O frasista e o ato

  Ontem, 8.04, o programa de entrevistas mais antigo da TV no Brasil, Roda Viva, da Cultura, conversou com o muito conhecido Delfim Neto por sua capacidade de ironizar e de produzir muitas frases de efeito, um frasista como se dizia. O ex-Ministro, Delfim, criticou as politicas econômicas postas em prática após ditadura militar, mas … Leia Mais


Enterrando ossos

Ruy Medeiros À memoria de Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho Estranha ordem do dia, ou mensagem de co(re)momeração foi lida nos quartéis por determinação do Presidente da República. Dela pode ser feito um resumo naquilo que respeita à história: não houve ditadura no Brasil. Trata-se de negar para esconder algo de que se envergonha? … Leia Mais


Horror & Horror

Ruy Medeiros De tano martelar mensagens conseguiram fazer da reforma da Previdência u’a medida unânime. Unanimidade sobre o desconhecido. Unanimidade sobre o pior. Foram convocados bem pensantes, comunicadores assoldados, jornalistas com ânsia de agradar o governo fardado. Formou-se a santa aliança contra a Previdência Social para salvá-la daqueles que são o seu motivo de ser. … Leia Mais


100 Anos do Falecimento de Meneca Grosso

Para: Dilson Ribeiro de Oliveira e Maria Santos Oliveira, sua esposa, Paulo Márcio Fernandes Cardoso, Humberto Flores, Ubirajara Brito e Francisco Paulo Ribeiro Rocha Há cem anos, na Fazenda Baixa do Arroz, no município de Vitória da Conquista, faleceu Manoel Fernandes de Oliveira, mais conhecido como Maneca Grosso (08 de maio de 1869 – 11 … Leia Mais


Tributo a Heleusa Câmara

Em antologia organizada por Jaime Martins de Freitas, de julho de 1980 (Poetas Contemporâneos de Vitória da Conquista), Heleusa escreveu em introdução a doze de seus pequenos poemas ali estampados: Eu me apresento: há 36 anos no dia 14 de maio de 1944, nesta cidade de Vitória da Conquista, num domingo, por sorte de sol, … Leia Mais


Esse Cientista Político….


Professor Ruy Medeiros

Ruy Medeiros

Causa náusea à inteligência o mote mais repetido desde o resultado das eleições últimas: O país está divido (nunca a sociedade brasileira esteve tão dividida!). Segue-se daí que partido A e políticos B.C.D. dividiram a sociedade.
A credibilidade do mote é amparada em entrevistas e/ou depoimentos de sociólogos é cientistas políticos. Às vezes desrespeitosamente os apresentadores dizem: “esse sociólogo”, “esse cientista político”. Já não se preocupam em nominar, exceto quando se trata de mesas redondas.
No entanto, nenhum sociólogo (falo de sociólogo!) e nenhum cientista político (falo de cientista político!) não ficaria na superfície da coisa, ou na aparência simplesmente fática.
A sociedade está dividida porque é dividida. Essa divisão não é algo atual como, em tentativa ideológica, diversionista, a maioria dos comunicadores sociais fazem os mais apressados crer. Que tal falar em escravidão na Colônia e no Império? Uma sociedade sem profunda divisão? Para não voltar tanto, somente os que fazem jejum de História desconhecem que a ditadura militar instalada em 1964 aprofundou a divisão da sociedade brasileira. Lembram-se de Franco Montoro? Já ouviram falar nele? Esse homem, que foi Senador pelo Estado de São Paulo, denunciava que “no Brasil os ricos nunca foram tão ricos, e os pobres nunca foram tão pobres” e apontava as estatísticas produzidas pela própria ditadura militar, que assemelhavam a divisão de rendas no Brasil àquela existente entre os países mais desiguais do mundo (então, a segunda mais injusta divisão de rendas do mundo!).
Ora, Ora… Esse pessoal sequer suporta que a profunda divisão tenha expressão eleitoral, isto é, nos marcos da democracia burguesa. Se não aceitam a expressão eleitoral da divisão, que pretendem fazer dela?
Um imenso trabalho para reverter a expressão democrático burguesa da divisão foi comandado pelas redes televisivas. A própria expressão, por si mesma, de forma velada, subliminar, passou a ser combatida. Não combatem a eleição livre (a festa da democracia como dizem), mas a sua essência mesma de expressão dos anseios de alguns grupos sociais pobres, ou de opiniões de grupos, que são tidas como radicalização, algo muito nefasto. Combatem-na, mas dizem o contrário. Até a expressão de diferenças dentro da ordem eles não aceitam. A manipulação corre à solta e busca o colapso da consciência. Tomam como objetivo apagar a expressão do conflito e entendem que essa é zona de pensamento perigoso. Pobre democracia. Porém a alegação de provocar divisão só vale se assestada contra alguns, nunca vale contra a direita.
Nada mais propício a isso de que a fala de unidade nacional, de que o amedrontamento, que a preparação às vésperas do novo turno eleitoral do “Brasil ame-o ou deixe-o”. Busca-se o apagamento. (mais…)


Kit Goebbels – (À memoria de Péricles Gusmão Regis)


Professor Ruy Medeiros

O Tribunal Superior Eleitoral obrigou o capitão reformado candidato a Presidência da República a retirar de sua propaganda informação de que o candidato que lhe faz oposição (ou o partido desse) teria criado o kit gay a fim de precocemente induzir crianças a partir de seis anos de idade dirigir sua orientação para a homossexualidade.
O Tribunal deixou evidente que informação do capitão reformado e de seus partidários mais virulentos é gritante mentira.
O capitão não teve a decência de informar a seus eleitores que um de seus fortes argumentos de campanha era uma farsa.
Sei de mães, que não desconfiaram do absurdo do chamado Kit Gay, e direcionaram, em razão da existência dele, seu voto para o capitão reformado. Uma delas disse haver recebido mensagem na qual se esclarecida que dentre os componentes do kit encontravam-se reproduções de pênis e vagina “bem realistas” (sic) que eram entregues à manipulação de crianças.
Toda a mentira foi exaustivamente propagada e, entre indignação e revolta da consciência, mães, avós, tias pais, etc, apoiaram o capitão reformado em sua cruzada contra a deturpação do ensino das crianças na escola com a adoção do kit gay. Não pararam para desconfiar que aquilo não poderia ser verdade.
Seguramente muitos foram vítimas da orientação que Joseph Geobbels fixara para a propaganda nazista: repetir sempre a mentira para que essa se tornasse convenção entre as pessoas. Alguns sintetizavam: a mentira bastante repetida toma ares de verdade. É a orientação que se encontra na base de tudo o que foi divulgado envolvendo a (inverídica) existência do Kit Gay. (mais…)


Um erro


Professor Ruy Medeiros

Diferentemente daquilo que ocorreu em outros países, como a Argentina, por exemplo, o Brasil não puniu responsáveis pelo golpe de estado de 1964, nem por suas práticas sistemáticas de torturas e desaparecimentos contra opositores, na época da ditadura militar.

Provocado a declarar a inconstitucionalidade da lei de anistia quanto ao perdão nessa previsto aos agentes do Poder que praticaram crimes, o Supremo Tribunal Federal acolheu a alegação de anistia recíproca e com isso fechou a possibilidade de punir torturadores, exterminadores e “desaparecedores” de pessoas. É o fato. Foi um grande erro.

Agora, vê-se que um grupo de militares, com apoio de civis que vêm há algum tempo estimulando a intervenção militar (durante a greve dos caminhoneiros isso ficou evidente), aproveita da situação de crise, insegurança e insatisfação popular para eleitoralmente ocupar o poder –esse é claramente o sentido da candidatura de um oficial reformado do exército.

Quem assistiu à propaganda eleitoral daquele nos últimos dias, em horário nobre, e conheça a história do Brasil nos últimos tempos, ou que vive desde os anos sessenta, deve ter percebido nela o mesmo tom com que agia o CCC –Comando de Caça aos Comunistas, grupo que perseguia a todos aqueles que não concordavam com o golpe. Para eles, todos os que não aderiam a golpes ou a golpistas eram comunistas. Como se fazia naquela época contra os adversários, desqualificando-os, a propaganda do capitão reformado ofendeu seu adversário (o que havia feito em postagem anterior qualificando-o de canalha), e se traduz como discurso de intolerância e chamamento à violência.

A propaganda eleitoral do capitão reformado desmente sua mensagem desautorizando a violência. Ele a incita.

Antes da propaganda eleitoral do segundo turno, seu companheiro de chapa, também militar, além de pregar revogação de direitos trabalhistas, prometeu reescrever o conteúdo dos livros didáticos quanto ao sombrio período ditatorial. A mensagem do general vice é clara: ou apaga o conteúdo dos livros ou se faz a versão que ele e seu colega de chapa e farda querem. Da nova versão de “seus” livros de história o general omitirá ou dirá por que torturadores foram perdoados? (mais…)


A fala do General


Professor Ruy Medeiros

A caserna volta à politica. Ontem, dia 09, à noite, a TV Band transmitiu entrevista do General Heleno. Este é o mentor ou um dos mentores do capitão candidato a Presidência da República.
Dentre outras opiniões, o General manifestou contrariedade com audiência de custódia. Trata-se de, presa uma pessoa, ser necessária sua condução a um Juiz de Direito, o qual decidirá sobre sua soltura ou não. Aí vem a batida lamentação de que a Polícia Prende, a Justiça libera. É bom que se diga que sempre que não configurar-se a previsão legal/necessidade da prisão, a pessoa presa deve ser liberada. Isso só é estranhável para quem não é democrata. Já no Século XVI esse tipo de audiência estava contemplada na Lei do Habeas Corpus (Vide História e Prática do Habeas Corpus, de Pontes de Miranda). Somente em sociedade marcada pelo autoritarismo, que não quer vê-lo corrigido, pode-se estranhar tal coisa.
Na entrevista, voltou à tona a proposta de excludência de criminalidade em caso de confronto de militar em atuação de combate ao crime. A questão é que o militar pode chegar já atirando e isso pode, na prática, ser passaporte para execução, como muitas vezes ocorre com a alegação de resistência. E, como já ocorreu muitas vezes, o confronto sequer existe, mas é alegado para justificar execução. (mais…)


Nem sempre…


Professor Ruy Medeiros

O tempo é sombrio. Entre raiva e indignação a consciência obscurece. A escolha pode estar maculada. Quem se dispõe à análise fria e necessária?
Começar a dizer sobre aquilo que Dra. Rosa Weber e os meios de comunicação chamam de “a festa da democracia”, quanto a seus resultados, exige independência de espírito, pois o céu anuncia temporais e pressões. O ódio não vê barreira para imprensar pessoas.
A liberdade de escolha eleitoral não é tudo na democracia e às vezes essa sucumbe exatamente após eleições. O caso clássico é a ascensão de Hitler eleitoralmente ao poder.
Em primeiro lugar, as eleições ocorrem dentro de uma institucionalidade que, por si só, já é limitante. Lembro Gaciliano Ramos que em “Memórias do Cárcere” escreveu: “liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer.”
As recentes eleições com resultado, no primeiro turno, favorável a um capitão reformado que se dá bem com tiradas autoritárias merece que a inteligência fique bastante aberta para que isso (já antecipado por atrocidades) não seja o inicio de uma fase terrível.
É que nem sempre eleições inauguram ou fortalecem democracia (e estou falando mesmo da democracia burguesa tão decantada), pois às vezes elas são meio democrático para destruí-las. E ultimamente o mundo tem visto e sofrido com esse fenômeno.
Em obra recente, Steve Levitsky e Daniel Ziblatt, da Universidade de Harvard, discutem o colapso das democracias, analisam a corrosão da democracia sem golpes (como ocorreu em vários estados nacionais da América Latina – Brasil, Chile, Argentina…), mas por processo insidioso em que são acentuadas obediência à constituição, quanto à letra, não quanto ao espírito. O livro é amparado em pesquisa sobre ocupação do poder, via eleitoral, por lideres que destruíram a democracia. Transcrevo dois pequenos trechos da obra mencionada: (mais…)


A patrulha


Ruy Medeiros

Chega-me aos olhos a troca de mensagem em que duas adultas tecem considerações sobre a atitude de um comerciante que, em seu automóvel, afixou propaganda eleitoral. Trata-se de comerciante filho de comerciante, com grau de parentesco com elas, que trabalha desde criança, é querido na cidade, e ele e irmãos sempre cultivaram o bom trato com as pessoas. De seu estabelecimento muitas famílias tiram a sobrevivência. >>>>>

As duas adultas referidas, identificam-se como eleitoras de um capitão candidato a Presidente e chegam à conclusão de que deveriam boicotar e incentivar o boicote ao estabelecimento da pessoa que colocou propaganda de outro candidato em seu carro.

É a patrulha que chega e, algumas vezes, patrulha para transformar-se em SA é “daqui pra ali”. Assim é que funciona. Não importa a vítima. Na Alemanha Nazista foram os judeus, os comunistas, os sociais democratas, depois os homossexuais, a seguir os ciganos e depois todos aqueles que não enjaularam declaradamente sua inteligência dentro dos objetivos do Führer. É necessário que a intolerância se expresse. É necessário um bode expiatório, uma transferência (no sentido freudiano mesmo), uma vazão da desrazão pela falta de meditação maior sobre o que significa o discurso oportunista do Capitão.

Já se indagaram sobre a falta de programa do Candidato? Já questionaram sobre a conveniência da liberação de armas, ou do uso da violência pelo Estado? Já se perguntaram se é justo discriminar pessoas por suas orientações sexuais ou pela sua situação e engajamento na sociedade? Qual é mesmo o programa do Capitão? Ele apenas indica o bode expiatório do momento e em outro momento poderá ser qualquer bode expiatório e, então, já não haverá o milagre de salvar os Isaacs. É a solução ali perto da esquina, fácil, ao alcance de todos: escolham um salvador para destruir o bode expiatório do momento, ou para deixá-lo visível a fim de ser derrotado.

Além de embarcar na onda da maré (que parece maré montante), sem espírito crítico, resolvem os partidários do capitão sugerir a patrulha.

Aqui, em Vitória da Conquista na década de 1940,após o Brasil declarar guerra à Alemanha, uma “patrulha” dirigiu-se à casa de dois alemães que aqui residiam, aqui mantinham respectivas esposas, aqui trabalhavam, conhecidos de todos, com amigos, e depredou as casas dos dois boches, que nenhum vínculo tinham mais com a Alemanha e seu führer. Depois, os patrulheiros não conseguiram mais olhar dentro dos olhos daqueles germânicos que, aqui continuaram, e onde um deles deixou filhos. Olhar nos olhos, ter a coragem de fazê-lo passado o vendaval, é prova da correção dos nossos atos. (mais…)


Dom Celso José Pinto da Silva


Professor Ruy Medeiros

Por Ruy Medeiros

Dom Celso Pinto

Faleceu, em Teresina, Piauí, Dom Celso. Morre no Estado nordestino que o acolheu com grande camaradagem, quando deixou a Diocese de Vitória da Conquista para viver sua missão no Arcebispado da Capital do Piauí. Aí, inclusive, foi eleito membro da Academia de Letras.
Dom Celso, antes de dirigir a Diocese Conquistense atuou no Rio de Janeiro onde aceitou o desafio de tomar conta da pastoral ou comissão de presos políticos, coisa muito difícil nos anos de ódio e terror da ditadura militar que infernizava a vida dos brasileiros.
Às vezes Dom Celso rememorava aqueles tempos e falava de Branca Moreira Alves, leiga Católica, que o auxiliava nos contatos com familiares de preses políticos, pessoa que deixou profundo sinal de admiração e gratidão de perseguidos e familiares de encarcerados.
Dom Celso encontrou a Diocese de Vitória da Conquista em um momento particularmente complexo. As novas diretrizes do Concílio Vaticano II começaram a ser divulgadas por Dom Climério Almeida de Andrade, que participou daquele evento, e do final dos anos sessenta até os anos setenta (do século passado), a Teologia da Libertação ocupou espaço e foram organizadas Comunidades e Eclesiais de Base, gerando choques no seio daquela Igreja que fora tão conservadora. Era difícil a mediação, especialmente quando foi deflagrada a Greve do Café, no início da década de oitenta, e nos períodos eleitorais. A alguns incomodava a Comissão Diocesana Justiça e Paz, criada por Dom Climério Almeida de Andrade para suprir a necessidade de uma voz sobre a questão politica dos Direitos Humanos. (mais…)