ACADEMIA DO PAPO – No tempo das diligências: Abaíra
Para quem gosta de reviver momentos excitantes, deve se lembrar daqueles filmes de caubóis onde as diligências da Wells Fargo atravessavam as pradarias americanas para entregar correspondências e dinheiro a diversas cidades do velho oeste. As localidades mais famosas que me vem à mente confusa eram Dodge City, Tombstone e Kansas City. Os filmes começavam com cavalos relichando, vaqueiros gritando ôia, ôia e, claro, muita poeira. Mulheres lindas (as mocinhas) de vestidos compridos, chapéus na cabeça e ar angelical entravam nas famosas carroças com olhares prá lá de desconfiados.
As travessias eram perigosíssimas. Às vezes eram assaltadas por bandidos como Jesse James, irmãos Younger e James Frank entre outros ou então pelos apaches. Não sei se Cochise, Touro Sentado ou Gerônimo faziam parte dos que atacavam diligências. Esses três grandes líderes eram índios de grande reputação político-militar e acho que não se davam a esse tipo de trabalho. Touro Sentado, por exemplo, comandou quase quatro mil sioux e cheyennes numa batalha infernal contra o 7º Regimento da Cavalaria americana comandada pelo General Custer. Foi um pega prá capá dos diabos!
Convém dizer que no cinema vale tudo. Cinema é fábrica de ilusão. No caso dos filmes de Hollywood a ilusão era [e é] maior ainda. Ora, ora. Cinema é arte. Arte não tem compromisso com realidade. Só um bocó como eu, do interior do Brasil, totalmente ignorante em História, caia na esparrela de pensar que as tropas americanas dizimando as mexicanas para tomar os territórios astecas estavam certas. Santa ignorância. Os americanos sempre foram espertos e utilizaram muito bem a indústria cinematográfica para mostrar ao mundo que eram bonzinhos e que os maus eram os outros. Pior é que deu certo. Hoje é que não cola mais. Adorávamos ver aqueles galãs bonitões de 1,90 de altura matando os pobres dos índios e mexicanos (estes geralmente banguelas ou com bocas cheias de dentes de prata e ouro). A gente adorava ver o belo saindo vitorioso contra o feio. Isso é velho desde a antiguidade grega.
Vivíamos sob o pressuposto estético que “o bem” estava sempre associado “ao belo”. Aqueles mexicanos horrorosos tinham que morrer! E tome-lhe bala na caixa dos peitos! A cada queda de um índio ou de um mexicano a gente pulava nas cadeiras do Riviera, Madrigal, Glória, Ritz ou Eldorado. Era uma fuzarca dentro dos cinemas quando as fitas eram de caubóis.
Depois que o tema dos assaltos às diligências estava meio batido, os produtores americanos resolveram fazer uma investida em um novo tipo de estórias: Os assaltos a bancos ou a povoados. O enredo era mais ou menos assim. Um bandidão-chefe recrutava um grupo de facínoras e se deslocavam para cidades pequenas para praticar seus assaltos diante de populações indefesas. Eram grupos enormes. As cidadezinhas não resistiam e o que se assistia eram paredes e cofres das agências bancárias de J.P. Morgan indo pelos ares. Isso efetivamente ocorreu naquele Oeste americano nas década de 1850/90 a mais um pouco.
Mas as cidadezinhas, por intermédio dos seus mais atuantes cidadãos, resolveram tomar pé da situação e criaram suas patrulhas e Grupos de Defesa para enfrentar a bandidagem. Ladrão de cavalo, por exemplo, era enforcado na tora. Mal tinha direito a ouvir um trecho da Bíblia. Corda no pescoço e fim de papo.
Aquelas minúsculas localidades contratavam sujeitos destemidos e davam a eles o título de Xerife. Havia também os Rangers. Quando os Rangers chegavam a um lugar eram vistos e tidos como verdadeiros monumentos ao respeito, à moralidade e a paz. Alguns ficaram famosíssimos.
Estamos no século XXI e parece que os bandidos brasileiros aprenderam muito com os velhos filmes de caubói. O assalto de anteontem em Abaíra, pequena cidade do interior baiano, é uma prova disso. Eles chegaram lá dando tiros prá tudo que é lado. Todo mundo entrou em pânico. O pequeno destacamento policial foi incapaz de revidar a brutalidade dos delinqüentes em face do armamento que possuía. Verificou-se, entretanto que o modus operandi dos bandidos que assaltaram Abaíra foi semelhante ao praticado pelos bandidos do Velho Oeste. Cadê os nossos Xerifes? Cadê os nossos Rangers. Ou será que o problema da segurança é só uma questão policial? Ou será que historicamente retornamos aos tempos das Diligências? Não tem mais Riviera, não tem mais Madrigal, mas a luta continua entre o Bem e o Mal.
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