Relatório Figueiredo: mais de sete mil páginas sobre a violência contra indígenas no Brasil. Entrevista especial com José Ribamar Bessa Freire

“O Relatório Figueiredo denuncia desde castigos físicos, porrada, tortura no tronco, que era algo relacionado à escravidão e que foi recuperado pelo SPI, mutilação, pessoas aleijadas e mortas em decorrência dos espancamentos, prisões, cárcere privado, chicotadas, sem contar o sistema de trabalho escravo ao qual eles foram submetidos”, afirma o pesquisador.  Foto: Portal Ultimo Segundo … Leia Mais




João Goulart em 1963: a agenda de um presidente de verdade

Jango, com Brizola, ao chegar ao Brasil para assumir a Presidência A decisão de publicar a agenda do presidente João Goulart durante o ano de 1963 foi difícil, até porque o texto não pôde ser transcrito na íntegra, devido à sua extensão. Mas, como comprovará o leitor, nada há de monótono na agenda de um … Leia Mais


Congresso Nacional já foi palco de dois assassinatos


Primeira episódio foi registrado em 1929, no Rio de Janeiro, e acabou na morte do então deputado federal Sousa Filho

Foto: Arquivo/Pragmatismo Político

Em meio a confusões e agressões no Congresso Nacional, como troca de ofensas, empurrões, socos e até cusparada, o Parlamento brasileiro já foi palco de troca de tiros e até mortes, em 196 anos de existência.

Em 8 de junho de 1967, os deputados Nelson Carneiro e Estácio Souto Maior, pai do piloto Nelson Piquet, sacaram suas armas e trocaram tiros na Câmara dos Deputados. A causa da briga foi a presidência da União Interparlamentar, organismo de cooperação internacional entre congressistas. Souto Maior deu um tapa em Nelson, que revidou mais tarde, em frente à agência do Banco do Brasil, no salão inferior da Câmara. Com um revólver calibre 38, Nelson Carneiro baleou Estácio Souto Maior, que mesmo atingido pelo tiro, conseguiu revidar o disparo.

Estácio Souto Maior e Nelson Carneiro: Foto - Sabrine Cruz / Agência do Rádio Mais

Quatro anos antes, no dia quatro de dezembro de 1963, o senador Arnon de Mello, pai do atual senador e ex-presidente Fernando Collor, atirou contra o também senador Silvestre Péricles. Apesar dos seus 67 anos na época, Silvestre Péricles deitou-se no chão e desviou dos disparos. Um dos tiros acertou o abdome do senador José Kairala, que morreu horas depois no então Hospital Distrital de Brasília (atual Hospital de Base). Tudo teve início devido a uma rixa regional, já que os dois (Collor e Péricles) eram alagoanos. Péricles Silvestre, que era militar, andava armado e jurou Arnon de Mello de morte. O pai de Fernando Collor reagiu às ameaças, e durante um discurso no Senado, atirou contra Péricles Silvestre.

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Prestes no mesmo palanque de seu perseguidor


Imagens Históricas : Getúlio Vargas e Luís Carlos Prestes

A política democrática liberal costuma pregar armadilhas a todos os que participam da mesma. Alianças, confabulações, coligações e acordos podem ser feitos, mesmo entre aqueles que, em tese, seriam de diferentes linhas políticas e ideológicas. O inimigo de hoje pode ser o aliado de amanhã! Que o digam os personagens da foto acima tirada em 1947: o ex-presidente Getúlio Vargas (primeiro à esquerda) e o líder comunista Luís Carlos Prestes (segundo, da direita para a esquerda). Desde 1930 os rumos da política brasileira colocaram esses dois personagens em papéis de destaque.
Com a queda da Primeira República no movimento revolucionário de 1930, o gaúcho Getúlio Vargas ascendeu como principal liderança do país numa aliança que se opôs ao poder das antigas oligarquias (elites estaduais) lideradas pelos cafeicultores paulistas e por uma parte dos pecuaristas mineiros: a tradicional política do café com leite. Ao mesmo tempo, outro gaúcho, o ex-capitão do Exército Luis Carlos Prestes surgiu como a grande liderança do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e de um grupo revolucionário conhecido como Aliança Nacional Libertadora (ANL) que reunia grupos mais à esquerda, além do próprio PCB. O objetivo era derrubar Vargas e implantar um governo popular revolucionário. Contudo, o levante realizado em novembro de 1935 não teve êxito. Após o fracasso do movimento, chamado pelos anticomunistas de Intentona (plano insensato) Comunista, muitos antigos integrantes da ANL foram presos por ordem de Vargas, inclusive Luís Carlos Prestes, conhecido como “O Cavaleiro da Esperança” desde os tempos da Revolta Tenentista contra os coronéis da Primeira República na década de 1920.

Prestes foi preso em 1936 junto com sua esposa e agente da Internacional Comunista, Olga Benario (imagem acima, Olga em um quadro de Cândido Portinari de 1945), que havia sido enviada ao Brasil para dar apoio ao levante comunista e ao próprio Prestes. Os dois entraram no país com documentos falsos e disfarçados como um casal em lua de mel. Contudo, o que era para ser apenas um disfarce virou realidade. Prestes e Olga se apaixonaram! No ato da prisão, Olga teria se colocado na frente do marido e impedido a morte do mesmo pelos policiais comandados pelo delegado Filinto Muller.
Olga era alemã, de origem judia e comunista. O governo alemão, na época já controlado pelo Partido Nazista de Hitler, enviou um pedido de extradição ao governo brasileiro. Após uma luta nos tribunais, a decisão final coube ao Supremo Tribunal Federal (STF): Olga foi enviada para a Alemanha. O leitor já pode estar imaginando o que aconteceu com a jovem revolucionária. Olga Benario Prestes foi mandada a um campo de concentração. E o pior, grávida de uma filha de Prestes! Décadas depois, o STF veio a reconhecer o equívoco da decisão. Por outro lado, o presidente Getúlio Vargas nada fez na época para impedir a extradição, até porque o seu governo mantinha uma política amigável com a Itália fascista e a Alemanha nazista, inclusive para obter vantagens econômicas diante do então cenário internacional. Além disso, o seu governo abrigava muitos simpatizantes do totalitarismo fascista. (mais…)


História: Escravidão no Brasil


A escravidão no Brasil foi cruel e durante 300 anos motivou os africanos a organizarem diferentes formas de resistência, como organizando fugas e montando quilombos.

por Daniel Neves Silva
A fuga foi uma das formas de resistência mais praticadas pelos escravos no Brasil.c
A fuga foi uma das formas de resistência mais praticadas pelos escravos no Brasil.c
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escravidão esteve presente no Brasil durante mais de 300 anos e nosso país foi construído pela exploração desses trabalhadores, seja indígenas, seja africanos. A história da escravidão no Brasil é marcada pela crueldade e pela violência como os escravos foram tratados. A falta de liberdade em si, aliada com a violência, motivavam a resistência deles.

Os africanos foram retirados de sua terra nativa (muitas vezes emboscados por traficantes) e enviados para milhares de quilômetros de distância para uma terra desconhecida, com idioma, cultura e religião totalmente diferentes e foram forçados a abandonar a sua cultura e abraçar a de seus captores. Os africanos foram trazidos ao Brasil por meio do tráfico ultramarino, se quiser saber mais sobre esse assunto recomendamos o seguinte texto: Tráfico Negreiro.

Os escravos africanos (grupo em que se baseia este texto) foram utilizados em diferentes tipos de trabalho ao longo da história colonial e imperial do Brasil. Utilizou-se escravos em trabalhos domésticos, urbanos, mas, principalmente, na lavoura para o cultivo da cana-de-açúcar e nas minas nas regiões mineradoras.

escravização dos africanos não aconteceu de maneira passiva, pois africanos e crioulos (nascidos no Brasil) resistiram, e muito, contra a escravidão. O objetivo deste texto é narrar algumas das histórias de resistência dos escravos africanos ao longo dos séculos XVI ao XIX.

Acesse tambémEntenda como os ex-escravos sobreviveram após a abolição da escravatura

Resistência à escravidão

A face mais conhecida da resistência à escravidão foram as revoltas que visavam à conquista da liberdade, sobretudo no século XIX, quando essa luta foi fortalecida. A resistência à escravidão, porém, não acontecia somente visando à liberdade, mas foi frequentemente utilizada como forma de corrigir os excessos de tirania de senhores e feitores.

Os escravos organizaram-se de diferentes maneiras contra a escravidão, e existiram as revoltas violentas que resultavam no assassinato de senhores e feitores, nas fugas coletivas ou individuais, na recusa em realizar o trabalho, na criação de mocambos e quilombos etc. No século XIX, muitos escravos começaram a procurar autoridades – como a polícia – para denunciar abusos praticados por seus senhores.

A revolta de africanos nos navios negreiros era comum e, por isso, eles eram intensamente monitorados.
A revolta de africanos nos navios negreiros era comum e, por isso, eles eram intensamente monitorados.

A primeira demonstração de resistência dos africanos já se manifestava no embarque deles nos navios negreiros. Os primeiros dias dos africanos aprisionados nos tumbeiros eram os mais perigosos para os traficantes. Por isso, a refeição nos primeiros dias era deliberadamente distribuída em porções menores. A fome era utilizada como arma para controlar os africanos.

Os traficantes também possuíam outros escravos em sua tripulação que eram utilizados como intérpretes. Esses escravos intérpretes falavam os idiomas nativos de muitos povos africanos e, assim, alertavam os traficantes caso ouvissem algum rumor de revolta. Quanto mais próximo da costa, maior a possibilidade de os escravos rebelarem-se.

Os estudos conduzidos pelos historiadores apontam que os africanos eram mais resistentes à escravidão do que os crioulos, porque muitos dos povos africanos escravizados possuíam um histórico recente de envolvimentos com a guerra, como foi o caso dos nagôs e haussás. Mas é importante dizer que os crioulos também se rebelavam contra a escravidão, apesar da menor incidência.

A seguir, nós veremos algumas práticas de resistência utilizadas pelos escravos no Brasil.

  • Revoltas violentas

Muitas das revoltas violentas de escravos resultavam no assassinato de seus senhores e feitores.
Muitas das revoltas violentas de escravos resultavam no assassinato de seus senhores e feitores.

Uma estratégia muito conhecida de resistência escrava foram as revoltas violentas contra senhores, feitores e autoridades em geral. A Bahia foi um dos locais em que essas revoltas mais aconteceram. O século XIX foi marcado por esse tipo de revolta e podem ser citados exemplos em 1807, 1814 e 1835.

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Escravidão é “aspecto da natureza humana”, diz deputado descendente da família imperial. Declaração causa protestos


Descendente da família imperial brasileira, o deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP) provocou revolta em colegas e integrantes do movimento negro durante discurso em sessão solene na Câmara, nesta terça-feira (14), pelos 131 anos da Lei Áurea, completados ontem (13). O deputado disse que a escravidão, abolida pela lei, é “tão antiga quanto a humanidade” e, por isso, “é quase um aspecto da natureza humana”.

Veja a declaração que causou a polêmica:

O discurso dele foi interrompido por gritos de “luta, resistência e sobrevivência” e de “parem de nos matar” por lideranças do movimento negro e deputados aliados da causa. A sessão só foi retomada dez minutos depois. Chamado de “Príncipe”, por ser trineto da Princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea, ele citou que a escravidão se repetiu em vários momentos da história, incluindo os povos indígenas e tribos africanas. “Independente de raça, sim, mas entre si. Faz parte do aspecto do ser humano”, afirmou.

Durante o protesto, os participantes cantaram o samba da Mangueira, vencedora do Carnaval deste ano no Rio de Janeiro, que abordava o racismo e a negritude. O samba homenageia heroínas negras, como Luiza Mahins e Dandara dos Palmares. A memória da vereadora carioca Marielle Franco(Psol), assassinada em março do ano passado, também é reverenciada na canção.

Amiga de Marielle, a deputada Talíria Petrone(Psol-RJ) disse que o 13 de maio não é uma data a ser comemorada, pois a abolição da escravatura e a liberdade da população negra não foram “concedidas pela bondade de uma princesa”. Mas pela resistência negra, a custo de muito sangue.

Talíria disse que, como professora de História, lamentava o “profundo desconhecimento histórico” demonstrado por deputados como Luiz Philippe de Orleans e Bragança. “Nega a nossa história e tenta apagar a memória de tanta dor, de violação, mas também de tanta resistência do nosso povo”, discursou. “Nós nascemos livres”, acrescentou. Deputados do PSL reagiram com vaias e provocações ao discurso da deputada negra.


Maio de 2001, o fim do ‘Carlismo’ na Bahia


Há 17 anos, três grandes manifestações contra Antônio Carlos Magalhães, o ACM, ocorridas em maio entraram para a história da Bahia. Marcaram a primeira cisão no encouraçado poder do ex-governador e ex-senador baiano. Ele estava mergulhado em um escândalo, após ser flagrado por evidências de ter violado o painel de votação do Senado, em uma votação que deveria ser secreta. Um processo havia sido aberto na Comissão de Ética por quebra de decoro parlamentar e poderia resultar na sua cassação.
Convocada pelos movimentos estudantis, a primeira manifestação ocorreu em 10 de maio de 2001. Uma passeata com cerca de 3 mil participantes, iniciada no centro de Salvador, tinha como destino o bairro da Graça, onde os estudantes pretendiam fazer uma “lavagem” das escadarias do Edifício Stella Mares, residência de ACM. A Polícia Militar reprimiu violentamente a passeata e impediu que ela chegasse ao destino.
O segundo ato, ainda maior, estimado em 9 mil manifestantes, aconteceu em 16 de maio de 2001. Desta vez o local escolhido foi o Vale do Canela, e a concentração das manifestações aconteceram na Faculdade de Direito da UFBA, local que os organizadores consideravam inviolável pela polícia baiana, por ser um espaço federal. Não foi o que ocorreu: a PM invadiu a faculdade e dispersou a manifestação com mais violência. Utilizaram gás lacrimogênio e balas de borracha e deixaram um saldo de 25 estudantes feridos.
As imagens da selvageria da polícia ‘carlista’ invadiram o noticiário nacional e provocaram uma terceira passeata ainda maior, com pelo menos 17 mil pessoas, no dia seguinte. Os estudantes dessa vez contaram com a solidariedade de outras organizações e partidos políticos, além dos professores da UFBA e do próprio reitor, Heonir Rocha.
A manifestação ocorreu pacificamente. Iniciada em frente à reitoria da UFBA, a passeata percorreu as ruas do centro da capital baiana com faixas que denunciavam a violência do dia anterior, escrachavam o senador direitista e pediam sua cassação. Prenunciaram o início do fim do ‘Carlismo’.
Alguns dias depois, em 30 de maio de 2001, o senador Antônio Carlos Magalhães ocupou a tribuna do Senado. Em um discurso rápido, criticou os rumos de um governo que ajudou a sustentar e denunciou perseguição dos seus pares. E renunciou ao cargo de senador, para evitar ser cassado e perder seus direitos políticos.
(*) Jornalista e mestrando em História pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB)