Herberto Sales – 100 Anos

Ruy Medeiros Em 1971 foi eleito membro da Academia Brasileira de letras e em 1975 assumiu a direção do Instituto Nacional do Livro, que comandou por 11 anos. O escritor também foi assessor da Presidência da Republica por 1 ano, no Governo José Sarney, e ocupou cargo de Adido Cultural  da Embaixada do Brasil na … Leia Mais


Uma vez tucano, sempre tucano

Não é de estranhar-se a decisão ampliada do diretório nacional do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Decidiu o partido permanecer no governo com as benesses dos Cargos que ocupa, porém recorrer ao Supremo Tribunal Federal da decisão do Tribunal Superior Eleitoral que “não cassou a chapa Dilma-Temer”. De uma beirada do muro, o PSDB … Leia Mais


Vândalos! Baderneiros! Vândalos!

  Vandalizam nossas mentes, vandalizam nossa consciência, vandalizam esperanças, vandalizam promessas, vandalizam projetos de vida, vandalizam o próprio futuro esperado e prometido. Mas os senhores que ocupam o poder e levaram ao extremo a privatização do Estado por grupos empresariais não se sentem vândalos quando destroem conquistas trabalhistas, que foram obtidas com sacrifícios e vêm … Leia Mais


31 de março: Aos que perderam a memória do tempo obscuro

Em 31 de março (tiveram vergonha de dizer que foi em 1° de abril) um general que se autodenominava “Uma Vaca Fardada”, deu seguimento a demorada conspiração e iniciou a fase concreta de assalto à máquina do Estado. A partir daí era a ditadura. É difícil definir esse regime de ódio. Mas, com certeza, sabe-se … Leia Mais


Em palpos de aranha

    A administração pública municipal de Vitória da Conquista encontra-se em palpos de aranha. Quando candidato a Prefeito Municipal, o atual gestor prometeu aos condutores de Vans que iria regularizar o serviço que realizavam sem qualquer cobertura legal. Passava a impressão que, assumindo a chefia da gestão pública, logo daria a todos aqueles condutores … Leia Mais


Da Série O Professor Hemetério e seu detestável Aluno: Décima Conversa


Ruy Medeiros

Alô, alô. Pô, Hemetério! Até que enfim você atende minha chamada ao telefone! Que há? Chiquinho assistiu ao debate de que você participou. Nem perguntei qual a opinião dele. Tenho até medo de que ele vista uma dessas camisas que trazem propaganda do Bolsonaro. O que você está fazendo agora?
Era Isadora (grande mulher, grande mulher) ao telefone.
O professor Hemetério respondeu:
Escuta, o Chiquinho não cometeria esse absurdo. Quanto a mim, vivo em tremendo mal estar diante da desfaçatez política governamental. A coisa está tão retrógrada que simples liberal um pouco esclarecido passa por revolucionário. Para desopilar um pouco estou lendo coisas do Zé Limeira.
– Mas… Zé Limeira, Hemetério?
Sim, veja como ele começou uma de suas aparições em Campina Grande:
“Peço Licença aos prugilos / dos Quelés da Juvenia / dos tolfus dos audíocos / dos Baixos da silencia / do genuíno da Bribria / do grau da grodofobia”.
– Como?! Rararará… Você está brincando… Leia para mim a parte do texto que você escreveu sobre a temerosa propaganda da reforma previdenciária. Pode ser agora, por telefone.
– Então ouça: (mais…)


Da Série O Professor Hemetério e seu detestável Aluno – Nona Conversa


 

Ruy Medeiros

– Hemetério, Ó Hemetério, estou entrando, dá licença.

Era Isadora que entrava na casa do velho professor.

– Ora, ora, Isadora. Vou parafrasear os versos de Manuel Bandeira:

Imagino Isadora, entrando no céu:

– Licença, meu branco!

E são Pedro bonachão:

– Entra Isadora. Você não precisa pedir licença.

– Acontece Hemetério que eu não sou Irene de Manuel Bandeira. Vejo que você está transcrevendo versos de Afonso Romano de Santana, e não de Bandeira.

– De fato. É do Afonso:

Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente. Mentem de corpo e alma, completamente.

E mentem de maneira tão pungente que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, Impune/mente.

Não mentem tristes. Alegremente

Mentem. Mentem tão nacional/mente.

Que acham que mentindo história afora vão enganar a morte eterna/mente”. (mais…)


Da Série O Professor Hemetério e seu detestável Aluno- Oitava Conversa


O Professor Hemetério leu o texto que havia preparado a pedido da escola de sua rua. “O texto deve ser pequeno, professor, será colocado no mural junto a outros”, avisaram-no. Ele escreveu:
Neste 14 de março, devemos comemorar os 170 anos de nascimento de Antonio de Castro Alves, que nasceu em 1847 e faleceu em 6 de julho de 1871. Viveu pouco, amou muito, e tornou-se o poeta mais lembrado do Brasil.
Aqui eu escrevo sobre um dos atributos do poeta: a generosidade, em verdade, a solidariedade, que perpassa sua poesia e vida, dando pequeno exemplo.
A França foi derrotada na Batalha de Sedan pelas forças da Alemanha, em 01.9.1870. A fome passou a campear na França e as vítimas maiores eram as crianças. Fome. Fome. Franceses criaram o Comitê du Pain (Comitê do Pão) para angariar recursos para os necessitados.
A comunidade e o consulado franceses na Bahia, como em outros lugares, convocaram ato público (meeting) para angariar contribuições para as crianças francesas que passavam fome, para o dia 9 de fevereiro de 1871. (mais…)


Da Série “O Professor Hemetério e seu detestável Aluno” – Sétima Conversa


Ruy Medeiros

… Plash peat raash pal… O professor Hemetério levantou os olhos do jornal e olhou em direção ao passeio, de onde vinha o som de algum arrasto ou batida.
Só podia ser o Chav…, o Chiquinho, disse. E reparou melhor: a bicicleta do detestável aluno, conduzida sobre o passeio, colidiu sobre braço e sacola do bravo professor Andrade. E era de esperar que Andrade estivesse levando para distribuir, os livrinhos de cordel. Em cima do passeio espelharam-se “O Cantor e a Meretriz”, “Juvenal e o Dragão”, “O Soldado Jogador”, “Vicente, o Rei dos Ladrões”, “Canção de Fogo”, “A chegada de Lampião ao Inferno”, e outros. Uma verdadeira antologia da poesia popular. O professor ajudou Andrade a recolher os livros.
– O passeio é do pedestre, rapaz! Disse alguém. Chiquinho retrucou: não tem ciclovia, o moço quer que eu ande pela rua pra ser atropelado? E, logo, dirigindo-se ao professor:
O senhor sabe que querem destruir uma das principais ciclovias da cidade? É uma das maiores. Eu li na internet.
O professor, embora um tanto incrédulo com o absurdo, resolveu deitar comentário.
Ora, Chiquinho, as ciclovias apareceram como uma das principais vias para mobilidade humana. Elas estão nas principais cidades. Algumas metrópoles possuem bicicletário para que pessoas peguem uma bicicleta até outro bairro, onde o veículo é entregue, em outro bicicletário. Já há ciclovias entre cidades e cuida-se de executá-las entre países. Evita acidentes entre usuários e veículos maiores, serve a veículo não poluente, econômico, vinculado ao desenvolvimento físico. Algumas são utilizadas para a prática de esportes, ciclismo. Destruir ciclovia atenta contra o interesse do povo e de sua parca economia, contra o meio ambiente, contra a liberdade de escolha de seu meio de locomoção. Há planejadores urbanos que elaboram plano cicloviário, e quando projetam vias e sua hierarquia, estabelecem o plano cicloviário. (mais…)


Da Série o Professor Hemetério e seu detestável Aluno- Sexta Conversa


Ruy Medeiros

O bilhete era brevíssimo: Hemetério, envia-me algum livro sobre o feminismo. Preciso tirar uma dúvida sobre Bertha Lutz para minha palestra de amanhã. Isadora.
– Espere um pouco, Chiquinho, que logo lhe entrego o livro pedido por Silvia (grande mulher, grande mulher).
O professor foi à estante e lá pegou dois livros.
Enquanto o desastrado Chiquinho mexia nos CDs, o Professor meditava sobre o difícil percurso da luta das mulheres. A luta ombro-a-ombro com os homens nas unidades fabris, e nas lides da lavoura. A difícil luta contra longas e extenuantes jornadas de trabalho e por aumento de salário. Destaque para as mulheres anarquistas com sua União das Costureiras, Chapeleiras e Classes Anexas do Rio de Janeiro. Seu manifesto inicial começava com forte afirmação: “Vos que sois precursores de uma era onde possa reinar a igualdade para todos, escutai: tudo o que fazeis em prol do progresso, militando no seio de nossas associações de classe, não basta!” Nessa fase é fundamental a presença de Maria Moura.
Continuou o professor Hemetério a relembrar, e sua memória evocou a Federação Brasileira para o Progresso Feminino, e a figura central de Bertha Lutz, filha de uma enfermeira inglesa com o cientista Adolfo Lutz, e a luta pelo voto feminino. Seu sufragismo seria coroado com o reconhecimento do direito ao voto pouco depois da Revolução de 1930.
Depois a escolha pela luta contra carestia.
Mas, nos anos de 1960/1970, elas se organizam em movimentos efetivamente feministas, com dificuldades, pois o País encontrava-se em período de ditadura militar. O Conselho Nacional da Mulher promoveu seu grande congresso, tendo à frente Romy Medeiros, em 1972, e aí ficaram evidentes que novos rumos deveriam ser adotados. Muitas desconfiavam das relações de Romy com o governo. (mais…)


Da série O Professor Hemetério e seu detestável Aluno.Quinta Conversa


 

Ruy Medeiros

Hemetério, velho professor, acabou de barbear-se. Cantarolou Bandiera Rossa e leu pela milésima vez os versos de Jean Cláudio:

“E vejo entre o porto de areia e mata

o canto do bicho camacã.

E vejo o uivo do rio que atraca

cia e mata pela mata

onde o gavião voa

liquidamente nas asas da terra…

– E novamente aqui estou

a ver luzes

pequeninas luzes

tragando o aboio do sereno.”

Esse menino vai longe, disse para si. Pegou o chapéu, traspôs o gradil e, cem metros depois, entrou no mercadinho para comprar cachaça para o licor.

– Gosta de uma pinga, professor?

– Você parece que me persegue, Chiquinho. O que há?

– Professor, o que é nepotismo? (mais…)


Da Série O Professor Hemetério e seu detestável aluno- Quarta Conversa


Ruy Medeiros

“Os olhos pequeno demais para verem uma coisa tão grande”, é o título do capítulo dez do romance “A máquina de fazer espanhóis”, de Valter Hugo Mãe, cuja a leitura o professor Hemetério fazia. Diante do título perguntou-se: grande como uma cidade e seu povo? A leitura lhe deliciava. Meditou sobre o Titulo do capitulo e virou os olhos para a página seguinte, de número 111. A leitura era envolvente, com a beleza de uma obra prima. Por isso, respirou fundo, para tomar paciência, quando ouviu o ruído do giro da taramela da porta do gradil e divisou a figura de Chiquinho.
Você interrompe minha leitura, Chiquinho, disse calmo, só na aparência, Hemetério.
– Desculpa, desculpa, professor. É que amanhã é aniversário de minha mina e eu quero lhe-dar um presente. Um amigo me sugeriu dar uma de intelectual e oferecer pra ela “Cinquenta Tons de Cinza”.
Ora Chiquinho – nada contra literatura erótica – mas oferecer essa subliteratura para uma jovem não demonstra polidez, nem dará para você aparência de intelectual. Ao contrário disso, sua namorada pode até pensar que você lhe menospreza o bom gosto e entender o tipo de presente como falta de polidez de sua parte. (mais…)