Ditadura Militar-O caso de 1964: intervenção, revolução ou golpe?

Houve, nas últimas décadas do século XX, e ainda há muita discussão nas arenas política, jornalística e historiográfica a respeito de como qualificar os fatos transcorridos entre 31 de março e 9 de abril de 1964. O que ocorreu nesses dias foi uma intervenção militar constitucional? Seguramente, não. Duas frentes militares mobilizaram-se na madrugada de 31 … Leia Mais


O que é golpe de Estado?

O que é golpe de Estado? Pode ser definido como a subversão da ordem institucional constituída em determinada nação. Um golpe de Estado é comumente definido como uma subversão da ordem institucional constituída de determinada nação. Essa subversão pode apresentar ou não características violentas. Como bem pontua a pesquisadora Mafalda Félix do Sacramento, em seu artigo “Os … Leia Mais


Regime Militar, saiba direito o que significa isso

Por Emerson Santiago   É conhecido no Brasil como “Regime Militar” o período que vai de 1964 a 1985, onde o país esteve sob controle das Forças Armadas Nacionais (Exército, Marinha e Aeronáutica). Neste período, os chefes de Estado, ministros e indivíduos instalados nas principais posições do aparelho estatal pertenciam à hierarquia militar, sendo que todos os … Leia Mais


O que é ditadura militar?

A ditadura militar é um regime político comandado por membros das Forças Armadas. A última ditadura militar vigorou no Brasil por 21 anos, entre 1964 e 1985. Ditadura militar é o regime político no qual membros das Forças Armadas de um país centralizam política e administrativamente o poder do Estado em suas mãos, negando à maior … Leia Mais


O que é intervenção militar?

Intervenção militar é uma ação realizada por forças militares, seja no interior do próprio país, seja contra outro território. No caso interno, a intervenção militar ocorre quando as Forças Armadas unem-se para intervir no próprio Estado, derrubando a autoridade instituída e tomando o controle do país (como aconteceu no Golpe de 1964). No caso externo, … Leia Mais


Ditadura militar tentou esconder epidemia de meningite no Brasil


País era governado pelo general Ernesto Geisel na época; documentos mostram que regime escondeu fato e perseguiu quem informava população

General Ernesto Geisel. Foto: Reprodução/Wikipedia

 Assim como ocorre com o coronavírus, o Brasil passou por outra epidemia em grande escala no passado recente: durante o regime militar, na década de 70, houve uma grave epidemia de meningite que levou muitos brasileiros à morte e superlotou hospitais. E o governo da época atuou para proibir a divulgação de dados oficiais, tanto que até hoje não se sabe ao certo a quantidade de casos e vítimas.

Segundo informações do portal UOL, documentação do Arquivo Nacional não só mostra como o regime militar trabalhou para censurar veículos de comunicação como espionou, perseguiu e deu ordens para que quem estivesse informando a população sobre a doença fosse investigado.

As ordens do regime eram claras: não alarmar a população e não ferir a imagem do governo durante o chamado “milagre econômico”, mas a gravidade era conhecida pelas autoridades. Informe do SNI (Serviço Nacional de Informações) explica que a epidemia teria começado na cidade paulista de Osasco, e se espalhado pelo país, e essa epidemia também poderia afetar negativamente o andamento da campanha eleitoral.

Mesmo sabendo da gravidade, o governo manteve a proibição da divulgação dos dados durante quase todo o período. E os pesquisadores têm poucos documentos para estudar a respeito, já que boa parte dos arquivos da época da ditadura foi destruída.

Além de esconder a epidemia de meningite, existe a suspeita de que corpos de jovens foram escondidos pelo regime: cerca de 450 das 1500 ossadas encontradas em valas clandestinas do cemitério de Perus, em São Paulo, eram de pessoas com menos de 16 anos, e muitos podem ser vítimas da meningite.

Segundo Eugênia Gonzaga, procuradora Regional da República em São Paulo, e ex-presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, “aquelas ossadas das quadras um e dois eram fruto de sepultamentos feitos nos de 1970 a 1974, época dessa epidemia. O número de jovens mortos foi muito alto, não foi um percentual normal”.

Tanto historiadores como infectologistas fazem um paralelo do comportamento governamental da época – o presidente era o general Ernesto Geisel (1974-1979) – com a falta de transparência do governo Jair Bolsonaro sobre os dados da covid-19, uma vez que o Ministério da Saúde reduziu a quantidade de informações disponíveis sobre a doença.


O pesadelo do Reich: Lyudimila Pavlichenko, a mulher que matou mais de 300 nazistas


Durante a Segunda Guerra, o melhor amigo da militar soviética era um rifle de longo alcance

Pavlichenko
Pavlichenko – Wikimedia Commons

Responsável pela morte de centenas de fascistas, em sua maior parte alemães — oficialmente 309, mas muitos relatam uma cifra que passa de 500 homens—, a atiradora soviética Lyudmilla Pavlichenko é considerada, até hoje, a franco-atiradora mais bem-sucedida da História, tendo uma trajetória marcante na Segunda Guerra. Nascida na atual Ucrânia, ela esteve desde cedo envolvida em assuntos bélicos.

Isso porque, aos 14 anos, quando se mudou com a família para a capital Kiev (já parte da URSS), ela entrou num clube de tiro, onde se tornou cada vez mais aperfeiçoada na técnica. Na mesma época, teve uma gravidez precoce, dando à luz a Rostislav, que foi criado pela avó para que Lyudmilla seguisse nos estudos.

Filha de uma camponesa e um operário, ela trabalhava numa casa de fundição de moedas até que entrou para a faculdade de História na Universidade de Kiev, onde também fez mestrado.

Então, ela adentrou a um núcleo de treinamento a atiradoras do Exército Vermelho, onde se desenvolveu como sniper. Então, com a Operação Barbarossa (invasão nazista à União Soviética), Pavlichenko logo se alistou no esforço de guerra, fazendo parte da primeira lista de voluntários.

Pavlichenko / Crédito: Wikimedia Commons

 

Foi então designada para a Divisão de Infantaria do Exército, se recusando a atuar como enfermeira – queria pegar em armas e atuar diretamente no front. Num dos exércitos europeus com maior espaço para militares mulheres, ela integrou um grupo de duas mil atiradoras de elite.

Com um rifle de longo alcance — que ficou famoso na mão do atirador Vassili Zaitsev —,  ela foi enviada para a cidade de fronteira Belyayeyka, onde começou a contar mortes. Logo, foi levada pela sua unidade a Odessa, uma das maiores cidades da Ucrânia, com o avanço dos alemães. Lá, atingira sua primeira centena de baixas, num períodos de dois meses.

Porém, em 1942 a blitzkrieg nazista avançava ferozmente no território soviético, e a estratégia de evacuação e exaurimento do inimigo exigia que ela novamente recuasse, sendo direcionada para um posto no Mar Negro, no Cáucaso, onde foi transferida para a Crimeia e promovida a tenente.

Em meio ao avanço de Hitler no sul da Bacia do Volga, um ataque aéreo de morteiro atingiu o posto de Pavlichenko, que foi obrigada a se retirar do campo. Mantida sob custódia médica por um mês. Afastada temporariamente da guerra, ela foi indicada como comissária diplomática dos soviéticos em suas conversações com Washington.

Pavlichenko com Eleonor Roosevelt e o o juiz Robert Jackson / Crédito: Wikimedia Commons

 

Então, Pavlichenko e uma equipe foram enviadas para o Canadá e para os EUA, onde foi recebida por Franklin Delano Roosevelt (na primeira vez da história do povo soviético), tendo participado de conferências na Casa Branca. Fez, então, uma visita diplomática ao redor do país, até retornar à URSS com algumas armas que recebeu de presente (pistola Colt e rifle Winchester).

Com um saldo de 309 mortes, com alvos importantes e estratégicos (incluindo mais de 100 oficiais da Alemanha), foi declarado que seus anos de batalha estavam encerrados. Então, retornando à Rússia, ela nunca mais entrou em campo de guerra, passando a treinar snipers para o efetivo militar.

Passou então a ser ícone relevante da propaganda de guerra soviética, sendo declara Heroína Nacional e recebendo a Estrela de Ouro. Retratada nas mais diversas mídias, ela se tornou extremamente famosa. Afeita às armas e aos estudos, ela, então, logo que acabou a guerra em 1945, retornou à Universidade de Kiev.

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Saiba o que foi a “Noite dos Cristais”, marco do nazismo citada por Weintraub


 O ministro da Educação, Abraham Weintraub, comparou a operação da Polícia Federal realizada nesta quarta-feira (27) contra as milícias virtuais bolsonaristas com um episódio em que a Polícia Nazista (SS) invadiu casas e sinagogas durante a Alemanha Nazi.

“Hoje foi o dia da infâmia, VERGONHA NACIONAL, e será lembrado como a Noite dos Cristais brasileira. Profanaram nossos lares e estão nos sufocando. Sabem o que a grande imprensa oligarca/socialista dirá? SIEG HEIL!”, tuitou o ministro.

Saiba o que foi a “Noite dos Cristais”:

 

Na noite do dia 9 para o dia 10 de novembro de 1938, em toda a Alemanha e na Áustria, ocorre o progrom (palavra russa que significa “causar estragos, destruir violentamente”) que ficou conhecido como a “Noite dos Cristais” (Kristallnacht ou Reichspogromnacht), marcado principalmente pela destruição de símbolos judaicos, em que sinagogas, casas comerciais e residências de judeus foram invadidas e seus pertences destruídos. Também chamada de “Noite dos Vidros Quebrados”, indica os vidros estilhaçados nas vitrines das lojas, sinagogas e moradias de judeus.

Isso marca uma onda de violência contra os judeus em todo o Reich (Alemanha). Os ataques foram planejados para parecerem espontâneos, uma revolta natural da população alemã contra o assassinato de um oficial por um adolescente judeu em Paris. Mas, na realidade, foi um plano de Joseph Goebbels, ministro alemão da propaganda, e de outros líderes nazistas, que organizaram meticulosamente outros pogroms

 

A Noite dos Cristais resultou em mais de 250 sinagogas queimadas, e cerca de 7.000 estabelecimentos comerciais judaicos destruídos. Dezenas de judeus foram mortos, cemitérios, hospitais, escolas e casas judias foram saqueadas. A polícia e os bombeiros foram orientados a não atuar nesse dia.

Na manhã seguinte, 30.000 (trinta mil) judeus alemães do sexo masculino foram presos pelo “crime” de serem judeus. Aqui começa o aprisionamento em campos de concentração onde milhares de pessoas vão encontrar a morte. Algumas mulheres judias foram enviadas para prisões locais. Depois disso, estabelecimentos comerciais de propriedade de judeus não poderiam ser reabertos, sem que passassem a ser gerenciados por não-judeus. Estabeleceu-se toques de recolher e os judeus tiveram seus movimentos e horários controlados, não podendo sair de casa livremente.

Depois da “Noite dos Cristais”, as crianças e os adolescentes judeus, tanto na Alemanha quanto na Áustria, tiveram suas vidas e rotinas absolutamente alteradas. Expulsas de escolas públicas, proibidas de entrar em museus, parques e piscinas. A segregação dos jovens judeus tornou-se uma regra. Há muitos casos de suicídio nesse período, assim como tentativas de emigração.

É conhecida a avaliação do Coronel-general Werner Thomas Ludwig Freiherr von Fritsch que, em carta** a sua amiga, a Baronesa Margotvon Schutzbar-Milchling von Schutzbar, datada de 11 de dezembro de 1938, conclui:

” (…) Logo após a guerra, cheguei à conclusão de que temos de ser vitorioso em três batalhas, se a Alemanha quiser ser poderosa:

(1) a batalha contra a classe trabalhadora. Esta Hitler ganhou;

(2) contra a Igreja Católica, talvez melhor expressa como Ultramontanismo e

(3) contra os judeus.

Estamos em meio a essas batalhas, e um contra os judeus é o mais difícil. Espero que todos percebam os meandros desta campanha.”

O Coronel-general Werner Fritsch indicou bem como Hitler se empenhou em derrotar a classe trabalhadora. O Nazismo foi, antes de mais nada, um regime pensado para esmagar as organizações operárias, pois o projeto de poder nazista implicava em não perder tempo com os adversários internos. Assim que conquistou o título de Chanceler da Alemanha, em 1933, uma das primeiras medidas de Hitler foi extinguir os sindicatos, os contratos coletivos e o direito à greve.

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O legado dos 13 anos do PT no poder em seis indicadores internacionais; contra fatos não há xingamentos


    • 13 maio 2016

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O aval do Senado à abertura do processo de impeachment contra a presidente, Dilma Rousseff, marca o fim de um período de 13 anos consecutivos em que o Partido dos Trabalhadores esteve no poder no Brasil.

Com o afastamento de Dilma, Michel Temer, do PMDB, assumiu a Presidência interinamente. A petista pode ficar afastada por até 180 dias para que o Senado realize o julgamento definitivo sobre seu mandato.

Nesse momento marcado pelo fim de um importante ciclo político para o país, a BBC Brasil procurou especialistas e levantou indicadores internacionais para entender o legado dos 13 anos de governo de PT. Afinal, no que avançamos – e no que retrocedemos ou ficamos estagnados?

Abaixo, listamos seis índices-chave que ajudam a explicar como o Brasil de hoje pode ser comparado a outros países e ao Brasil de 13 anos atrás:

1. Ranking das maiores economias:

Em 2002, o Brasil ocupava a 13ª posição no ranking global de economias medido pelo PIB em dólar, segundo dados do Banco Mundial e FMI. Chegou a ser o 6º em 2011, desbancando a Grã-Bretanha, mas voltou a cair.

Hoje, é a 9ª maior economia do mundo de acordo com esse indicador, que sofre grande influência do câmbio – e, portanto, foi bastante afetado pela desvalorização do real.

Se considerarmos o PIB medido por Paridade de Poder de Compra (PPP), que procura, justamente, neutralizar esse efeito do câmbio, temos que o Brasil ocupou a 7ª e 8ª posição no ranking ao longo dos últimos anos.

Em 2003, subimos para a 7ª posição, ultrapassando a França. Em 2008, fomos ultrapassados pela Rússia. E em 2011 voltamos para a 7ª posição com a queda da Grã-Bretanha.

“No caso do PIB, o que comprometeu o resultado dos anos do PT no poder foi de fato a gestão Dilma – e em especial seu segundo mandato”, diz Alessandra Ribeiro, economista da Consultoria Tendências.

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Ela diz que, em função do crescimento do governo Lula (o país chegou a crescer 7,5% em 2010), nos últimos 13 anos a média de expansão do PIB foi de 2,9%, contra 2,5% da média do governo Fernando Henrique Cardoso.

Colocando “na conta” do governo Dilma a recessão deste ano (consultorias esperam uma retração do PIB de 4% em 2016), a média cairia para 2,4%, ainda próxima do crescimento de FHC.

Ribeiro atribui essa desaceleração brusca em parte à má gestão, ao suposto fracasso da política econômica de Dilma e ao que vê como um excesso de intervencionismo estatal na administração petista, além da falta de reformas estruturais que poderiam melhorar o ambiente para negócios no Brasil.

Ela ressalta, porém, que, o contexto internacional também ficou menos favorável e que a crise política e a Lava Jato também tiveram um impacto negativo grande na economia.

João Augusto de Castro Neves, diretor para América Latina da consultoria Eurasia Group, concorda. “Na economia, a Dilma pegou um avião em piloto automático e em um céu de brigadeiro. Quando veio a tempestade, ficou claro que não sabia pilotar”, diz.

Para Neves, os erros que derrubaram o PIB nos últimos anos – culminando em uma das mais graves recessões da história do país – começaram no segundo mandato de Lula.

“O Estado começou a gastar mais para fazer uma política anticíclica (tentar manter os investimentos e o consumo em níveis altos), mas isso saiu do controle. Agora precisaremos provavelmente de uma década para recuperar o que foi perdido com a recessão do governo Dilma.”

2. IDH e combate a pobreza

A nota do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, que era de 0,649 no início dos anos 2000, chegou a 0,755 hoje, o que indica uma melhora.

A pesquisa considera indicadores como a esperança de vida ao nascer, a expectativa de anos de estudo e a renda per capita. Como resultado, cada país recebe uma nota que vai de 0 a 1.

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No relatório da ONU de 2015 sobre o índice, o Bolsa Família é retratado como uma espécie de modelo de programa social bem-sucedido. “Desde que o programa foi lançado, 5 milhões de brasileiros deixaram a extrema pobreza. E por volta de 2009 o programa havia reduzido a taxa de pobreza em 8 pontos percentuais.”

Também é destacado o aumento da escolaridade no país e avanços no combate a miséria, o que vai ao encontro da avaliação de especialistas consultados pela BBC Brasil, que veem nas políticas sociais o maior legado positivo dos 13 anos do PT no poder no Brasil.

Angel Melguizo, chefe da unidade de América Latina e Caribe do Centro de Desenvolvimento da OCDE, por exemplo, destaca que nos últimos anos os índices de pobreza brasileiros caíram pela metade com a emergência de uma nova classe média.

Ele admite que parte desse contingente pode ter seus ganhos ameaçados pelo aumento do desemprego e recessão econômica, mas faz uma ressalva relativamente otimista:

“Dados do Banco Mundial que mencionaremos em nosso próximo relatório indicam que 43% dessa nova classe média brasileira seria o que chamamos de classe média consolidada, que tem trabalho formal, proteção social e mais condições de se proteger da crise. E que apenas 38% seria parte da classe média vulnerável, que pode voltar para a pobreza. O índice do Brasil é melhor que em outros países da região”, afirma.

Para Otaviano Canuto, diretor-executivo para o Brasil no FMI, “políticas sociais para potencializar mudanças estruturais” são de fato “um grande legado” dos governos do PT.

Canuto defende, porém, que “há hoje necessidade de passar a limpo, ver relação entre custo e resultado do leque de políticas sociais que estão embutidas no orçamento”. “Aquelas como Bolsa Família, que são demonstradas como eficazes e a baixo custo, devem ser intocáveis”, opina.

3. Gini – Desigualdade

Outro indicador que também teve uma melhora foi o da desigualdade. O coeficiente Gini do Brasil, nos cálculos do Banco Mundial, passou de 58,6, em 2002, para 52,9, em 2013 (último dado disponível).

O Gini é um indicador que mede desigualdade de renda e vai de 0 a 100 (0 representa total igualdade).

Em 2014, um relatório da ONU sobre o tema também registrou uma queda significativa da desigualdade no Brasil na última década, com o Gini passando, nos cálculos das Nações Unidas, de 54,2 para 45,9.

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Na época, a ONU destacou o efeito sobre a desigualdade do aumento real do salário mínimo – de 80% entre 2003 e 2010 – e dos esforços para a formalização do mercado de trabalho brasileiro, além dos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família.

O economista Diego Sánchez-Ancochea, diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos (LAC) da Universidade de Oxford, especialista em desigualdade, cita, como exemplo desses esforços de formalização do mercado, iniciativas como a Proposta de Emenda Constitucional sobre os trabalhadores domésticos.

“Já houve momentos em que a economia brasileira cresceu com um aumento da desigualdade, como nos anos 60 e início dos 70. Na época, o crescimento favoreceu os mais ricos e a alta classe média”, diz Sánchez-Ancochea.

“Isso mostra que mesmo com o boom das commodities impulsionando a economia brasileira, a trajetória dos índices de desigualdade no país poderia ter sido diferente não fossem essas políticas adotadas (durante o governo do PT). O legado (do partido) nessa área é grande.”

O economista de Oxford diz ser difícil prever o que vai acontecer daqui para frente, mas não descarta retrocessos nesse indicador. “Isso vai depender das políticas adotadas pelo novo governo, que chega prometendo fazer ajustes e cortes de gastos.”

4. Percepção de corrupção

Em 2002, o Brasil ocupava a 45ª posição do ranking de percepção da corrupção da Transparência Internacional (TI), que incluía análises de 102 países. Em 2015, passamos para o 76º lugar entre 168 países – o que parece indicar estagnação.

O coordenador do Programa Brasil da TI Bruno Brandão diz, porém, que os índices dos dois anos não são comparáveis por que, além do número de países analisados, a metodologia da pesquisa também mudou em 2012.

“E desde 2012, nossos indicadores para o Brasil permaneceram relativamente estáveis, com a exceção de 2015, quando tivemos um aumento muito grande da percepção de corrupção que levou o país a cair do 69º ao 76º lugar no ranking, principalmente como efeito da Lava Jato”, diz Brandão.

Segundo o coordenador da TI, a percepção da organização é de que o país avançou no combate à corrupção desde 2002 – embora a maior parte desse “avanço” não tenha ocorrido por mérito do governo.

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“É complicado dizer se a corrupção ficou menor ou maior porque a corrupção é um fenômeno oculto – a única que aparece é a que foi pega. Mas para nós o que interessa é se há mais combate ao problema – e nesse ponto parece que o Brasil está de fato avançando”, opina.

“Tivemos uma evolução institucional grande e um aumento da sociedade. Hoje temos a lei contra a lavagem de dinheiro, a lei anticorrupção, a da ficha limpa, de acesso a informação e etc. Instituições como o Ministério Público, a Polícia Federal e o próprio sistema judiciário também têm demonstrado grande autonomia.”

O governo Dilma, na avaliação de Brandão, teria sido marcado por um certo “pudor republicano” que favoreceu o combate a corrupção em alguma medida, embora em algumas ocasiões esse pudor possa ter sido abandonado (por exemplo, se forem comprovadas as tentativas do governo de interferir na Lava Jato, como denunciou o ex-líder do governo no Senado Delcídio do Amaral).

Ele lembra o caso da Malásia, onde o procurador-geral foi destituído após um escândalo de corrupção envolvendo o primeiro-ministro.

“No Brasil, o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, foi reconduzido ao cargo em meio à Lava Jato. O Supremo Tribunal Federal também tem agido com autonomia, apesar de muitos de seus membros terem sido indicados pelo PT – enquanto na Venezuela, por exemplo, essa corte mais parece um escritório de advogados do presidente (Nicolás Maduro).”

Já para Neves, do Eurasia Group, dizer que o governo do PT “deixou que se investigasse” a corrupção na Petrobras é “papo furado”.

“Concordo que é difícil dizer se a corrupção caiu ou cresceu no governo PT. Mas é relevante o fato de o escândalo da Lava Jato ser o maior escândalo de corrupção da história brasileira”, opina. “Também chama a atenção a maneira coordenada e sistematizada com que o esquema foi montado na estatal.”

5. PISA – Educação

Em 2000, primeiro ano em que o Brasil fez parte do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), da OCDE (a organização dos países ricos), o país ficou em último lugar entre 32 nações.

O programa tem como objetivo avaliar e comparar o resultado de sistemas educacionais no mundo por meio de uma série de testes aplicados a estudantes.

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No último relatório, publicado no final de 2013, agora com dados de 65 países (alguns ricos, como Japão, Suíça e Alemanha, o Brasil ocupou a posição 55 no ranking de leitura, 58 no de matemática e 59 no de ciências. Ou seja, comparativamente avançou em relação ao 2000, ainda que pouco.

Para Melguizo, da OECD, porém, é natural que a melhora tenha sido lenta porque a grande conquista do país nos últimos anos foi na questão da “cobertura do sistema”, ou seja, no acesso à escola e universidades.

“Esse era um processo necessário. Falta agora avançar na questão da qualidade do ensino e também na educação para o trabalho. Mas não acho que devemos ver essa melhora lenta com pessimismo”, diz ele.”Na questão da cobertura o avanço foi significativo.”

Castro Neves, do Eurasia Group concorda: “Considero a expansão do acesso a educação como parte do legado social positivo (dos anos de governo do PT), embora certamente falte melhorar a questão da qualidade.”

6. Ambiente para negócios

A questão do ambiente para os negócios é outra área em que os especialistas veem certa estagnação como saldo dos 13 anos do governo petista – com deterioração na gestão Dilma.

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Alguns índices internacionais parecem corroborar essa percepção. Em 2002, o país ficou no 46º lugar entre 80 países no ranking de competitividade global calculado pelo World Economic Forum (WEF), que considera dados sobre as condições de se fazer negócio pelo mundo.

Em 2015, ocupou a 75ª posição entre 140 países, após cair 18 posições em um ano em função de problemas como o aumento da pressão inflacionária, a alta da percepção de corrupção e a deterioração da confiança em instituições. Foi a pior classificação do país desde que o índice de competitividade global foi criado, nos anos 90.

O relatório de 2015 do WEF destaca, porém, o avanço do Brasil na questão do transporte aéreo e infraestrutura, apesar de esse ainda ser considerado um dos gargalos da economia brasileira. E cita o grande mercado consumidor do país como um dos fatores que ainda o torna atrativo para investidores.

“Nesses 13 anos – e principalmente nos anos de bonança econômica – o governo poderia ter aproveitado para fazer reformas estruturais, melhorar a questão tributária, reduzir a burocracia (para se fazer negócios no Brasil) e etc. Mas perdeu-se essa oportunidade”, diz Neves.

“Hoje também parece claro que as políticas de campeões nacionais (conduzida pelo BNDES, que selecionou companhias para ajudar a torná-las mais competitivas globalmente, com créditos subsidiados e compra de participações acionárias) não foram uma boa ideia – criaram um ambiente de negócios em que era o governo quem escolhia perdedores e vencedores e, para se beneficiar, era preciso gritar mais alto.”

Para Ribeiro, da Tendências, o ambiente para negócios piorou principalmente a partir de 2011. “Tivemos muitas mudanças nas regras do jogo, mais impostos para uns, subsídios para outros e tentativas do governo de intervir em determinados setores que não deram certo, como no setor elétrico”, diz.

*Colaborou João Fellet, de Washington


Novembrada, o dia em que Catarinas escracharam o ditador Figueiredo


Matéria publicada originalmente no Portal Catarinas. 30 de novembro de 1979. A inflação sufocava trabalhadoras e trabalhadores. Em apenas uma semana os preços do gás, do leite e do…

O protesto conhecido como Novembrada foi o maior escracho já feito a um ditador no país/ Foto: Dario de Almeida Prado

Matéria publicada originalmente no Portal Catarinas.

30 de novembro de 1979. A inflação sufocava trabalhadoras e trabalhadores. Em apenas uma semana os preços do gás, do leite e do feijão chegaram a subir mais de 50%. Ainda que muitos neguem, a história de insatisfação popular contra o regime ditatorial no Brasil não pode ser apagada: está nas páginas dos livros e na memória de quem viveu aquele período. Enquanto a população perdia diariamente o seu poder de compra de itens básicos, o governo de Santa Catarina gastava milhares de Cruzeiros com a organização da recepção ao então presidente da república, o general João Figueiredo, em sua visita à capital. O escolhido povo pacífico e acolhedor de Santa Catarina mostrou que só poderia aproveitar desse título quem o merecesse.

Na saída do carro o beijo em uma senhora, na chegada ao Palácio Cruz e Sousa o aceno das crianças com bandeirinhas e a multidão a esperar pelo presidente. Pelo roteiro parecia que tudo ocorreria bem até o governador não eleito de Santa Catarina, Jorge Bornhausen, dizer: “o povo de SC tem a alegria de receber o presidente do Brasil, João Figueiredo”. Entre a multidão alguém rompe o silêncio com o berro: “mentiroso”. Aberta a discordância, a manifestação –  até então posicionada silenciosamente nas faixas das/os estudantes – cresceu do tamanho da insustentabilidade daquele regime.

Foto: Dario de Almeida Prado

Conhecido como Novembrada, o protesto é lembrado como um dos mais expressivos escrachos públicos a um ditador. “Novembrada foi um marco no processo da ditadura, em que ditadores não saíram impune, publicamente levaram uma lavada. Foi uma demonstração pública e ampla, nacional e internacional de que não valiam a pena. O que eles sabiam era serem ditadores e o povo estava insatisfeito”, afirmou a advogada Rosângela Koerich Souza, integrante do Coletivo Memória, Verdade e Justiça.

Rosângela foi uma das sete estudantes presas na época por afrontar a autoridade dos ditadores do país e do estado. Numa sala do prédio, onde está o Acervo da Ditadura em SC, conversamos com ela, além de outras/os estudantes e ativistas que atuaram pela mobilização popular eclodida naquele dia. No local funciona o Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas (IDCH) do Centro de Ciências Humanas e da Educação (Faed/Udesc).

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Há 52 anos… outros tempos, outras mortes


Meninos, eu vi, eu estava ali. 28 de março de 1968: há exatos 52 anos foi assassinado o estudante Edson Luís de Lima Souto, 18 anos recém completados.

Paraense, ele vivia no Rio e se alimentava no Restaurante Estudantil Calabouço, no centro da cidade. Só que não era comida o que era oferecido, era uma lavagem!

Com frequência a juventude fazia manifestações por uma refeição melhor, organizadas pela FUEC (Frente Unida dos Estudantes do Calabouço), liderada pelo meu amigo Elinor Brito.

A ditadura não admitia e a PM do governador Negrão de Lima, supostamente de “oposição” ao governo militar, baixava o cacete.

Nesse dia chegou atirando. E matou o Edson. Os estudantes, indignados, não permitiram que os repressores se apoderassem do corpo, e o levaram até o Palácio Pedro Ernesto, então sede da Assembleia Legislativa da Guanabara.

Eu lembro como se fosse hoje: estava na Tijuca (onde morava e estudava) quando a notícia chegou (“Mataram um estudante!”). Peguei um ônibus (escondido de minha mãe viúva) e fui pra Cinelândia. Numa folha de caderno espiral rabisquei meu cartaz: “Ditadura mata!”.

Dia seguinte, 50 mil pessoas levaram Edson para sepultá-lo no São João Batista. Fomos a pé da Cinelândia a Botafogo. Depois, ainda naquele semestre, sucederam-se muitas e crescentes passeatas contra o regime.

A ditadura, por um tempo, recolheu sua carranca, que voltaria terrível no fim daquele ano, com o AI-5 (esse que o bolsonarismo insano quer de volta). Oficializavam de vez as prisões, banimentos, execuções, tortura, censura. Necroestado.

Hoje, passado mais de meio século, o vírus histórico e letal do autoritarismo e da violência repressiva do Estado continua entre nós, ainda que não tão escancarado. Ontem e hoje, segue necessário e urgente o clamor por justiça e democracia sem fim.

A arte eterniza: Milton Bituca Nascimento e Ronaldo Bastos fizeram, à época, uma canção chamada “Menino”, muito linda, que retratava nossa lágrima semeadora de esperança: “Quem cala sobre teu corpo/ consente na tua morte/(…) Quem grita, vive contigo!”


Fantasmas de massacre no Haiti assombram generais do governo Bolsonaro


Integrantes da controversa Missão de Paz no país caribenho ocupam cargos estratégicos em Brasília

Leonardo Fernandes

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Atuação no exterior teria formado uma "casta" dentro das Forças Armadas brasileiras, segundo especialistas - Créditos: Hector Retamal/AFP
Atuação no exterior teria formado uma “casta” dentro das Forças Armadas brasileiras, segundo especialistas / Hector Retamal/AFP

Na madrugada de 6 de julho de 2005, tropas da Missão de Estabilização da ONU no Haiti (Minustah), comandadas pelo exército brasileiro, fizeram uma operação de “pacificação” na maior favela da capital haitiana, Porto Príncipe, conhecida como Cité Soleil. Segundo testemunhas, cerca de 300 homens fortemente armados invadiram o bairro e assassinaram 63 pessoas, deixando outras 30 feridas.

Na época, o comandante da Minustah era o general brasileiro Augusto Heleno, hoje, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), responsável pela inteligência do governo de Jair Bolsonaro (PSL).

A ação foi objeto de uma denúncia na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), baseada em depoimentos de moradores e em relatório elaborado pelo Centro de Justiça Global e da Universidade Harvard (EUA). No documento, a Minustah foi acusada de permitir a ocorrência de abusos, favorecer a impunidade e contribuir para a onda de violência no país caribenho.

O caso teria causado desconforto no Palácio do Planalto, liderado na época pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Fonte ligada ao Ministério da Defesa confirmou ao Brasil de Fato que o governo brasileiro teria recebido uma solicitação da ONU para substituir o comando das tropas no Haiti, o que foi feito dias depois, com a entrada do general Urano da Teixeira da Matta Bacellar no comando.

Em resposta às denúncias, assim que assumiu Bacellar afirmou que o número de mortes não coincidia com as informações levantadas pelo exército. Segundo o general, “nove ou dez pessoas” teriam morrido depois de enfrentarem as forças de segurança.

“Fato é que o [Augusto] Heleno foi removido do Haiti e isso começou a cozinhar a raiva aos governos do PT. O estopim foi realmente a Comissão Nacional da Verdade. Daí pra frente, ele se tornou um militante antipetista”, disse a fonte consultada.

Os haitianos e a Minustah

Especialistas apontam as missões internacionais do exército brasileiro, principalmente no Haiti e no Congo, como uma espécie de estágio das Forças Armadas no trabalho direto com a segurança pública, uma visão nova na instituição. Os resultados podem ser medidos pela percepção das populações desses países sobre a atuação militar estrangeira.

Luis Felipe Magalhães, pesquisador do Observatório das Migrações e pós-doutor em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, esteve no Haiti, onde realizou pesquisa de campo e entrevistou pesquisadores e moradores da capital haitiana sobre, entre outras coisas, a atuação das forças da Minustah no país.

“A Minustah muitas vezes produziu os conflitos em locais onde não havia conflitos, e a maior parte das entrevistas falam precisamente de Cité Soleil. ‘A Minustah está lá, não sabe como operar, não conhece a dinâmica política e das disputas territoriais locais, e a partir do momento que ela entra e faz ações sem estratégia, ela piora o conflito’. Isso eu ouvi de diversos pesquisadores e diversas pessoas que eu entrevistei lá”.

Segundo Magalhães, o terremoto ocorrido em 2010 revelou a inoperância da Minustah na manutenção da paz e o agravamento dos conflitos justamente pela ausência de planejamento estratégico para a contingência.

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