Jeremias Macário é jornalista

“Dois pesos e duas medidas”. Assim pode ser considerada a greve dos policiais militares se comparada com os movimentos dos civis trabalhadores por melhores salários e reivindicações outras. Aliás, neste nosso país, se formos listar as contradições não existem espaços para enumerá-las.
Se o civil faz uma greve e obstrui uma rua ou avenida, é recebido pelas tropas da polícia militar na base da porrada e do cassetete, sem dó e sem compaixão. Já o militar pode, mesmo agredindo a Constituição, fechar ruas, praticar atos de vandalismo e invadir câmaras de vereadores e a Assembléia Legislativa do Estado, além de colocar como escudos humanos as crianças e mulheres, inclusive grávidas.
Se os civis tivessem invadido a Assembléia Legislativa já teriam sido imediatamente expulsos à força e na base da violência, com gás lacrimogêneo e na pancadaria. Somente depois, com sempre acontece, ia se falar em abertura de inquérito para apurar os excessos cometidos.
Como é greve da polícia militar, o governo não consegue nem cumprir mandados de prisão da justiça contra os cabeças da baderna. Não sou contra as manifestações de greve de nenhuma classe trabalhista. Sou totalmente contra a essa injustiça e a essa diferenciação de tratamento.
Desde os tempos coloniais, os civis sempre foram amordaçados, reprimidos e torturados em seus direitos, como ocorreu na última ditadura militar que espancou, matou e cometeu todos os tipos de atrocidades, em nome de uma “segurança nacional”. Cidadão civil de bem aqui é saco de pancada. Se reivindicar apanha na hora e ainda é considerado como criminoso que desobedeceu a lei.
Agora temos que nos submeter a esta humilhação e aturar um Estado impotente e incompetente que deveria ter como responsabilidade o dever e a obrigação de oferecer segurança ao cidadão. Para que serve essa tal força de segurança nacional se não consegue cumprir ordens de prisão, nem desocupar uma casa legislativa?
Outra grande e infame contradição que nos agride é que essa mesma greve, em 2001, foi apoiada pelo PT e PC do B, cujos partidos em coalizão “governam” hoje a Bahia. Estão sendo agora vítimas do próprio veneno que injetou na veia de governos passados. Em nome da coerência, esse governo que aí está deveria então apoiar a greve e atender as reivindicações. Agora não pode, como fez o governo passado.
O pior de tudo é que o próprio povo civil, que em greve é proibido fechar ruas e ocupar prédios públicos, é o mais atingido, correndo em pânico de um lado para o outro e se trancando em suas casas, como ocorreu nesta segunda-feira em Vitória da Conquista. Somos encurralados por todos os lados como no estouro do gado.
Até quando vão continuar nos fazendo de idiotas e nos tratando como massas de manobras que só servem para votar e depois são descartáveis? Aliás, somos tão descartáveis quantos as sacolas, copos plásticos e outros objetos de consumo que depois são jogados no lixo.
As autoridades e as classes dominantes do poder continuam mantendo seus seguranças contra a falta de segurança, enquanto o povo corre desesperado nas cidades, e ônibus são queimados. Será que vivemos mesmo numa democracia, ou numa ditadura burguesa onde os mais fracos são massacrados em seus direitos?
Essa tal “força nacional” de mais de três mil homens não conseguiu afastar o medo e restabelecer a ordem. Mas, se fossem civis em greve que tivessem feito isso, aí sim, o pau já tinha “comido” no lombo dos responsáveis pelos tumultos. Quem é o Estado? E para quem governa?
Existe alguma diferença ou semelhança entre os arrastões dos marginais, que fecham estabelecimentos comerciais e privam as pessoas de saírem às ruas, e a greve dos policiais militares? O civil vive acossado por todos os lados, sofrendo todos os tipos de pressão e ameaças, e ainda acha que vive num país maravilhoso, só porque consome umas bugigangas inúteis.
Nosso sistema está repleto de outras contradições e porcarias com as quais nos acomodamos a conviver e a engolir todos os dias. Afinal, já fazem parte de nossas vidas. A mídia não aprofunda a questão e se contenta com o sensacionalismo e a narrar o pânico e o medo. Nos acovardamos diante das agressões mais terríveis e nada fazemos para mudar.
O Big Brother Brasil Brega (BBBB), por exemplo, faz com que o povo esqueça das mazelas e cada um dá seu palpite como se fosse uma opinião de alta importância para a vida do país. Sair na imagem já é uma glória. Na Bahia acontece fraude nas eleições do Tribunal Regional Eleitoral que vai apurar as eleições municipais neste ano.
E tome contradições. No Grupo dos 20, o Brasil é o segundo país mais desigual de todos e o primeiro na América do Sul. Os EUA facilitam os vistos para entrada de brasileiros e chineses, de olho no dinheiro dos pobres. Como somos manipulados?
Nos países com sistema universal de assistência à saúde (França, Alemanha, Inglaterra, Itália), o gasto do Estado chega a 60% contra 40% do setor privado (tem país com até 80%). No Brasil os investimentos do governo representam 45% contra 55% do particular. Será que vamos esperar que os mortos se levantem de seus túmulos para defender e lutar pelos vivos?
Salvador virou literalmente um lixo, inclusive em termos culturais, mas todo mundo cai na folia e os energúmenos ainda dizem que é o maior carnaval do mundo. Além das estradas com cancelas, o PT agora (era contra) parte para a privatização dos aeroportos e ninguém levanta uma crítica. Oh, quanta contradição