VLT: a chegada do velho novo bonde em Conquista e a “VAN” clandestina


Paulo Nunes é jornalista

Encravada no Alto Sertão da Bahia, Vitória da Conquista não foi agraciada com o bonde do passado, mas, obstante a isso, jamais perdeu o bonde do futuro. Nossa cidade tem hoje 310 mil habitantes, bem distribuídos no território parecido com uma bacia. Cidade erguida com ruas estreitas e carroçáveis, se vê, na modernidade, na obrigação de construir ruas cada vez mais largas para que o fluxo de veículos não sofra atraso e, consequentemente, a economia não seja prejudicada. Em meio a essa necessidade premente, surgem ideias, das mais complexas às mais simples. A administração atual tenta adequar os espaços públicos, ruas e avenidas ao fluxo de automóveis que cresce numa velocidade estonteante. A oposição, por utopia (ou ignorância mesmo), tenta também, a seu modo, trazer ideias que parecem modernas e aplicáveis, mas que estão longe do alcance das finanças públicas municipais.

A administração pública trabalha com orçamento, e esse instrumento é que determina a capacidade de investimento da Prefeitura, do estado ou do país para um ou quantos anos mais. Portanto, as ideias de melhorias sociais de uma nação podem surgir, mas jamais dissociadas do quanto de tributo deve ser arrecadado para as obras futuras, pois dinheiro do governo é o dinheiro arrecadado das pessoas através de seus tributos pagos e não dos tributos presumidamente lançados como débitos.

Na eleição de 2012, o candidato da oposição ao governo municipal apareceu com a ideia de, em seu governo (caso fosse eleito) implantar o sistema de VLT – Veículo Leve sobre Trilhos e, com isso, resolveria o problema do transporte coletivo em Conquista. Como não sabia o que falava, não conhecia o serviço e seus custos, foi dizimado pelo candidato oposto e, consequentemente, perdeu o debate e qualquer chance de eleição, pois não era interessante para o eleitor (que pagaria os custos da ideia), ter na Prefeitura alguém que falasse pela boca dos outros e, mesmo tendo a chance de estudar o problema, prefere de maneira contumaz, enaltecer as qualidades acadêmicas de quem lhe sopra aos ouvidos. Isso não é prudente ao príncipe. O empresário José Maria Caires escreveu um artigo, mostrando algumas vantagens do VLT, sem, contudo, analisar os custos operacionais, presentes e futuros, da obra. Enxerga o equipamento como necessário, mas não urgente.veja aqui
Apesar de ser um bonde, aposentado no passado, o VLT volta com força aos grandes centros sociais do mundo. Meu prezado Zé Maria, claro, como bom conquistense, não imagina que a verba de 1,4 bilhão correspondente a 1% do capital que o Ministro das Cidades pretende usar na mobilidade urbana. Muito bom o raciocínio, pois dá para sentir a pureza do sonho do ilustre empresário. Todavia, política é algo muito mais complexo do que se imagina. O Secretário de Comunicação da Prefeitura, em resposta ao artigo de José Maria, recheou a discussão, trazendo à baila os custos da importante obra e a inviabilidade momentânea, devido a quantidade de passageiros por linha e a capacidade de endividamento do município em relação aos custos da obra se realizada fosse – os custos estimados seriam em torno de R$ 60 milhões por km construído.veja aqui

Por outro lado, o nosso amigo e professor Ubirajara Brito, defensor da ideia do “bonde”, fez um artigo que se transformou em editorial do programa de Rádio “Resenha Geral”. Lamentavelmente, lá no programa, nenhuma discussão esclarecedora aconteceu; foi um editorial que elevava a capacidade técnica e intelectual do ilustre engenheiro e depreciava a capacidade de argumentação do Secretário de Comunicação, uma forma mesquinha de pré-conceito, onde se coloca um engenheiro escrevendo sobre trem de ferro como herói e um administrador como tolo; e isso não é algo politicamente correto. Enfim, o professor Ubirajara, em seu artigo, coloca os custos do “bonde” de Sobral (CE) no valor de R$ 71 milhões. É bem verdade que, no artigo, ele fala que metade da linha é preexistente, mas não foi colocado que a linha preexistente ligava o centro da cidade aos extremos leste e oeste da cidade; logo, a linha preexistente favorece, por demais, na diminuição dos custos, o que jamais seria o caso de Vitória da Conquista, uma cidade construída para cavalos e carroças até 1963 e melhorada para automóveis, notadamente a partir de 1977. O engenheiro finaliza o artigo estabelecendo uma comparação de custos do “bonde” ao Trem da Ferrovia Oeste-Leste, cujo custo fica em torno de R$ 5 milhões o Km construído. Todavia, é bom informar que os 1.527 quilômetros dessa ferrovia tem mais de 90% em leito natural, o que, por si só, já não se pode comparar com área urbana. Um viaduto na mata sempre será mais barato que um viaduto na área urbana; o custo da terra nua é infinitamente menor do que em terra onde exista edificação. Relativamente até que sim, mas em engenharia eu penso que absolutamente não.veja aqui
Já o professor Paulo Pires argumentou a questão dos custos como prioridade na administração pública e colocou a questão apontada pela oposição como uma argumentação política, jamais factível até para a oposição (se esta estivesse no poder).veja aqui.  Atualmente, a Prefeitura de Conquista trabalha com as situações factíveis e tenta, acertadamente, transferir os equipamentos públicos de grande aglomeração para fora do miolo central da cidade. O engenheiro e prefeito José Pedral e os governos sob sua liderança construíram avenidas “envolventes” no entorno da cidade, pois já havia previsão para a explosão da quantidade de automóveis. Guilherme Menezes já percebeu que, em 10 anos, a Avenida Luís Eduardo Magalhães já está sobrecarregada, e agora parte para a implantação da Avenida Perimetral, que vai desafogar, por outros 10 anos ou mais, o tráfego de veículos em Conquista. Não podemos deixar de citar o trabalho do deputado Coriolano Sales na implantação do Anel Rodoviário Jadiel Matos, que amenizou a agonia que era trafegar na hoje Avenida Integração. A cidade lembra bem como era. Em 25 anos, O Anel será a maior Avenida de Conquista, com os seus 33 quilômetros. Pedral deixou um estudo sobre as envolventes, onde se rasgaria nosso território de José Gonçalves a Iguá, de Bate Pé a Limeira e de São Sebastião a Estiva. É a grande Conquista crescendo!

No nosso entendimento, toda discussão política é válida, desde que seja travada com seriedade. Nesse particular, entendemos que, pelo que li sobre o assunto, é necessário que vagões transportem sete mil pessoas por hora, em cada linha, o que daria 112 mil pessoas por dia e por linha, para ser economicamente viável. Conquista tem uma média de 80 mil pessoas transportadas por dia em todas as linhas de ônibus. Necessário se faz também analisar que, mesmo com a implantação do “bonde”, os ônibus continuariam operando nas linhas interligadas. É necessária essa análise da linha do “bonde” para que não tratemos “alhos como bugalhos”. O VLT não faria ziguezague na área central da cidade, passaria onde fosse possível e a parte central continuaria atendida pelos ônibus. Entendemos, outrossim, que, numa cidade onde ainda temos pessoas que não possuem um sanitário adequado em suas casas, onde o esgotamento sanitário ainda não se completou, que o bolsa família (em alguns casos) ainda é a principal e regular fonte de renda, temos que fomentar algo que possa garantir renda e escola para essa população como prioridade nº 1.

Entendemos ainda que, o que seria mais humano seria o fato de, no VLT, todas as pessoas que utilizassem o meio, pudessem fazê-lo sentadas, fato que não ocorre no ônibus. Mas parece que não há essa preocupação no Brasil e em Sobral. Apesar por ser uma pequena cidade, algumas pessoas trafegam em pé no moderno “bonde”. A maioria do proletariado conquistense continuaria sendo tratada como segunda categoria humana, como sempre foi, nos ônibus do passado e do presente. A tendência da população é se estabilizar na cidade em relação ao quantitativo; não haverá o crescimento imaginado por Zé Maria Caires, em outro artigo de sua lavra, ao comentar a explosão imobiliária em Conquista. veja aqui

Hoje, os governos descobriram o óbvio: não adianta incentivar crescimento populacional em grandes metrópoles; dessa forma, a informação, a saúde, os serviços em geral, estão chegando às pequenas cidades e polos regionais são criados. Na Bahia, por exemplo, serão implantadas mais cinco universidades federais, o que ajudará o desenvolvimento do estado como um todo; polos de saúde e educação particulares acompanharão esse desenvolvimento; centros como Guanambi, Caetité, Barreiras, Paulo Afonso, Serrinha, Ribeira do Pombal, Teixeira de Freitas, Livramento e Seabra estão crescendo, e isto diminuirá a migração de pessoas para Feira de Santana e Vitória da Conquista, os maiores do interior da Bahia. Com isso, adequando as vias públicas e construindo vias envolventes (como falava Pedral), a cidade será aprazível. De todo modo, a discussão sobre o tema foi boa. Espero, no entanto, mais prudência e respeito das pessoas nas discussões das ideias, e que essas possam convergir adiante, afinal os sociólogos e filósofos fizeram isso a vida inteira e nós herdamos as benesses de uns e de outros no futuro que chegamos.

Chegando ao poder municipal em 2017,quando se tornou  prefeito de Vitória da Conquista, o prefeito Herzem  Pereira sentindo que seu brinquedo é inviável para as atuais condições financeiras do Estado Brasileiro, resolveu acabar o Sistema de Transporte Público Municipal, quando autorizou num decreto verbal o transporte de passageiros por veículos ( VANS) sem o devido processo legal, atitude pessoal, pois os condutores desses veículos garantiram a eleição alcaide e sem nenhuma preocupação com a cidade e o futuro, apoia de forma irresponsável o transporte clandestino na cidade, demonstrando claramente que a construção do VLT, não trazia no bojo de sua ideia, nada para a população carente, mas apenas a satisfação de de seu ego.