquista. Hospedou-os em Campo Formoso na casa do Major Martins, que também era seu parente. Conseguiu com ele cerca de 50 homens e armas, formando com os seus um grupo muito forte de atacantes. Caminhou com ele durante à noite e chegou, ao amanhecer, na Fazenda Tamanduá, atacando-a nas primeiras horas do dia 20 de outubro de 1895.

Pegado de surpresa, mas com alguns jagunços às suas ordens, o fazendeiro resiste durante todo o dia. Sem munição e cercada por todos os lados, a residência do coronel é invadida. Não há como deter a fúria de Calixtinho e daqueles homens afeitos à luta e ao crime. Ouçamos ao velho jornalista Aníbal Viana concluir a “Tragédia do Tamanduá”, como ficou conhecida a aquela luta entre famílias:

” Calixto e seus companheiros aproximaram-se da Casa Grande, assaltaram-na ferozmente, e a tiros e golpes de faca e facão, assassinaram a todos, os que se encontravam dentro da casa, em número de 22 pessoas, ficando o chão coberto de sangue, após gritos de angústia e de cenas horripilantes, como se o casarão se transformasse em verdadeiro inferno…”

Depois da tragédia em que pereceram quase todos os membros de uma família, os atacantes saquearam o casarão levando tudo o que encontraram de valor:

Dinheiro, moeda de ouro e prata, jóias, louças de macau e talheres de prata, o mesmo praticando em putras residências de parentes do Cel. Domingos Ferraz, que habitavam nos arredores.

O local onde se situava a fazenda foi transformado em cemitério, e lá repousam ainda hoje os restos mortais de inditosa família.

Calixto de Almeida Freire, uma vez completada a sua vingança, dispersou os jagunços e homiziou-se no lugar Pedra Grande, Minas Gerais, onde foi perseguido e morto a mando dos parentes de Domingos Ferraz.

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Cel. Napoleão Ferraz, primeiro grande empreendedor da região sudoeste

A Tragédia do Tamanduá, como ficou conhecida na crônica sertaneja, teve repercussão regional, tendo sido lembrada durante muito tempo pelos poetas nordestinos que sobre o assunto escreveram Abecês e cantos romanceados.

Também foi descrita pelo prof. e poeta Euclides Dantas no romance “A Cauã da Gameleira”, prefaciado por Camillo de Jesus Lima. Infelizmente os originais do livro desapareceram quando se encontravam no Rio de Jeneiro para ser editado.

Sem se constituir, genuinamente, em uma vedeta. A luta do tamanduá que envolveu duas famílias aparentadas, tem todas as características de outras lutas entre famílias ocorridas no Brasil, tais como Montes e Feitosas, do Ceará, Pires e Camargos em São Paulo e Mouros e Cangussu, mais perto de nós em Brumado, Bahia. Em todas está ” o caráter inevitável, imprescritível e impiedoso da vingança, que é conseqüência da solidariedade da família (“… A  solidariedade, na defesa dos que ela abarca, exige a morte de todo o grupo adversário. É preciso esmagar os rivais e com isso atemorizar a todos protegendo a família contra atentados.”

A luta entre duas famílias de Conquista não terminou com a chacina da Fazenda Tamanduá. Prolongou-se por muito tempo, talvez por mais de 50 anos. Ora um, ora outro parente caía morto por uma bala adversária ou varado por um punhal assassino. Muitos que tiveram parte ativa na luta fugiram para outras terras.

Mas não fugiram da morte, porque jagunços eram incumbidos de descobri-los onde quer que escondessem.

Major Martins e os filhos, em fuga para as Lavras, foram perseguidos e sangrados em Anagé, no lugar chamado Baixinha numa casa velha hoje submersa pela barragem do Rio Gavião. Pena igual tiveram outros parentes do Coronel Domingos Ferraz em Tremedal, onde vivia a maior parte de sua família.

Durante a luta entre Meletes e Peduros, que já descrevemos, surgiu a figura lendária de Olímpio Pereira de Carvalho, que por algum tempo iria conturbar a vida provinciana da Cidade de Conquista.

A princípio simples fazendeiro no distrito de São-Paulinho, hoje cidade de Caatiba, tornou-se depois famoso por comandar um bando perigoso de jagunços.

Servia dele para defender os seus próprios interesses e interesse dos outros fazendeiros, costume antigo que conheceu todo o Brasil rural na sua formação econômica.

Na região de Conquista, o primeiro destes homens destemidos teria sido o coronel João Gonçalves da Costa, que sempre dispôs de muitos homens armados ao seu redor.

” A necessidade de se fazer acompanhar sempre de homens armados”, escreve Emerson Pinto de Araújo, ” face os mil perigos que rondavam constantemente, aliada à aspereza do meio, seria mais um fator que, ao lado de tantos outros, contribuiriam para os futuros fazendeiros das circunvizinhas, a fim de salvaguardarem os seus rebanhos e propriedades, mantiveram jagunços á sua sombra, concorrendo para que, mais tarde, as ambições contrariadas e os interesses em choque  propiciassem o aparecimento do fenômeno social chamado banditismo.”

Procedente das Lavras Diamantinas, lugar onde o poder das armas sobrepujava o poder da pena, Olímpio tão logo se estabeleceu naquelas matas, ganhou fama de homem corajoso e enérgico. Pouco tempo depois foi nomeado sub-delegado de polícia daquele distrito. Revestido desta autoridade, ganhou o apoio e confiança dos coronéis e líderes políticos, sendo chamado, constantemente, para resolver questões de terras, acertos de dívidas e até atos jurídicos, fazendo papel de juiz e promotor.

Em Itambé, antigo Verruga, agiu por muito tempo angariando a amizade muitos fazendeiros, sendo benquisto em geral. Gostava de festas e de farrras, sendo em tudo respeitado. Por isso, quando  seus companheiros de armas exageravam e praticavam atos que não condiziam com a sua compostura, punia-os com a expulsão ou a morte.

Assim foi crescendo a sua fama, que atravessou os limites de Verruga, subiu o Marçal, chegou a Conquista, para se estender até o Norte de Minas Gerais, segundo nos dá notícia Aníbal Viana que o conheceu pessoalmente.

Em Conquista chegou a tomar parte na luta entre Meletes e Peduros, ficando do lado destes últimos. Mas o seu  quartel general era sempre em Itambé. Ali no ano de 1925 travou várias escaramuças contra as forças comandadas por Ascendino Melo, que crescera a olhos vistos em  toda a região, quando venceram os Meletes. Ascendino, a todo custo, queria subjugar Olímpio. Por ter mais poderes, inclusive na força pública, Ascendino Melo conseguiu dominar várias vezes a situação, matando inclusive, vários jagunços do seu  rival ou cercando-os não poucas vezes. Mas Olímpio conseguia sempre fugir do cerco e desaparecer com os seus homens. Passava sob o fogo cerrado conduzindo a sua gente, sem que ninguém fosse ferido, rezando o Santo Ofício. Tinha poderes sobrenaturais segundo os seus seguidores. Uma vez, na zona do Catulé Grande, chegaram a abrir a barriga de uma velha, tida como feiticeira e coiteira de Olímpio para ver se ele ali se encontrava.

Sobrenatural ou humano, Olímpio Oliveira de Carvalho, conhecido pelo povo como  Olímpinho, devido a sua baixa estatura, foi o gênio  das lutas que se travaram nesta parte da Bahia entre os coronéis. Vencedor ou vencido sobreviveu a todas as investidas que lhe fizeram. Nem pôde com ele a Revolução de 30 que enviou a juri popular, mais foi absolvido. Fora um produto do meio e ao meio voltou, passadas as mágoas aterradoras, como artesão e manipulador  de mezinhas para apascentar o sofrimento do povo.

Morreu na cidade de Conquista a 5 de novembro de 1933, deixando numerosa descendência.

Por outro lado, o cangaço seria responsável pela triste herança dos pistoleiros de capa colonial, que durante muito tempo enlutou as famílias conquistenses.