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ACADEMIA DO PAPO
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:Publicado em 22/09/2008, às 15:40

Por Paulo Pires*

Música de primeira

A TV Senado repetiu neste final de semana a Orquestra Filarmônica de Berlim com o Trio Marcus Roberts (piano) Roland Guerin (contrabaixo acústico) e Jason Marsalis (bateria). Como diz nosso amigo Bozó: Coisa de primeiro mundo. O último dos músicos citados, Jason, pelo sobrenome logo é identificado como alguém do clã Marsalis. É isso aí. O baterista é irmão de Wynton Marsalis, um dos grandes nomes do jazz contemporâneo. Mesmo quem não é lá muito chegado à música erudita, ao passar pelo canal que exibia o espetáculo (aquilo sim, deve ser chamado de espetáculo!) certamente ficou impressionado com o que viu. Todo o repertório com músicas de George Gershwin conseguiu dar aos componentes da Filarmônica uma expressão de satisfação intraduzível. Era visível a alegria dos respeitáveis músicos de Berlim tocando a grande música do americano Gershwin. Duas peças fundamentais desse gênio americano fizeram o deleite dos espectadores, telespectadores e músicos: Um americano em Paris (obra de entrada) e Rhapsody in Blue (a segunda) levaram todos ao delírio. Quando o trio de Marcus Roberts tocava e os músicos sinfônicos aguardavam suas entradas, via-se claramente que os artistas da Orquestra se deliciavam com o que ouviam do trio.

De minha parte, posso apenas dizer que é a terceira ou quarta vez que assisto ao espetáculo e, quantas vezes passar, não deixarei de assistir. Os caras não são apenas bons, são geniais. Quanto a Gershwin, sinto-me compensado pela visão de música que tenho.  É que esse magistral compositor depois de haver estudado fuga com Ravel, ficou convencido pelo francês que música, tanto faz popular, quanto erudita, só precisa de uma coisa: Ter qualidade. As ambições do americano em se tornar um compositor erudito, foram pro espaço. Ravel disse a ele que não se preocupasse com isso. O importante era a qualidade e isso ele possuía. Gershwin parece que ouviu o mestre do Bolero e deixou sua fixação de compositor erudito ir para o além.

            Cá prá nós:  é melhor ser um genial compositor popular que um erudito meia tigela. Então, caro amigo, não se deixe levar pela vaidade. Se o que você faz é bem feito, não se deixe levar por ambições tolas. Faça o seu trabalho e deixe a coisa correr. Seu lugar, seguramente, estará garantido nas efemérides. Todos hão de reconhecer sua genialidade. Falar nisso, se você soubesse o que os grandes maestros e músicos eruditos pensam sobre música popular ou música clássica, ficaria mais tranqüilo em relação a essa questão.

            Gershwin ao lado de Duke Ellington, Jerome Kern, Irving Berlin e Cole Porter formam aquilo que os críticos musicais chamam de As Pontas da Estrela Musical dos Estados Unidos. Esses compositores populares são tão geniais que as grandes orquestras filarmônicas e sinfônicas do planeta Terra nunca deixam de executar as suas obras. Há poucos dias a Sinfônica de Nova Iorque estava em Hanói, Coréia do Norte, tocando o repertório dessas feras, sob uma chuva de aplausos dos vietnamitas. A regência do espetáculo, claro, ficou a cargo de Lorin Maazel. A música, bem a música...  É preciso dizer? De altíssima qualidade. Apesar das sacanagens da política americana em relação àquele País, os vietnamitas esqueceram tudo e pelo menos naquele momento se deixaram tomar pela beleza da obra dos gênios americanos. Fantástico.

            Voltando ao programa da TV Senado, diria que foi um momento de transcendência. Torno a dizer que o que mais me impressionou foi a satisfação exibida pelos músicos europeus. Em alguns trechos a execução das peças ficava a cargo apenas do Trio. Os músicos da Filarmônica ficavam então como espectadores privilegiados. Era visível como eles estavam adorando a exibição dos negões.  O pianista Marcus Robert é um monstro no piano, como diria o Deusdeth Dias. A deficiência visual não diminui em nada a sua técnica.  As mãos do cabôco são do tamanho das orelhas dos elefantes adultos. Os dedos parecem varas de tirar coco. Se ele fosse urologista não tenho dúvida que o paciente tremeria na base só de ver o seu dedão.  Na última peça, eles brincam com a música. Roland Guerin dá um show de arpejo em seu contrabaixo acústico. Em determinado momento, o maestro Seiji Ozawa, que estava sentado, levanta-se e vai por trás do contrabaixista observar que técnica ele estava usando para sair do instrumento uma sonoridade tão bonita e sofisticada. A platéia vibrou. No finalzinho Jason Marsalis faz um contraponto com os outros dois músicos, que só vendo para crer. Como é que um baterista pode utilizar-se de tanto requinte para transformar seu instrumento, a bateria, em um instrumento de harmonia?  Show de bola! Há muito a televisão não exibia coisa tão cosmopolita. Espetáculo na Alemanha, música americana e maestro, Seiji Ozawa, oriental. Três continentes no mesmo palco. Foi uma salada de arte sofisticadíssima. O lugar parece o nosso Poço Escuro. Ah, se pudéssemos transformar o Poço em um anfiteatro para exibições como aquela!  Juro prá vocês que não vejo isso como algo complicado. Basta querer. O negócio já está lá, basta esculpir, como diria o maestro João Omar.  É isso aí. Bom início de semana e um cordial abraço. Até a próxima.

Paulo Pires (*) Professor UESB-FAINOR

 
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