As convenções antidemocráticas

Fala-se tanto em democracia e pratica-se pouco no Brasil. Um exemplo mais claro e recente são as convenções partidárias onde as decisões são sempre tomadas de cima para baixo e não ao contrário, como rezam os discursos políticos. Este quadro antidemocrático está entranhado em todos os partidos, quer sejam de direita, de extrema, de centro … Leia Mais


PSB retira candidatura própria e se coliga com José Raimundo do PT

A executiva regional do Partido Socialista Brasileiro (PSB) de Vitória da Conquista, durante sua convenção na noite do último dia 14 (segunda-feira), realizada no auditório da Câmara Municipal de Vereadores, anunciou a retirada do nome de Mozart Tanajura como pré-candidato a prefeito, para apoiar a coligação majoritária da chapa do PT que vai disputar a … Leia Mais


Os bandos, as tribos acéfalas, as centralizadas e a criação do Estado

No capítulo “Do Igualitarismo à Cleptocracia”, em seu livro “Armas, Germes e Aço”, o cientista Jared Diamond faz uma viagem na história da humanidade há 40 mil anos, descrevendo a vida do homem em bandos, nas tribos acéfalas, nas centralizada onde já aparece a estrutura social e política de organização até a criação do Estado … Leia Mais


O argumento da força, não pode vencer a força do argumento

Artigo originalmente escrito em 10 de novembro de 2012 Minha politizada família conquistense, têm coisas sobre as quais nós, por compromisso com a sociedade, não podemos nos silenciar, porque a omissão nesses casos pode ser criminosa. As eleições deste ano em Vitória da Conquista são um exemplo disso: aconteceram coisas que precisam de melhores explicações … Leia Mais


A política como arte e a alma do bem governar e do legislar

  Quando me lancei a pré-candidato pelo PSB a vereador a uma cadeira no legislativo de Vitória da Conquista recebi de imediato dois tipos de reações dos amigos, colegas e conhecidos de longas datas que conhecem minha trajetória de vida e como tenho me comportado dentro dos meus princípios de primar pelo caráter. Uma delas … Leia Mais


Os germes são bem mais inteligentes que os humanos negacionistas da ciência; as características comuns de transmissão das doenças


Jeremias Macário

“A escrita caminhou junto com as armas, os micróbios e a organização política centralizada como um agente moderno de conquista… Relatos escritos de expedições motivaram outras posteriores, pela descrição das terras férteis que esperavam os conquistadores”. Essa revelação é contada pelo biólogo Jared Diamond, em seu livro “Armas, Germes e Aço”.
Em sua exposição científica, cita que a escrita nasceu primeiro, de forma independente, no Crescente Fértil com os sumérios por volta de 3000 a.C. e na Mesoamérica, sul do México, antes de 600 a.C. Por difusão de ideias, no Egito (os hieróglifos), 3000 a.C., na China por volta de 1.300 a.C. no vale do Indo, na Grécia e em Creta que podem ter sido também de modo independente. A escrita cuneiforme suméria é o sistema mais antigo da história.
Interessante é que a escrita maia é organizada de acordo com os princípios semelhantes aos dos sumérios e de outras escritas eurasianas nas quais os sumérios se inspiraram. Muitas outras sociedades desenvolveram suas escritas como na Índia, Grécia micênica, Creta minoica e na Etiópia.
O alfabeto cirílico (ainda usado na Rússia) decorre de uma adaptação de letras gregas e hebraicas feita por São Cirilo. Outro idioma, como o germânico, teve seu alfabeto gótico criado pelo bispo Ulfilas. As centenas de alfabetos históricos e atuais derivam do alfabeto semítico ancestral (da Síria ao Sinai) no segundo milênio a.C. No início, o conhecimento da escrita era restrita aos escribas a serviço dos reis e dos sacerdotes.
No entanto, a escrita alfabética grega se expandiu para além dos escribas e foi um veículo de poesia e humor para serem lidos nos lares. Por sua vez, a produção de alimentos foi essencial para a evolução da escrita como para o surgimento dos micróbios causadores das epidemias humanas.
POPULAÇÕES EXPOSTAS EM POUCO TEMPO
As doenças infecciosas têm várias características comuns, como de transmissão rápida e eficaz da pessoa contaminada para a saudável que está próxima, e com isso a população inteira fica exposta em pouco tempo. Outra característica são as doenças agudas num curto período onde as pessoas morrem, ou se recuperam rapidamente. Outra diz respeito aos felizardos que se recuperam e desenvolvem anticorpos que os deixam imunes por muito tempo a uma repetição da doença, possivelmente para o resto de suas vidas.
Segundo Diamond, a disseminação dos micróbios e a passagem rápida dos sintomas significam que todo mundo, em determinada população humana, é rapidamente contaminado e logo depois está morto, ou recuperado e imune. Como o micróbio só pode sobreviver nos corpos de pessoas vivas, a doença desaparece até uma nova leva de bebês atingir a idade suscetível até que uma pessoa infectada chegue do exterior para desencadear uma nova epidemia.
Ele cita, como exemplo, como essas doenças se transformaram em epidemias na história do sarampo nas ilhas do Atlântico chamadas Feroé, em 1781, e depois desapareceu, deixando os locais livres do sarampo até a chegada de um carpinteiro contaminado vindo da Dinamarca de navio, em 1846. Em três meses, quase toda população de Feroé (7.782) havia contraído a doença e morrido, ou se recuperado.
Estudos mostram que o sarampo tende a desaparecer em qualquer população inferior a meio milhão de pessoas. Só em populações maiores, a doença pode passar de um local para outro, persistindo assim até que um número suficiente de bebês tenha nascido na área originalmente infectada para que o sarampo possa voltar.
As doenças de multidão (mais…)


Adeus, Pedro


*Professor Ruy Medeiros

Ruy Medeiros

D. Pedro Casaldáliga, sua morte foi uma irresponsabilidade.
Logo agora, você se vai.
Um dia, depois de tanto ouvir sobre o seu combate, li num de seus textos:
Nasci às margens do rio tecelão Llobregat em 1928 e em uma leiteira (“Maldito seja o latifúndio, salvos os olhos de suas vacas”). De uma família Católica e direitista, o que naqueles tempos eram uma coisa só. Com a pujante raiz da terra, pelo lado de meu pai, na solarenga fazenda de Candáliga. Pelo lado de minha mãe, com a vista e a palavra e o dinamismo de uma longa dinastia de “Marchantes” (creio na Justiça e na Esperança).
Você tinha tudo para ficar acomodado na Europa. Mas não. Preferiu embrenhar-se num Brasil autoritário e injusto. Meteu-se lá no Norte Araguaia, em Mato Grosso. Estava doido para falar aos pobres, indígenas e não indígenas. Foi fixar-se em São Felix do Araguaia. De nada adiantou dizer que viver na América Latina era ariscoso: Havia uma brutalidade institucionalizada.
“No dia 26 de janeiro de 1968, Manuel e eu trocávamos os 11 graus abaixo de zero de Madri pelos 38 graus acima de zero do aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro. Era um pulo no vazio do outro mundo. Eu tinha conseguido, finalmente o que tinha sonhado e pedido e procurado, raivosamente, durante todos os dias de minha vida de vocação: “as Missões”. Um clima heroico para viver heroicamente – dizia-me então para mim mesmo, ingênuo e obstinado. (Creio na justiça e na esperança).”
E, depois, luta contra a grilagem das terras dos pequenos lavradores, luta em defesa dos índios, solidariedade concreta aos pobres. Você viveu intensamente seus gestos, suas palavras, sua crença.
As perseguições chegaram logo. As ameaças dos grileiros aumentaram. Os boçais da ditadura militar o ameaçavam de expulsão a todo instante, prisão, tortura. Você resistiu.
A ditadura se foi, dizem. Você continuou aqui. Continuou amando sua gente, que eram os despossuídos.
Enfim, você se foi. Cumpriu o que um dia você disse, um pouco diferente, mas tão igual no morrer, morreu moralmente de pé:
Eu morrerei de pé como as árvores.
“Eu morrerei de pé como as árvores.
De pé me matarão.
O sol, como testemunha maior, porá seu lacre
sobre meu corpo duplamente ungido.
E os rios e o mar
se farão caminho
de todos os meus desejos
enquanto a selva amada sacudirá de júbilo suas cúpulas.
A minhas palavras eu direi:
– Eu não mentia ao gritar-vos!
Deus dirá a meus amigos:
– Certifico
que ele viveu convosco este dia.
De súbito, com a morte,
minha vida se fará verdade.
Por fim, terei amado!
D. Pedro Casaldáliga, sua morte é uma irresponsabilidade.
Agora você caminha entre as estrelas da memória daqueles que estudam seus textos, daqueles que admiram sua trajetória, dos indígenas, dos poceiros e camponeses, dos pobres, dos amigos e camaradas.
(D. Pedro Casaldáliga, da Ordem Claretiana, foi Bispo de São Felix do Araguaia, Mato Grosso, faleceu em 08/08/2020).


Novo desenho?


Ruy Medeiros

As eleições municipais batem à porta. Embora tenham sido adiadas para novembro, há sensação de que já estão em cima da hora.
Elas ocorrerão diante de um quadro diferente daquele que dominou o momento das eleições presidenciais, não apenas por que é outro ano e as realidades locais sejam o tema, embora forças sociais e partidos sofram pesadamente a influência de fatores de importância geral, como a onda antiesquerda (mais que antipetista) que dominou aquelas eleições para Presidente da República.
Trata-se da mesma sociedade e estão presentes os mesmos partidos e grupamentos. Por certo, também está presente a mesma polarização, mas o núcleo de um de seus polos encontra-se contaminado com a visível incompetência que demonstra na condução do país.
A crise que andava em curso, agudizada a seguir pela pandemia da Covid 19, deixou escancarados os malefícios da estrutura social perversa. Vê-se que não se trata de falar só da criminosa distribuição da renda nacional, em que dez por cento dos mais ricos concentram quase inteiramente cinquenta por cento dela. Ficou revelado às escâncaras um contingente de desamparados cujos rostos e nomes aparecem em extensas filas de pessoas que necessitam receber minguada importância inferior a um salário mínimo para sobreviver (o ministro da fazenda em confissão de que não conhece a sociedade brasileira, ou faz exercício de cinismo, disse que a demanda pelo minguado auxílio mostrou um Brasil invisível!). Vê-se contingente de microempresários aos choros, de joelho diante de governantes, a pedir a reabertura de seus estabelecimentos. Em diversos lugares há o colapso ou quase colapso do serviço de saúde, em suas faces pública e privada. Pequenos negócios são inviabilizados.
Agora, o discurso econômico neoliberal sofre os golpes da realidade. Ou se atende parte da demanda social, ou é a revolta social desorganizada e a ampliação da atividade criminosa. Há não apenas choros abertos ou latentes, mas vontade imensa de contestar.
A direita extremada (nela o Presidente da República e seus ministros) sofre o golpe do descrédito. Não se evitou a prisão, inquérito e processo contra barulhentos apoiadores fascistas do Presidente da República e vão ficando claros, como se exposto numa tela panorâmica bem iluminada, os métodos com que as eleições foram ganhas: do disparo, por robôs, de Fake News, ao apoio de milicianos e abuso de poder econômico. Inviabilizada a transformação de um partido de aluguel (PSL) em partido nuclear da base de apoio parlamentar, círculos do poder não conseguiram formar seu partido (Aliança pelo Brasil), cujas demarches para obtenção de apoiadores foram marcadas pelo fracasso. Há fortes desconfiança, mesmo entre apoiadores do governo federal, na competência do ministro da fazenda e em seu plano (que plano mesmo?).
A direita, antes reunida, desune-se, às vezes com uso de discurso cheio de ódio, e moralismo como arma política, demonstrou esbarrar na revelação da imoralidade das Fake News (de que ela tanto se utilizou), no silêncio de seu líder diante da investigação de seus financiadores e dos crimes de parentes, e amigos do Presidente da República. Agora, mais um golpe: o afastamento do DEM e MDB do alinhamento automático ao Presidente da República e dificuldades para o Centrão.
É evidente que há forte resíduo do amplo discurso contra a esquerda institucionalizada (ou não institucionalizada), mas pode-se prever a ampliação de vozes dispostas a demonstrar quem realmente é o grupo de poder e quem são seus financiadores. Nesse sentido fica esgarçado o discurso contra partidos adversários. Fica esgarçado o discurso bolsonarista e de seus adeptos e abre-se a possibilidade de rearranjos dentro dos partidos oposicionistas (mesmo à revelia de dirigentes), envolvendo inclusive (em alguns Estados e Municípios) o PT, partido que saiu mais golpeado diante da avassaladora onda de denúncias e processos da Operação Lavajato e seus desdobramentos, inclusive a prisão de sua liderança maior.
Resta saber se ainda há a mesma desenvoltura dos partidos adversários do PT, pois esses mesmos já estão com seus problemas: o núcleo do Presidente da República acossado com inquérito no STF, ação no TSE, CPI das Fake News, inquéritos e ações contra amigos e familiares do chefe, pressão da imprensa, por exemplo, não tem jeito nenhum (como pensavam incautos eleitores) e aparência de pudicas noviças de convento ou intérpretes neopentecostais da Bíblia em defesa da moral, da família e dos bons costumes. O Chefe do grupo demonstra que não tem as credenciais que dizia ter. Mesmo falar mal de uma parte de congressistas fisiológicos (centrão) ficou difícil. Afinal, agora são sócios, ou condôminos.
Na cena que se vai desenhando, o PT, que não encontrou ainda o discursos-proposta para fazer oposição, está diante de adversários que, igualmente não têm discurso consistente ou que ora alteram suas falas atabalhoadamente, ora repisam o discurso para isolamento do PT da sociedade e de outros partidos. É como se estivessem tomados pela incerteza. Os partidos com experiência de poder têm seus principais líderes sub judice: Alkmin, Aécio e Serra no PSDB (partido já quase completamente ocupado pelo Governador Dórea, que o joga para a direita que pretende ser alternativa a Bolsonaro), e o MDB contenta-se com migalhas e também tem lideranças sub judice. (mais…)


A quarentena da coronavid


Desde março, quando a Covid-19 começou a infectar os primeiros brasileiros e entramos no período da quaresma, o jornalista Jeremias Macário, sua esposa, a professora Vandilza Gonçalves e o fotógrafo José Carlos D´Almeida começaram a produzir uma série de vídeos com textos poéticos, abordando diversos assuntos de ordem política, social e cultural sobre o próprio vírus e seus efeitos, a seca e a cultura popular nordestina e temas pessoais do nosso cotidiano.
O coronavírus serviu de abertura com o título “Quem é Este Coronavid?, uma fusão do corona com a Covid-19, que deu sequência a outros vídeos, sempre realizados aos domingos e enviados para os grupos do Sarau Cultural A Estrada, Amantes da Música, para os blogs da cidade, artistas, amigos em geral e parentes, como forma de amenizar e aproximar as pessoas nessa fase tão dura de confinamento e isolamento social.
Durante este tempo, de março até julho (em alguns domingos não foram possíveis realizar gravações) produzimos 14 vídeos no formato de declamação com questões diferenciadas. Como não dispomos de recursos humanos e equipamentos suficientes, todos os vídeos foram gravados através do celular, com D´Almeida na câmara, e as interpretações dos textos a cargo de Jeremias e Vandilza. Os cenários e figurinos sempre são improvisados de acordo com o tema, e cada um vai deixando a ideia voar.
Nos intervalos das produções, surgiu a ideia de transformamos os dez vídeos realizados (entre 40 a 50 minutos ao todo) na edição de um curta metragem de 20 minutos, mas faltava pequena verba para tanto. Foi aí que nasceu outra proposta de criarmos um grupo de colaboradores que chegou junto, e o projeto agora está sendo finalizado nos estúdios do nosso amigo Alex Baducha, numa produção em homenagem aos 10 anos do Sarau, completados neste ano e interrompido, temporariamente, por causa da pandemia.
Lembro Ainda Menino, Brasil Saco de Pancada, “Brasil, Nunca Mais”, Quaresma Quarentena, República Cabana Banana, Sequidão, Mente Brasileira, Ninguém Quer Aprender a Lição, Uma Nação em Correrias, Voa Mente Inteligente foram, entre outros, os títulos e os respectivos textos desenvolvidos e declamados pela nossa pequena equipe, com o intuito e o prazer de passarmos uma mensagem para os amigos e companheiros. Sabemos que não podemos agradar a todos, mesmo porque isso é impossível, mas estamos registrando nosso singelo trabalho nestes tempos tão difíceis.


VLT: a chegada do velho novo bonde em Conquista e a “VAN” clandestina


Artigo originalmente em 9 de abril de 2017

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Paulo Nunes é jornalista

 

 

Encravada no Alto Sertão da Bahia, Vitória da Conquista não foi agraciada com o bonde do passado, mas, obstante a isso, jamais perdeu o bonde do futuro. Nossa cidade tem hoje 310 mil habitantes, bem distribuídos no território parecido com uma bacia. Cidade erguida com ruas estreitas e carroçáveis, se vê, na modernidade, na obrigação de construir ruas cada vez mais largas para que o fluxo de veículos não sofra atraso e, consequentemente, a economia não seja prejudicada. Em meio a essa necessidade premente, surgem ideias, das mais complexas às mais simples. A administração atual tenta adequar os espaços públicos, ruas e avenidas ao fluxo de automóveis que cresce numa velocidade estonteante. A oposição, por utopia (ou ignorância mesmo), tenta também, a seu modo, trazer ideias que parecem modernas e aplicáveis, mas que estão longe do alcance das finanças públicas municipais.

A administração pública trabalha com orçamento, e esse instrumento é que determina a capacidade de investimento da Prefeitura, do estado ou do país para um ou quantos anos mais. Portanto, as ideias de melhorias sociais de uma nação podem surgir, mas jamais dissociadas do quanto de tributo deve ser arrecadado para as obras futuras, pois dinheiro do governo é o dinheiro arrecadado das pessoas através de seus tributos pagos e não dos tributos presumidamente lançados como débitos.

Na eleição de 2012, o candidato da oposição ao governo municipal apareceu com a ideia de, em seu governo (caso fosse eleito) implantar o sistema de VLT – Veículo Leve sobre Trilhos e, com isso, resolveria o problema do transporte coletivo em Conquista. Como não sabia o que falava, não conhecia o serviço e seus custos, foi dizimado pelo candidato oposto e, consequentemente, perdeu o debate e qualquer chance de eleição, pois não era interessante para o eleitor (que pagaria os custos da ideia), ter na Prefeitura alguém que falasse pela boca dos outros e, mesmo tendo a chance de estudar o problema, prefere de maneira contumaz, enaltecer as qualidades acadêmicas de quem lhe sopra aos ouvidos. Isso não é prudente ao príncipe. O empresário José Maria Caires escreveu um artigo, mostrando algumas vantagens do VLT, sem, contudo, analisar os custos operacionais, presentes e futuros, da obra. Enxerga o equipamento como necessário, mas não urgente.veja aqui
Apesar de ser um bonde, aposentado no passado, o VLT volta com força aos grandes centros sociais do mundo. Meu prezado Zé Maria, claro, como bom conquistense, não imagina que a verba de 1,4 bilhão correspondente a 1% do capital que o Ministro das Cidades pretende usar na mobilidade urbana. Muito bom o raciocínio, pois dá para sentir a pureza do sonho do ilustre empresário. Todavia, política é algo muito mais complexo do que se imagina. O Secretário de Comunicação da Prefeitura, em resposta ao artigo de José Maria, recheou a discussão, trazendo à baila os custos da importante obra e a inviabilidade momentânea, devido a quantidade de passageiros por linha e a capacidade de endividamento do município em relação aos custos da obra se realizada fosse – os custos estimados seriam em torno de R$ 60 milhões por km construído.veja aqui

Por outro lado, o nosso amigo e professor Ubirajara Brito, defensor da ideia do “bonde”, fez um artigo que se transformou em editorial do programa de Rádio “Resenha Geral”. Lamentavelmente, lá no programa, nenhuma discussão esclarecedora aconteceu; foi um editorial que elevava a capacidade técnica e intelectual do ilustre engenheiro e depreciava a capacidade de argumentação do Secretário de Comunicação, uma forma mesquinha de pré-conceito, onde se coloca um engenheiro escrevendo sobre trem de ferro como herói e um administrador como tolo; e isso não é algo politicamente correto. Enfim, o professor Ubirajara, em seu artigo, coloca os custos do “bonde” de Sobral (CE) no valor de R$ 71 milhões. É bem verdade que, no artigo, ele fala que metade da linha é preexistente, mas não foi colocado que a linha preexistente ligava o centro da cidade aos extremos leste e oeste da cidade; logo, a linha preexistente favorece, por demais, na diminuição dos custos, o que jamais seria o caso de Vitória da Conquista, uma cidade construída para cavalos e carroças até 1963 e melhorada para automóveis, notadamente a partir de 1977. O engenheiro finaliza o artigo estabelecendo uma comparação de custos do “bonde” ao Trem da Ferrovia Oeste-Leste, cujo custo fica em torno de R$ 5 milhões o Km construído. Todavia, é bom informar que os 1.527 quilômetros dessa ferrovia tem mais de 90% em leito natural, o que, por si só, já não se pode comparar com área urbana. Um viaduto na mata sempre será mais barato que um viaduto na área urbana; o custo da terra nua é infinitamente menor do que em terra onde exista edificação. Relativamente até que sim, mas em engenharia eu penso que absolutamente não.veja aqui
Já o professor Paulo Pires argumentou a questão dos custos como prioridade na administração pública e colocou a questão apontada pela oposição como uma argumentação política, jamais factível até para a oposição (se esta estivesse no poder).veja aqui.  Atualmente, a Prefeitura de Conquista trabalha com as situações factíveis e tenta, acertadamente, transferir os equipamentos públicos de grande aglomeração para fora do miolo central da cidade. O engenheiro e prefeito José Pedral e os governos sob sua liderança construíram avenidas “envolventes” no entorno da cidade, pois já havia previsão para a explosão da quantidade de automóveis. Guilherme Menezes já percebeu que, em 10 anos, a Avenida Luís Eduardo Magalhães já está sobrecarregada, e agora parte para a implantação da Avenida Perimetral, que vai desafogar, por outros 10 anos ou mais, o tráfego de veículos em Conquista. Não podemos deixar de citar o trabalho do deputado Coriolano Sales na implantação do Anel Rodoviário Jadiel Matos, que amenizou a agonia que era trafegar na hoje Avenida Integração. A cidade lembra bem como era. Em 25 anos, O Anel será a maior Avenida de Conquista, com os seus 33 quilômetros. Pedral deixou um estudo sobre as envolventes, onde se rasgaria nosso território de José Gonçalves a Iguá, de Bate Pé a Limeira e de São Sebastião a Estiva. É a grande Conquista crescendo!

No nosso entendimento, toda discussão política é válida, desde que seja travada com seriedade. Nesse particular, entendemos que, pelo que li sobre o assunto, é necessário que vagões transportem sete mil pessoas por hora, em cada linha, o que daria 112 mil pessoas por dia e por linha, para ser economicamente viável. Conquista tem uma média de 80 mil pessoas transportadas por dia em todas as linhas de ônibus. Necessário se faz também analisar que, mesmo com a implantação do “bonde”, os ônibus continuariam operando nas linhas interligadas. É necessária essa análise da linha do “bonde” para que não tratemos “alhos como bugalhos”. O VLT não faria ziguezague na área central da cidade, passaria onde fosse possível e a parte central continuaria atendida pelos ônibus. Entendemos, outrossim, que, numa cidade onde ainda temos pessoas que não possuem um sanitário adequado em suas casas, onde o esgotamento sanitário ainda não se completou, que o bolsa família (em alguns casos) ainda é a principal e regular fonte de renda, temos que fomentar algo que possa garantir renda e escola para essa população como prioridade nº 1.

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Pode o mundo chorar sua agonia


*Professor Ruy Medeiros

Ruy Medeiros

O Governo Bolsonaro chega quase ao fim sem ter sido. Desprovido de apoio e de quadros, vem se revelando o que é: mero discurso dia a dia no sentido de manter o grupo unido e de captar se há assonância para o fechamento político. A cada dia por outro viés, desmente tudo o que disse, sofre pressões e resolve ameaçar – chutar o pau da barraca. Não consegue apoio no Congresso.
O isolamento do capitão reformado é maior a cada minuto. A virulência do discurso fascista com que tenta agradar a direita não tem impedido que arrependidos venham a público externar o sentimento de profunda decepção com o governo.
A moralidade – que o capitão e seu entorno diziam defender – é a continuidade da fala de que apenas apaixonados cegos não captavam o sentido imoral: a defesa da tortura, a homofobia, o desprezo ao feminino, a relação estranha com pessoas integrantes das milícias. Nisso se resumia a “moralidade” estranha que muitos interpretaram como “bons costumes”, “defesa da família”, “exaltação de Deus”. E, sobretudo, a campanha eleitoral sordidamente alimentada por fake news. Havia a impressão poderosa de que muitos não se davam conta de que aquela campanha era exatamente o contrário da mínima moralidade. Aparecia para grande número de eleitores como instrumento da vingança contra adversários, a projeção externa de que os fins justificam os meios, como se realmente, do ponto de vista ético o justificassem.
Agora, novas pontas do iceberg se somam às descobertas de CPI e do Inquérito que investigam fake news e ameaças a ministros do STF e à prisão de exaltados apoiadores.
Sobretudo agora, a prisão do Sr. Fabrício Queiroz expõe outra ponta: vem acompanhada de ingredientes que o vinculam ao capitão presidente: encontrado em imóvel pertencente a advogado seu amigo e de familiares, escondido, e a revelação de que uma das assessoras de seu filho foi buscada em imóvel que ele, Bolsonaro, informou como seu em declaração perante o TSE.
As últimas reações do Presidente, ameaçadoras, não revelam força, mas sim desespero. Não há centrão que possa conduzir seu projeto. Está acabando o que não foi. Chorem as viúvas.
P.S. O título é um verso de Álvares de Azevedo (1831-1852), poeta romântico, do poema Ideias Íntimas.


O caos sem o aporte econômico


Jeremias Macário

Talvez eu seja o único jornalista e cidadão que há duas semanas vem alertando que as medidas de isolamento de ficar em casa para combater a pandemia tinham que vir acompanhadas de um imediato aporte econômico do Estado. Somente agora, com atraso, a grande mídia burguesa vem tocando no assunto, ainda de forma tímida subindo os morros.
O mandar ficar em casa é uma recomendação dos organismos de saúde, mas não pensaram nos milhões de brasileiros que vivem de uma renda mínima da informalidade, de comissões, do trabalho intermitente, autônomos, dos desempregados que fazem bicos e outras atividades para sobreviver e comprar o pão de cada dia, numa expressão mais simples e direta.
Não estou com isso sendo contrário ao isolamento, contanto que os governantes adicionassem seus caixas para sustentar as famílias pobres que vivem nas favelas e em seus barracos vivendo na linha de pobreza, muitos das quais em plena miséria, sem dinheiro para o álcool gel e até sem água nas torneiras.
Somente agora, o governo federal está apresentando um conjunto de medidas para amparar esses milhões de brasileiros, mas, como tudo no Brasil é burocrático e demorado, não se sabe a forma, quando e como esse socorro vai ser concretizado. Sem um urgente aporte econômico, o Brasil pode virar um território de caos social onde a fome pode falar mais alto que o vírus, e aí vamos ter mais vítimas.
Nesse bate boca político, científico e de economistas dando palpites, até agora só vemos falatórios demagógicos dos governantes, sem apresentar uma saída para atender o menos favorecidos. Nesse sistema capitalista selvagem e predador, numa catástrofe ou tragédia, os pobres são os mais atingidos. É lamentável dizer isso, mas só os fortes sobrevivem nessa selva de hipocrisias.
Nessa avalanche de informações, colocaram os idosos como se fossem únicos grupos de risco, quando, na verdade, todas as pessoas com doenças crônicas (diabetes, pressão alta, câncer, problemas coronários e outras), sejam jovens ou velhos, não estão imunes e podem perecer. Houve uma discriminação generalizada porque a maioria dos idosos entre 70 a 80 anos têm problemas de saúde e tomam remédios contínuos.
Essa mídia burguesa, que passou todo o tempo de costas para a pobreza, só faltou sugerir a criação de campos de concentração para os idosos. Nessa história existe muita hipocrisia e falsos heróis, criados por essa mídia. É verdade que os caminhoneiros estão nas estradas transportando alimentos e produtos para o abastecimento do mercado, mas não me venham com essa de que estão ali só com essa missão sublime de salvar vidas.
Eles são uma categoria que ainda têm a permissão de trabalhar, e estão também ganhando seu dinheiro para sustentar suas famílias e pagar as prestações de seus carros. Não existe essa de sacrifício pleno, sem benefício. E como ficam aqueles que nem estão podendo produzir alguma coisa para sobreviver?
Por último, a grande emissora Globo, que vem comandando os noticiários, com suas tendências de sempre, mostra um senhor esportista amador, como exemplo de ficar em casa, correndo tranquilamente em seu apartamento de classe média alta, confortavelmente bem tratado e alimentado, quando milhões vivem em barracos apertados, em becos estreitos e sujos, sem o mínimo de saneamento básico. Não se falou quanto esse senhor ganha por mês como aposentado e qual sua renda.
Eu também faço aqui meus exercícios diários em meu quintal apertado e ainda sou um privilegiado porque tenho um benefício merreca, mas muito longe daqueles que estão sofrendo, passando fome, privações e outras necessidades. No lugar deles, tenho que agradecer a minha situação, que não é boa financeiramente, mas vai dando para tocar a vida, sem a agonia e a miséria batendo todos os dias em minha porta.