Heliana Frazão/Especial para o UOL Notícias/Em Salvador
Marcada pelos contrates, a Bahia apresenta situações antagônicas até no clima. Nesse período de inverno, enquanto parte dos municípios encontra-se em situação de emergência por causa da chuva, outra quantidade padece com os efeitos da longa estiagem.

No sudoeste do Estado, por exemplo, parte do Rio do Antonio secou, dando lugar a pedras e terra. É possível caminhar pelo leito do rio. Já na capital, Salvador (localizada no litoral) e áreas adjacentes, a situação é inversa: o índice pluviométrico mais que dobrou neste mês.
Saiba quais são os municípios em situação de emergência por causa da seca, de acordo com a Coordec:                                                      Belo Campo, Bom Jesus da Serra, Boquira, Botuporã, Brumado, Buritirama, Caatiba, Caculé, Caetanos, Campo Alegre de Lourdes, Candido Sales, Candiba, Canudos, Casa Nova, Caturama, Chorrochó, Encruzilhada, Guanambi, Itiúba, Jussiape, Livramento de Nossa Senhora, Maetinga, Manoel Vitorino, Maracás, Mirangaba, Muquém do São Francisco, Nordestina, Palmas de Monte Alto, Planalto, Poções, Rio do Antonio, Sebastião Laranjeiras, Senhor do Bonfim, Urandi, Mirante, Iaçu, Malhada de Pedra, Dom Macedo Costa, Presidente Jânio Quadros, Barrocas, Nova Itarana e Pindaí.

Conheça os municípios que já estão e que solicitaram o decreto de situação de emergência por causa das chuvas:

Alcobaça, Apuarema, Araci, Aramari, Cairu, Candeias, Catu, Cícero Dantas, Conceição da Feira, Dias Dávila, Entre Rios, Elísio Medrado, Feira de Santana, Gandu, Governador Mangabeira, Guaratinga, Ilhéus, Irará, Itagimirim, Itaju do Colônia, Itanhém, Itamaraju, Itapetinga, Iuiú, Jandaíra, Lauro de Freitas, Lençóis, Medeiros Neto, Mucuri (Erosão Marinha), Muniz Ferreira, Nazaré, Nova Viçosa, Pedrão, Piraí do Norte, Potiraguá, Prado, Riachão do Jacuípe, Ribeira do Pombal, Ruy Barbosa, Salvador, Santa Cruz da Vitória, Santanópolis, Santo Amaro, São Sebastião do Passe, Saubara, Simões Filho, Teodoro Sampaio, Teolândia, Vera Cruz, Wenceslau Guimarães.
O volume de precipitações na cidade, nesse período, é o maior dos últimos 39 anos, conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) da Bahia. As chuvas recentes provocaram estragos e mortes, em consequência de desabamentos. Somente em 1971 se verificou um volume de chuvas parecido. Enquanto o esperado para o mês eram 184,9 mm, já choveu 450,6 mm, até a última sexta-feira (23).

Segundo o superintendente da Coordenação de Defesa Civil do Estado da Bahia (Coordec), Antonio Rodrigues, essas diferenças climáticas no Estado são históricas. Ocorrem em razão de a Bahia ser um estado grande, com 266 municípios localizados na região do semiárido, que enfrentam uma condição climática diferente daquela verificada na Mata Atlântica, no litoral e recôncavo.

“É o que vemos agora: o norte está seco, enquanto o litoral enfrenta muita chuva. Este ano, porém, temos que admitir que o período chuvoso se estendeu no litoral”, diz Rodrigues.

Das 266 cidades situadas no semiárido, diz o superintendente, 160 enfrentam anualmente um período forte de estiagem. Algumas regiões passam mais de dez meses sem chuva. “É muito tempo para quem tem uma pequena capacidade de estoque de água. Por essa razão, essa população enfrenta grandes dificuldades de abastecimento para o consumo humano, animal, e até para a plantação, que geralmente é de subsistência”, explica.

Conforme o superintendente, são quase 3 milhões de pessoas submetidas a essa condição, um problema que ele considera mais grave que o gerado pela chuva.

Para Antonio Rodrigues, embora a chuva faça desabrigados e desalojados, geralmente são situações momentâneas. “Temos até dificuldade de quantificar esse público porque às vezes um contingente está desalojado, mas em seguida a chuva passa e aquelas pessoas retornam para as suas casas, ou vão para a residência de parentes, e passamos a verificar o problema em outra localidade, por isso esse público varia”, acrescenta.

No total, de acordo com números da Coordec, existem hoje 41 municípios em situação de emergência decretada devido à seca. Enquanto isso, 50 pedidos de decretos de situação de emergência devido à chuva, sendo que 42 já foram decretados pelo Estado.

Entre as cidades com problemas relacionados à estiagem, 23 ficam no sudoeste do Estado, onde cerca de 500 mil pessoas tem que conviver com a falta de água.

Uma das áreas mais afetadas é a zona rural de Brumado. São meses convivendo com água racionada, sem ter muito o que oferecer até mesmo para o gado que, magro, tem recorrido às palmas para não morrer de fome e sede. A palma é composta por 80% de água, e, por isso, se torna, muitas vezes, a única fonte de alimentação para o gado. Desde o final do século 19 ela é cultivada no semiárido e no sertão baianos.

É o que acontece no povoado do Jacaré. A seca castiga a localidade desde o início do ano. Em 2009, choveu lá mais de 900 mm. Neste ano, choveu bem menos, cerca de 300 mm, o que motivou a baixa do Rio do Antonio, que corta a região e atende com fornecimento de água as famílias ribeirinhas. Em áreas do rio onde ainda existe água, ela é de má qualidade, com cheiro forte e detritos. Ainda assim, é a única alternativa para quem vive nas imediações.

O Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentado de Brumado diz que está adotando medidas emergenciais para tentar suprir a ausência das precipitações com a contratação de carros-pipa.

Antonio Rodrigues, da Coordec, explica que, ao decretar situação de emergência, o município se credencia para receber um repasse de verba destinado à aquisição dos carros que transportam água para as regiões mais afetadas.

Para tentar melhorar esse quadro, informa Rodrigues, o governo estadual tem atuado com programas de construção, limpeza e ampliação de aguadas (cavas no chão que acumulam água da chuva), além de cisternas com capacidade para 16 mililitros (já são 50 mil famílias beneficiadas), 2 mil poços artesianos e o tradicional carro-pipa.