Carlos Lacerda passa três dias em Conquista

Foi lendo a antiga revista “O Cruzeiro” (págs. 70 a 75), de 28 de setembro de 1968, que me deparei com a matéria “A Viagem Escolhida”, assinada por Carlos Lacerda com fotos de Hélio Passos, na qual é narrada a sua viagem pelo Nordeste. O curioso da reportagem, são as citações que ele faz de … Leia Mais



Nossa história, nossa gente: Tipos populares

Paulo Nunes   Os tipos populares, cada um a seu modo, sensibilizaram esta cidade, ora com sua beleza e camaradagem, ora com a ingenuidade aparente daqueles que sabem viver a vida Quase que não se vêem mais em Conquista, os seus tipos populares, aqueles vultos pictóricos que conviveram com o povo e o alegrou nas … Leia Mais


Simone Andrade Quadros nos deixou

Por José Bonfim (BRAUM) Uma pancada no meu coração, recebo a informação através de Pedro Massinha,  que  minha  amiga  querida que há muito  tempo não via. A saudade é o sentimento mais nobre que existe,pois esse, nós só sentimos de quem gostamos e eu amava Simone.José Bonfim, meu grande  amigo que há muito  tempo não … Leia Mais


Uma Vitória da Conquista construída por todos nós

Escrito no ano 2000 *Paulo Nunes Como todo pedaço de terra existente neste planeta, nosso município também nasceu da traição, dos assassinatos e do extermínio dos mais fracos. Desde o início do mundo que os grandes conquistadores são aqueles que se apoderam de terras, povos e mentes enfraquecidas pela fome, pela cultura e pela milícia. … Leia Mais


Vitória da Conquista na Era da Ditadura Militar


Vitória da Conquista 1977 blogdopaulonunesCom o golpe Militar de 1964, José Pedral ficou impedido de administrar o município, pois o novo regime decretara o seu ” impeachment”, ficando assim sem direitos políticos por 20 anos. Administrou o município por apenas treze meses. Em seu lugar, assumiu o advogado Orlando da Silva Leite, que na época era o Presidente da Câmara, e governou de maio de 1964 a abril de 1967, quando passou o cargo a mais um profissional liberal, o médico Fernando Spínola, que administrou até 1971. A experiência democrática de 1946 a 1964 foi limitada e chegou ao fim com a crise do populismo.

O golpe de Estado não modificou a estrutura política da Bahia senão, em alguns municípios, como foi o caso de Vitória da Conquista.

1963 a 1964
1963 a 1964

Era governador e continuou sendo Lomanto Júnior, sendo substituído em 1967 por Luiz Viana Filho, eleito pela Assembléia Legislativa, concluindo seu mandato em 1971. Por esta época a política conquistense deixava seus representantes da economia agrária ( predominantemente pecuarista) e passava para os profissionais liberais, agricultores e comerciantes enriquecidos no período pós-Guerra. Uma nova mentalidade começava a fazer parte do dia-a-dia da sociedade conquistense e, depois do Golpe, todos os prefeitos são profissionais liberais, defensores da diversificação econômica (o café era a opção da época) e do desenvolvimento comercial, indo até mesmo à implantação de um pólo industrial (o que ocorreu em 1972). (mais…)


Nossa Terra, Nossa gente: Conquista na Era Vargas


 

coronel deraldo mendes
Coronel Deraldo Mendes Ferraz 1930 a 1932

     

A revolução de 30 não mudou muito. Juracy Magalhães, escolhido interventor no Estado, em nota oficial de 24 de setembro de 1930, diz “ter resolvido não se fazer, por ora, nenhuma modificação na situação dominante dos municípios, conservando-se até que seja estudado o assunto…” Em 1933, através do Partido Social Democrático, o Tenentismo passou a apoiar-se nas Oligarquias locais. Em Conquista, o Partido Social Democrático tem como chefe Deraldo Mendes Ferraz, expressão de primeira grandeza do latifúndio na região, que apoiara a Revolução de Outubro. Derrubados os governos federal e estadual, a oposição em Conquista, ou seja, a Aliança Liberal, chefiada por Deraldo, formou uma “Guarda Branca” e expulsou Otávio Santos, então intendente, do poder. Assumiu, provisoriamente, Bruno Bacelar, prefeito “tampão”, que só fez mudar os nomes das ruas “Boiada” para João Pessoa, “Muranga” para Siqueira Campos e “Rua dos Tocos” para 10 de Novembro, numa demonstração de apoio aos revolucionários de 30.

Arlindo Mendes Rodrigues-1933 a 1936
Arlindo Mendes Rodrigues-1933 a 1936
florentino mendes
Florentino Mendes Andrade- 1936 a 1937

A escolha do Intendente se não fosse deferida a um grupo familiar agrário, o seria para o outro de base econômica idêntica, uma vez que a liderança política local derivava sua importância aos grandes proprietários rurais. As outras classes econômicas, como os comerciantes e os profissionais liberais não tinham condições de apresentar-se como alternativas políticas, e a situação do momento, montada sobre o sistema agrário de estrutura oligárquica. Tanto o comerciante, que era abastecido pelos latifundiários, quanto os profissionais liberais, que os tinham como seus clientes, deviam-lhes favores. No campo, a situação era ainda pior. Os trabalhadores rurais, agregados às fazendas, são dominados por um conjunto de mecanismos capazes de impedir o desenvolvimento de uma consciência política. Sem terra e sem trabalho numa região em que o “exército de reserva de mão de obra” é amplo, o emprego é um favor que impõe fidelidade.

Joaquim Fróes Caires e castro- 1937 a 1938
Joaquim Fróes Caires e castro- 1937 a 1938

A situação política local ficou na direção de Deraldo Mendes até 1937, quando Getúlio Vargas dava o Golpe de Estado no País e inaugura o Estado Novo, ditatorial. Nesse momento, em Conquista, Justino Gusmão se alia com Régis Pacheco para fazer oposição a Deraldo Mendes, que funda na cidade a UDN, e mais tarde o PSD – Partido Social Democrata. Já Régis Pacheco defendia a Ação Autonomista. Percebe-se, então, que a luta política vai passando, agora, de grupos familiares para grupos políticos. Em Conquista, durante todo o período ditatorial de Vargas (1937 – 1945), Régis Pacheco chefia a política local.

Dr. Luiz Régis Pacheco Pereira 1938 a 1945
Dr. Luiz Régis Pacheco Pereira
1938 a 1945

A mudança muito importante tratou do nome da cidade, Em 1943 passou a chamar-se Vitória da Conquista, isso se deu porque o governo federal estabeleceu que não poderia existir no país cidades com o mesmo nome. Existe uma cidade no estado de Minas Gerais que se chama “Conquista” e recebera esse nome antes da Imperial Vila da Vitória adotar o nome de Conquista, dessa forma a Câmara de vereadores teve que alterar o nome da cidade, que passou a se chamar Vitória da Conquista.

 


Conquista na época do Coronelismo


rua-grande-436Por volta de 1890 a I m p e r i a l Vila da Vitória já toma aspecto de cidade. Em 1888, o coronel Durval Vieira de Aguiar, em seu livro Descrições Práticas da Província da Bahia faz um relato detalhado do centro urbano do ex-povoado: “A Vila está edificada em terreno acidentado ao pé da serra denominado de Periperi. As casas são térreas (…) A praça é quadrilonga e de ladeira, ficando no centro a matriz (…) O comércio é pequeno e também o mercado da feira (…) Tudo isso não tem desenvolvimento pela falta de meios de exportação. Percebe-se, então, que estas determinantes da estrutura agrária montada naquela época constituíam-se em fatores limitantes do desenvolvimento regional”. (mais…)


Nossa história; Nossa gente: Da formação do Povoado da Conquista à Vila da Vitória


Primeira foto da cidade -1880
Primeira foto da cidade -1880

A formação do município de Vitória da Conquista acha-se ligada ao processo histórico do Sudoeste da Bahia, numa extensão compreendida entre os rios Pardo e de Contas, num período que vai de fins do século XVIII. De 1730 a 1840 pouco se sabe da história conquistense, senão a conquista dos bandeirantes sobre os índios Mongoiós e Imborés – antigos habitantes da região do São Francisco até São Jorge dos Ilhéus , conforme o estudioso Durval Vieira de Aguiar, em seu livro Descrições Práticas da Província da Bahia (publicação oficial), datada de 1888.

Pode-se localizar no processo de colonização do chamado “Sertão da Ressaca” (atual território do Planalto da Conquista) causas de ordem econômico-financeira. A busca de riquezas minerais, atestada por documentos antigos, na faixa de terra situada entre os rios Pardo e de Contas, assim como o interesse de abrir campos da região para a prática pastoril, são algumas das causas explicativas para a expedição de João Gonçalves da Costa, que terminou por criar um núcleo populacional, de onde se originou o município de Vitória da Conquista.

Mas, o uso seletivo e efetivo da terra para exploração agropastoril, encontrou na agricultura de subsistência dos nativos uma enorme diferença, que aprovaria uma série de conflitos entre os dois grupos – chegantes e nativos, onde acabara se consolidando primeiro em núcleo populacional, depois povoado, vila e, por fim, cidade de Vitória da Conquista.

A conquista da terra e conseqüente criação do povoado ocorreu em meio à resistência dos índios. Levantaram-se contra os desbravadores para defender suas terras os Mongoiós, fixados às margens do rio Verruga e os Imborés, fixados na serra do Periperi.

Os portugueses vão necessitando apreender privativamente a terra, entrando em conflito com os índios que não conheciam a propriedade privada e para os quais a ocupação da terra apresentava uma ameaça à sua subsistência. O resultado foi um conjunto de guerrilhas cruéis, além da mortalidade causada por doenças que os brancos trouxeram para a região, sobretudo a varíola. Documento datado de 1783 (Ofício do Ouvidor da Comarca dos Ilhéus, Francisco Nunes da Costa, para Governador interino da Bahia) descreve os Mongoiós como “gentio de tão bom caráter, que em sociedade, trabalham em plantações de bananas, inhames, toda sorte de fava e feijão e até de cana de açúcar, o que constitui uma nação dócil e fácil de conduzir”. Ocorre, entretanto, que as fazendas de gado vão se estabelecendo. Há evidências destas fazendas desde antes de 1780, pois num ofício do ex-governador da Bahia, Manuel da Cunha Menezes, para Martinho de Melo Castro, datado de 12 de agosto de 1780, diz certa altura: “Este foi o modo porque soube que naquela capitania havia criação de gado e querendo dar-lhe providência, não só porque tivessem gados para a lavoura, mas também para a extração das madeiras (hoje, atual área do Poço Escuro)…, hoje tem no rancho mais de 60 pessoas e vivem sossegadas das primeiras pertubações e rodeadas de fazendas de gados …”. (mais…)


Reflorestamento participativo do rio Verruga


Rio verruga 2Alcides Pereira Santos Neto¹; Marayana Prado Pinheiro²; Joilson Silva Ferreira³

¹Graduando em Engenharia Florestal, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, Departamento de Ciências Naturais, Laboratório de Ecologia, Estrada do Bem Querer, Km 4 – Caixa Postal 95, tel. (77) 3425-9340, Vitória da Conquista, Bahia, Brasil, alcidepsneto@yahoo.com.br.
²Bióloga, mestre em desenvolvimento regional e meio ambiente, docente da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, yanabio@yahoo.com.br.
³Engenheiro florestal, doutor em agronomia, docente da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, joilsonsf@yahoo.com.br

RESUMO
A conservação e melhoria dos recursos hídricos constituem-se prioridades na agenda ambiental da atualidade. Neste sentido, projetos com abrangência local representam estratégias capazes de combater diversos problemas socioambientais. A partir destas premissas, o projeto de extensão Reflorestamento Participativo do Rio Verruga, executado e financiado pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, tem como objetivo promover ações educativas e de capacitação com vista a restaurar a mata ciliar do Rio Verruga no entorno da Vila Bem Querer, município de Vitória da Conquista, Bahia. O envolvimento dos diversos segmentos sociais da localidade é premissa básica para realização das ações. O projeto encontra-se em andamento desde abril de 2010, estando estruturado em três etapas: 1) educação e mobilização da comunidade quanto às condições sócio-ambientais da localidade; 2) capacitação de jovens para a produção de mudas florestais; 3) restauração da mata ciliar com a participação dos moradores da Vila Bem Querer. Desta maneira, a comunidade beneficiada torna-se protagonista das transformações socioambientais na localidade.

1. INTRODUÇÃO

O território de Vitória da Conquista, localizado no Sudoeste da Bahia, é marcado por várias problemáticas ambientais, entre elas destaca-se a degradação de seus recursos vegetais, a exemplo da mata ciliar, acarretando a perda de grande parte da biodiversidade e da qualidade dos seus recursos hídricos. Segundo Maia (2005), a relação sociedade/natureza no município está caracterizada por grandes desequilíbrios, que têm se revertido, normalmente, em problemas que afetam diretamente à sociedade. Assim, torna-se essencial pensar, implementar e manter soluções capazes de pagar uma dívida histórica, assegurando o desenvolvimento sustentável da região e promovendo a educação ambiental.
A qualidade do meio ambiente está estreitamente ligada a diversos aspectos sociais, como saúde e economia. De acordo com a Constituição da República Federativa do Brasil, no Capítulo I do Meio Ambiente, art. 225, todos têm direito a um ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial a sadia qualidade de vida. Paradoxalmente a este direito, a realidade encontrada em diversas localidades do Brasil tem evidenciado a má gestão dos recursos naturais, assim como sua degradação desenfreada. Como exemplo deste processo de degradação, Soares Filho (2000) constatou que a cobertura de vegetação original no município de Vitória da Conquista (BA) não ultrapassa os 10%. (mais…)


Do Arraial a Conquista: ruptura e continuidade na trajetória modernizante de Vitória da Conquista – BA



por Alexandre de Jesus Santos e José Rubens Mascarenhas de Almeida

Sobre o primeiro autor*

Sobre o segundo autor**

Vitória da Conquista[1], cidade situada no centro sul da Bahia, a cerca de quinhentos e dez quilômetros de Salvador é, hoje em dia, uma das de maior desenvolvimento econômico do Brasil (PMVC, 2010a), tendo uma população girando em torno de trezentos e vinte mil habitantes.

Fundada no contexto das incursões bandeirantes realizadas no sertão baiano por João Gonçalves da Costa, em finais do século XVIII (SOUSA, 2001). Durante os primeiros anos de existência caracterizou-se como um pequeno núcleo urbano e um número crescente de fazendas estabelecidas na região. O Arraial da Conquista, como era conhecido à época, apresentou um crescimento populacional tímido. Segundo Medeiros (2009a), em 1817 o pequeno vilarejo tinha uma população aproximada de 240 habitantes. As fontes dão conta de que era formado por negros, brancos e índios aculturados. A professora Maria Aparecida, em seu livro A Conquista do Sertão da Ressaca (2001), fundada em descrições de viajantes, afirma que o aspecto humilde das residências denunciava o modo simples de vida dos seus habitantes. As pessoas mais abastadas desse núcleo viviam nas fazendas, onde se situava a produção econômica de maior peso da sociedade colonial.

Assim, cristalizava-se uma distinção entre a cidade e o campo, de forma que as famílias ricas residiam neste último, o que é natural para uma formação social rural e de economia agropecuária do século XIX. Ainda segundo Medeiros, a cidade tinha seus arruamentos primitivos seguindo o curso do Riacho da Vitória – ou Rio Verruga – e era habitada por pessoas destituídas de valores significativos para a época. Sousa (2001) aquiesce tal premissa e afirma que as palavras de Alcântara Machado expressam o significado do latifúndio para o Brasil colonial quando diz que “do latifúndio é que parte a determinação dos valores sociais; nele é que se traçam as esferas de influência; é ele que classifica e desclassifica os homens; sem ele não há poder efetivo, autoridade real, prestigio estável…” (MACHADO, apud. SOUSA, 2001 p. 172.).

Dentre as famílias de prestígio da região, estava a de Gonçalves da Costa, doadora de terras equivalente a 140$000 (SOUSA, 2001). O fito da doação foi a construção da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Vitórias, símbolo do vinculo entre o poder eclesial e o temporal local. Essa relação era comum na sociedade brasileira pré-republicana, já que a fé católica era a religião oficial do império brasileiro, constituindo-se como agente ideológico legitimador das relações sociais estabelecidas à época.

Até 1840, o Arraial não sofreu grandes modificações no seu núcleo urbano. A atividade econômica vigente continuou a ser a criação extensiva de gado, a produção de algodão e a agricultura de subsistência, enquanto que, nessa ocasião, o Brasil já produzia café em quantidade considerável. No dia 19 de Maio do ano em questão, o Arraial da Conquista foi elevado à condição de Vila, passando a se chamar Imperial Vila da Vitória, feito conseguido por pressão exercida pelos latifundiários do Sertão da Ressaca sobre o Governo Central da Bahia. Esta mudança atendia ao novo modelo político-administrativo implantado no Brasil em 1822. Ivo (2001) ressalta que o primeiro corpo legislativo da Imperial Vila da Vitória tinha seus membros vinculados ao mesmo tronco familiar de João Gonçalves da Costa, o que evidencia hegemonia do setor oligárquico, refletindo, no âmbito regional, as relações políticas e econômicas nacionais pautadas na exceção das camadas populares.

É importante demonstrar que, apesar do poder político dos proprietários locais emanar do latifúndio, ele era exercido a partir da cidade, esta se instituindo no centro das decisões político-administrativo (IVO, 2001), sobretudo após a elevação do Arraial à categoria de Vila. Essa condição traz consigo a implantação de um aparato burocrático-administrativo constituído pelas câmaras municipais e demais instâncias. Assim, o destino da cidade era decidido por proprietários rurais, que tomavam deliberações de acordo com seus interesses. Todavia, a origem do corpo burocrático e o parentesco das famílias não foram, por si, suficientes para impedir disputas conturbadas na Imperial Vila da Vitória. Sobretudo nos processos eleitorais, facções políticas rivais digladiavam-se de forma violenta para ocupar os cargos políticos. Segundo Aguiar (2009), uma marca da rivalidade entre a parentela era que tais disputas nunca chegavam a um fim extremo por se tratar de intriga familiar.

FOTO 01: panorama da cidade de Conquista nas primeiras décadas do século XX.

A participação dos indivíduos nas eleições estava associada ao poder aquisitivo das pessoas, pois o voto era censitário, conforme estabelecido na constituição imperial de 1824. Em 1872, a população da Vila era de 18.836 moradores, enquanto o número de eleitores apresentou uma queda: se, em 1842, eram 40 eleitores, em 1852 eram apenas 32 (IVO, 2001). Enquanto os grupos privilegiados da sociedade imperial disputavam os cargos centrais das instituições, o exercício efetivo do poder e a dominação de classe (ALMEIDA, 1998) caracterizava-se pela submissão da população. Assim, o apoio a um ou outro candidato se fazia pela coerção[2].

Acompanhando a conformação jurídico-política do país, em 1° de Junho de 1891 a Imperial Vila da Vitória lograva a condição de cidade, recebendo o nome de Conquista. Durante a segunda metade do século XIX e a primeira do século XX, do ponto de vista econômico, Conquista se afirmaria como grande produtora agropecuária e de mediação comercial. Como ressalta Fontes,

Entre fins do século XIX e início do século XX, o município já se projeta como um importante espaço de produção agropecuária e de intermediação comercial, estabelecendo relações econômicas com a região cacaueira e o Sertão da Ressaca. Nos fins da década de 1920, as relações mercantis com outros centros são dinamizadas, via rodovia e ferrovia Jequié-Nazaré, aproximando os fluxos humanos e econômicos do Recôncavo Baiano, logo, da capital do Estado que chegavam pelo Porto. Esta relação de mercado entre o sertão e o litoral dá início a um intenso trânsito entre os dois pontos da Bahia (…) dinamizando sobremaneira a economia baiana em troca de couro, da manteiga, do requeijão, do café e das frutas que enviava a Ilhéus, Conquista recebia as novidades (2009, p. 3).

São também desta data as primeiras fotografias de Conquista, documentos imprescindíveis na análise da dimensão do espaço urbano. A foto 1 mostra a cidade em uma visão panorâmica (página 3).

FOTO 02: Igreja Matriz de Conquista na década de 20.

As fotografias 02 e 03 mostram a Rua Grande, onde se localiza a Igreja Matriz, atual Praça Tancredo Neves, e onde eram realizadas as atividades comerciais (foto 3). É possível perceber que, em 1920, o núcleo urbano ainda era pequeno, guardando aspectos de Arraial, apesar de não mais sê-lo em termos jurídicos. Para os padrões da época, Conquista era considerada uma cidade importante, pois se destacava o comércio de produtos agrícolas e pecuários tendo sido, neste momento, anexado 16 distritos à sua sede (PMVC, 2010b). Por esse período, em decorrência da implantação da República (1889), a cidade passa por efervescências artísticas, culturais e administrativas sem modificar o cenário político e de classes da época. Nesse sentido, o poder continuava nas mãos da aristocracia rural e urbano-comercial que, apesar de estarem ligadas entre si – por laços matrimoniais, estabelecendo relações de parentesco –, muitas vezes os ânimos se alteravam quando o assunto era a ocupação de cargos político-administrativos. O conflito entre as famílias perdurou por longo tempo, chegando ao extremo do litígio armado entre as facções da época, como aponta Medeiros no artigo Meletes e Peduros: uma só e numerosa família (2009b),referindo-se a duas importantes famílias locais. O conflito só terminou em finais da década de 1910.

FOTO 03: Mercado Municipal na década de 20

Os jornais existentes então se constituem, hoje, fonte inesgotável da história política de Conquista, e constituíram-se, à época, arma de excitação ao confronto, já que as ideias dos grupos rivais eram difundidas por esse meio. Por vezes, as ofensas ultrapassavam esse campo, tornando-se questões pessoais.

A necessidade de ostentar os postos públicos não é tão difícil de ser entendida, já que as instancias burocráticas continuavam gestoras e executoras do orçamento da cidade, sendo administrado de forma patrimonialista, fruto da alentada herança colonial. No orçamento municipal, votado pelo então Conselho Municipal, em agosto de 1916 para liberação em 1917, estava previsto o quanto – e como – deveria ser gasto com as atividades de competência da administração pública.

A lei nº 17[3], de agosto de 1916, presumia todas as despesas da Intendência Municipal, desde os gastos com pessoal (determinando o ordenado dos funcionários) até valores que deveriam ser gastos com os serviços públicos. Previa-se que, do total da receita municipal de 1917, cujo valor aproximado previsto era de 53:000$000, deveria ser destinado à iluminação pública 2:200$000; com medicamentos para pessoas pobres 200$000; asseios da cidade e mercados públicos 1.000:000; e obras públicas 9:173$34. Dentre outras determinações, estas revelam a existência, legal, de recursos para investimentos na área urbana, o que demonstra certa preocupação dos administradores para com o crescimento e a manutenção do núcleo citadino. A lei número 22, aprovada em 18 de fevereiro de 1917, desvenda a necessidade de urbanização da cidade a qualquer custo, estabelecendo normas de edificação e estética para as construções. Registra que o Conselho Municipal

da cidade de Conquista, usando das atribuições que a lei lhe confere, decreta: Art. 1. Todas as pessoas que, a mais de um ano, tomaram posse para edificação de casas nas ruas e praças desta cidade, fica marcado o prazo de seis meses, contados da data de publicação da presente lei, para iniciarem suas construções, sob a pena de perderem o direito as mesmas posses e sendo dadas a quem quiser fazer edificações. Art. 2. Na praça “Sá Barreto” nenhuma casa será edificada com altura inferior a dezoito palmos… [rasura no documento] (…). (Livro de leis e regulamentos de 1915, p. 24).

A partir da observação de tais leis, já é possível identificar, desde muito cedo, certa preocupação com o processo de urbanização da cidade. Acreditamos que, atrelado à ações de desapropriação das “casinhas”, estava também o processo de periferização de uma população específica, evidenciado nas reformas do núcleo urbano. Nesse sentido, Medeiros (2009b) aponta que, na gestão do Intendente Coronel Maximiliano Fernandes de Oliveira, algumas obras de melhoramentos foram realizadas, assim como a construção de um casarão na Rua Grande.

FOTO 04: vista panorâmica

As estradas para Jequié e Itambé, abertas na década de 20, e a rodovia Ilhéus – Lapa, da década de 40 (PIRES, 2003) constituíram-se marcos importantes no processo de urbanização de Conquista, mas, sobretudo, na afirmação do município enquanto região de entreposto comercial.

Segundo Pires (2003), após a década de 30, a expansão urbana deu-se na direção Sul e Sudeste, momento em que surgem hospitais, novos estabelecimentos comerciais e edificações de melhor qualidade. É evidente que essas “residências de qualidade” de que fala Pires são as de famílias abastadas, uma vez que parte da população urbana não possuía recursos para tais construções e outra parte residia na zona rural. Como mostra o senso demográfico do IBGE realizado na década de 40, do total de 33.554 habitantes, moravam na cidade apenas 8.644; 24.910 viviam na zona rural. Com certeza, a população de trabalhadores rurais e urbanos – muitos dos quais ex-escravos – não possuía recursos compatíveis com a edificação dessas “casas de qualidade”.

Para Medeiros, o crescimento urbano verificado nesse período é resultado da acumulação “de condições propicias ao desenvolvimento de novas atividades econômicas e, por isso mesmo, de expansão urbana […]” (1977, p. 9). É importante salientar que, durante o período Vargas, houve uma intensificação do processo de urbanização no Brasil, sobretudo nas capitais, fruto do sistemático incentivo à industrialização, e regulamentação do trabalho assalariado. Tratou-se da implementação do procedimento de Industrialização por substituição de importação, fruto da nova dinâmica socioeconômica do Brasil pós-crise de 1930.

FOTO 05: Av. Lauro de Freitas em dia de feira entre as décadas de 30 e 40

Como vemos, Conquista não estava imune às condições nacionais de inserção no capitalismo mundial. A partir da análise da fotografia 04
(pagina 5), é possível verificar, ao fundo, a estrada que vai para Ilhéus – hoje Av. Juracy Magalhães. Percebe-se também que o tamanho da cidade ainda era pequeno, ocupando apenas o centro e parte de onde é hoje o bairro Recreio (área nobre da cidade).

A foto 05 mostra como ficava a Rua Grande em dias de feira. Nesses dias, a urbe recebia os habitantes da zona rural, tropeiros e pessoas das cidades vizinhas que vinham comercializar e adquirir produtos para suas necessidades. Essa foto nos dá uma dimensão exata da importância comercial de Conquista à época.

Na década de 30, a cidade também recebeu forte influência da chamada Aliança Liberal, com a chegada da era Vargas. Os políticos de oposição à Nova República e que exerciam suas atividades em Conquista foram obrigados a renunciar aos cargos que ocupavam. Segundo Medeiros (2009c e d), o Jornal “O Combate” foi o principal porta-voz do ideário da Aliança Liberal. Como no âmbito econômico, Conquista não ficou alheia aos acontecimentos nacionais e internacionais, pois os jornais que circulavam na cidade sempre traziam notícias e posicionavam-se diante dos fatos, já que esses periódicos estavam a serviços de figuras imponentes da cidade e região.

É consenso entre os estudiosos de Conquista que a década 40 apresenta uma urbanização mais acentuada e constante. Foi o momento em que a abertura da BR – 116, propulsora do desenvolvimento econômico e da urbanização acelerada da cidade, escancarou o processo de segregação social, resultado do desenvolvimento das forças produtivas, das contradições de classe e dos conflitos urbanos de múltiplas naturezas.

Assim, o enquadramento de Conquista no cenário de desenvolvimento das relações de produção capitalista no âmbito nacional, tanto no aspecto das políticas de crescimento urbano quanto econômico, dar-se-ia de forma gradual durante o século XIX. Isso contribuiu para que a cidade perdesse o espírito provinciano, inserindo-se no panorama das relações capitalistas de produção, explicitando, portanto, todas as suas contradições.

REFERÊNCIAS

AGUIAR, Itamar Pereira de. Diversidade Religiosa Afro-Brasileira. VIII Colóquio Nacional e I Internacional do Museu Pedagógico, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, 2009.

ALMEIDA, Lucio Flavio de. Entre o Local e o Global: Poder e Política na Atual Fase de Transnacionalização do Capitalismo. In: DOWBOR, Ladislau; RESENDE, Paulo Edgar A.; IANNI, Octavio. Dasafios da Globalização. Petrópolis: Vozes, 1998. 175 – 188.

FONTES, José Reimundo. O Novo Ciclo de Desenvolvimento de Vitória da Conquista. [online] Disponivel em: <http://www.conquistadetodos.com.br/index.asp?site=artigos/ ver.asp&codigo=27>. Acesso: 30 de Março de 2009.

IBGE. “Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas”. 05 de Junho de 2008. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1>. Acesso: 30 de Abril de 2009.

IVO, Isnara Pereira. Poder local e eleição na Imperial Vila da Vitória durante o século XIX. Politeia: história e sociedade, Vitória da Conquista, v. 1, n. 1, p. 201-223, 2001.

MEDEIROS, Ruy Hermann de Araujo. Jornais Conquistenses do Passado. Disponivel em: <http://blodopaulonunes.com/v2/2009/02/jornais-conquistenses-do-passado>. Acesso em 08 de Fevereiro de 2009d.

_________. Jornais Conquistenses do Passado – O Combate II. Disponível em: <http://blogdopaulonunes.com/v2/2009/02/jornais-conquistenses-do-passado-2>. Aces-so em: 13 de Agosto de 2009c.

_________. Meletes e Peduros: Uma só e numerosa família. Disponivel em: <http://blogdopaulonunes.com/v2/2009/02/meletes-e-peduros-uma-so-e-numerosa-familia>. Acesso em: 02 de Fevereiro de 2009b.

_________. Vitória da Conquista Primitiva Disponivel em: <http:/glogdopaulonunes.com/v2/2009/02/vitoria-da-conquista-primitiva>. Acesso em: 14 de Fevereiro de 2009a.

PIRES, Eliane Nogueira. Bairro Brasil: cotidiano e sociabilidade. 2003. DISSERTAÇÃO (mestrado em Antropologia) – Pontificia Universidade Católica, São Paulo, 2003.

Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista. Vitória da Conquista é destaque na Revista Veja. Disponível em: <www.pmvc.com.br/v1/pmvc.php? pg=noticia&id=4879>. Acesso em: 08 de Outubro de 2010a.

_________. História. Disponível em: <www.pmvc.com.br/v1/pmvc.php?pg= content&id=9>. Acesso em: 22 de Abril de 2010b.

SOUSA, Maria Aparecida Silva de. A Conquista do Sertão da Ressaca: povoamento e posse da terra no interior da Bahia. Vitória da Conquista: UESB, 2001.

LEIS E REGULAMENTOS

VITÓRIA DA CONQUISTA, Lei nº 17, de 25 de Agosto de 1917. Estabelece oorçamento anual do município. Caderno de Registro de Leis e Regulamentos de 1915 do Conselho Municipal de Conquista. Vitória da Conquista, Bahia, p. 14 – 15.

VITÓRIA DA CONQUISTA, Lei nº 22, de 18 de fevereiro de 1917. Estabelece data para inicio das edificações. Caderno de Registro de Leis e Regulamentos de 1915 do Conselho Municipal de Conquista. Vitória da Conquista, Bahia, p. 24.

FONTES AUDIOVISUAIS

MEDEIROS, Ruy Hermann de Araujo. Conquista Antiga: coletânea de 120 fotos digitalizadas – décadas de 20 a 70 – Vitória da Conquista. Museu Pedagógico, 2005. 1 CD-ROM.


*Graduando do curso de Licenciatura em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e membro do Grupo de Estudos de Ideologia e Lutas de Classes (GEILC), do Museu Pedagógico/UESB.

**·Orientador da pesquisa. Doutor em Ciências Sociais pela PUCSP; docente da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia; Coordenador do GEILC e pesquisador do Museu Pedagógico/UESB e do Núcleo de Estudos de Ideologia e Lutas Sociais – PUCSP.

[1] Nomenclatura atual.

[2] As relações políticas se faziam nos padrões do apadrinhamento típico da política coronelista da América portuguesa – ou do modelo caudilhesco, da América espanhola – em que o alinhamento se dava de acordo a relações para além da política.

[3] Livro de Leis e Regulamentos de 1915 p. 14.

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Política, família e educação em Vitória da Conquista na primeira metade do século XX


Ruy Medeiros- blog do Paulo NunesRuy Hermann de Araújo Medeiros∗
UESB
RESUMO:
Tomando como base um conflito político acontecido nas duas primeiras décadas do século XX, estudamos a história da educação em Vitória da Conquista, mormente, as relações entre política, idéias e educação. O conflito cognominado “Meletes e Peduros” foi narrado a partir de substancial documentação primária, fontes jornalísticas e depoimentos orais. Os aspectos teóricos se basearam na história cultural, sem desconsiderar, no entanto, a forma como se organizava materialmente a sociedade, qual o lugar social de cada grupo envolvido, a forma como circulavam as idéias e a forma como os sujeitos se relacionavam. Evidenciamos um conflito eclodido em 1919, no qual estão envolvidos intelectuais, políticos e professores da região.

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Coronel Gugé

Introdução
Por todo o século XIX, até meados do séc. XX, em Vitória da Conquista1 “a liberdade política de participação e decisão nos órgãos consultivos e deliberativos da administração local” (IVO, 2004: 73) foi obra de uma minoria que historicamente controlou as instituições políticas e sociais, saída do tronco de João Gonçalves da Costa, representada na Câmara, Polícia, Justiça, Intendência, etc. O município, então, como “microesfera da administração político-administrativa, reproduziu, em suas estâncias públicas e no imaginário da sociedade local, o universo político vivenciado pelos dirigentes da política nacional” (IVO, 2004: 75).
Política e família se misturavam, em uma realidade contornada pela dominação e subordinação. As disputas políticas, segundo SOUZA (1999), envolvendo grupos rivais, se davam, pelo controle do poder municipal para manter uma relação privilegiada com o poder estadual, uma vez que a natureza do regime republicano visava diminuir as autonomias dos municípios e fortalecer os estados. Nessa realidade de efervescência política, destacou-se no monopólio do poder municipal a figura do líder carismático José Fernandes de Oliveira Gugé, que governou a cidade de 1911 a 1915, e continuou a influenciar a política, até o ano de 1918, quando veio a falecer, circunstância essa que acabou se tornando o estopim de um conflito armado que já vinha se formando há anos e que teve sua concretização em janeiro de 1919.
Aqui, destacamos o conflito de janeiro de 1919, conhecido como Conflito entre “Meletes e Peduros”, devido às várias nuances que o contornaram, desde a participação efetiva da imprensa, às articulações partidárias para manutenção e tomada de poder que teve, dentro da própria cidade, o palco de atuação de dois grupos rivais, oriundos de uma só e numerosa família. De um lado, estavam os partidários do Cel. Gugé, denominados de Peduros que eram do partido situacionista, e, do outro, a oposição com os chamados Meletes, que eram partidários do Cel. Emiliano Moreira de Andrade, mais conhecido por Maneca Moreira, parente do Cel. Gugé, mas, que apoiou o seu inimigo político Pompílio Nunes de Oliveira, em busca de mais espaço nas instâncias do poder local. (mais…)