PEQUENAS : República, consciência e ética
Em boa hora o IBGE acaba de publicar dados econômico-sociais sobre o Brasil. Antes de discorrer brevemente sobre parte dessas informações, este autor repete o que disse há algumas semanas: O Brasil de hoje está melhor, moderadamente melhor, que o de ontem. Se alguém duvidar – e alguns até se aborrecem por esse tipo de assertiva – é fácil comprovar: Basta acessar todos os números do IBGE, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA e os da Fundação Getúlio Vargas entre outros, para se surpreender ainda que um tanto aflito sobre os dados atuais do País. O lado ruim da realidade trazida pelo IBGE é que ainda estamos mal colocados nos indicadores sociais.
Por que usamos o termo “aflito” no parágrafo anterior? Pelo fato de termos melhorado, mas não tanto quanto deveríamos. O vocábulo melhor se justifica quando comparamos nossos dados com os de outros países – inclusive alguns da América Latina. É desagradável, mas é verdade. Quando confrontamos a qualidade de nossa Educação com as do México, Chile, Uruguai e Argentina, confirma-se que estamos bem abaixo dos índices internacionais quando o tema é este. Isso provoca aflição? Provoca sim. Muita aflição. Mas não adianta ficar apenas aflito. Não temos tempo para chorar o leite derramado. Boa parte dos brasileiros, pelo menos aquela mais esclarecida, sabe como, quem e porque nos colocaram numa situação dessas. O Brasil, ou melhor, os governos brasileiros nunca tiveram muito zelo com o nosso Povo.
Construímos e organizamos um Estado irresponsavelmente injusto. Ontem no Programa Entre Aspas apresentado pela jornalista Mônica Waldvogel, Globo News, o tema abordado foi “O que o Brasil tem a comemorar com o regime republicano”. Participaram do Programa o historiador Marco Antônio Villa e o renomado jurista professor emérito da USP, Dalmo de Abreu Dallari. Ambos dispensam maiores apresentações.
Conforme as primeiras idéias colocadas pelo historiador Villa na tentativa de aguçar nossa compreensão sobre o que é uma República e, por extenso, especificamente a brasileira, ficou claro que desde o Manifesto Republicano de 1870, era possível prever que as elites paulistas (e as dos demais estados também) queriam tudo com a República, menos que ela fosse republicana no sentido lato do termo. Estamos falando de 1870. Aquelas elites nunca “foram sopa”. Eles nunca foram [ou atuaram] na cena política brasileira com visão séria para construção de uma grande Nação, um Estado equânime que promovesse para o Povo um tratamento republicano, pautado em igualdade de condições. Há cento e quarenta e um anos passados “os caras” já haviam se especializado em ações baseadas na “dolce vita” da tranquibérnia nacional.
Construimos uma Nação sem rumo e organizamos (?) nosso Povo com uma consciência mínima de cidadania. Norberto Bobbio disse: “Os fundamentos de uma boa república é a virtude dos seus cidadãos”. Perguntaríamos nós: Mas que virtude, que cidadãos? O País deixado por Juscelino Kubitscheck em 1960 possuía apenas (?) 60% de analfabetos. Eu falei 60% de analfabetos. Será que nossos governantes tiveram zelo pelo País, pelos seus cidadãos?
Doutor Dalmo Dallari, para minha alegria, disse que fosse ele o Ministro da Educação, faria constar dos Currículos do Ensino Fundamental uma disciplina denominada Introdução à Cidadania. Fiquei feliz porque há tempos defendo que nossos meninos e meninas precisam, ao lado da matemática, do português e outros conhecimentos básicos, serem conduzidos para o conhecimento introdutório e conceitos referentes a Estado, Constituição, Código Penal, Civil e outros componentes indispensáveis à formação da cidadania. Nossos alunos, mesmo os mais aplicados, concluem o segundo grau sem saber o que é uma Constituição, um Código Civil, um Código Penal e por aí a fora. Cabe perguntar: Esse jovem tem consciência de cidadania? O que é cidadania?
Para tentar responder, diríamos que o primeiro passo para adquiri-la se dá por intermédio da educação familiar, ou seja, o berço. O berço em seu mais amplo significado social. Mas considerando que o País tem 50 milhões de domicílios, cabe uma rápida pergunta: Desses domicílios quanto são capazes de prover os filhos de consciência para a cidadania? Os dados do IBGE informam sobre a composição dos novos núcleos familiares, os novos tipos de relações e os jovens dentro do contexto das relações monos-parentais. A sociedade moderna não se compõe apenas daquele modelo familiar tradicional (papai, mamãe e filinhos). Hoje a coisa está diferente. É homem com mulher; homem com homem, mulher com mulher, mulher com homem (a primeira sustentando a casa), domicílio sustentado pela avó porque o casal abandonou os filhos e por aí vai.
Será que todas as pessoas foram educadas para entender seu papel social? Resposta: Não! Parte de nossa sociedade não teve nem tem preparo sócio-educacional para o enfrentamento da vida. Ela é culpada ou vitima desse modelo de Estado? Doutor Dallari disse que é inacreditável, mas nosso Sistema Político criou uma contradição insólita e desprezível: O povo vota contra o povo. E explicou: Somos um povo que apesar do alerta e de todo o noticiário contido nas mídias, as pessoas continuam votando em candidatos desclassificados ético e moralmente. Isso é verdade. Como explicar que tal fulano, politicamente falando, um pilantra, é eleito em todos os pleitos que disputa pelo voto popular? Como explicar isso? Conclui doutor Dalmo: Para mudar essa realidade só uma enorme transformação de consciências nos redimirá politicamente de tantos erros. O historiador Marco Antônio Villa acredita que só por intermédio da ética e da moralidade pública será possível transformar nossa História. É isso aí. O Brasil reclama três valores: República, Consciência e Ética.
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