Por Ezequiel Sena*
A corrida desenfreada pelo voto, além de causar desconfortos, muitas vezes ultrapassa os limites da ordem e da decência. Para vencer, o candidato difama, desqualifica, xinga, esbraveja, cria “ideologias” e um marketing para alimentar ainda mais a ilusão do povo. Faz de tudo para que as pessoas acreditem naquilo que ele diz sobre o seu opositor. Já o eleitor, talvez por pura ignorância, se deixa levar pela paixão envolvendo-se a tal ponto que em alguns momentos é capaz de provocar animosidade dentro da própria família somente porque algum parente não defende a mesma bandeira.
Diante desse raciocínio de crença e até de ingenuidade, ele briga com a mulher, intriga-se com o filho, desfaz do vizinho, fica indiferente com o pai, a mãe, os irmãos e os amigos. Faz apostas absurdas, perde tudo, fica sem dinheiro para fazer a própria feira. A conta de luz é cortada, assim como a água. E... por aí vai. Tudo na base da desavença por conta da danada política. Quando termina a eleição, reconhece que a realidade é outra, eles, os políticos, não estão nem aí. A retórica é sempre a mesma, e aqui em Conquista não é diferente das outras cidades. Um fato movido pela paixão e que se tornou engraçado, aconteceu em Pau Brasil, sul do estado, a 385 km de Salvador. Seu Agripino Almeida foi agredido por sua vizinha de prenome Celeste, somente porque estava assistindo ao comício do candidato do partido contrário. Muito nervosa, dona Celeste partiu pra cima do seu Agripino com um pedaço de madeira esbravejando – traidor, safado e os cambaus, se a turma da deixa disso não chegasse a tempo a desgraceira estava feita. Contando ninguém acredita, mas é a pura verdade.
.
No entanto, chega a ser intrigante o jogo de interesse do político. Basta alguma coisa não sair do seu agrado que se transforma em motivo suficiente para mudança de legenda. Ora é capitalista, ora é socialista, ora comunista, e etc.. Prevalece acima de tudo o egoísmo, deixando o bem estar da população no prejuízo. O que mais surpreende é quando ele abraça o seu “rival” ou se junta para fazer alianças na busca desesperada do poder, torna-se flexível e categórico nas palavras “isso é fruto da flexibilização, da maleabilidade, do fim do radicalismo, da verdadeira democracia.” Você acredita nisso? Eu também! Como diz o ditado “faz parte”.
.
Isso é bem definido pelo cientista político e escritor britânico, Easton David, em “O Declínio da Moderna Teoria Política.” – nada supera a influência coercitiva quando a resistência mina a ânsia do poder. – Nada mais, nada menos, como no passado aconteceu aqui: o senador ACM, inimigo ferrenho de Elquisson Soares, enquanto deputado, por sinal, se elegeu e reelegeu muito mais pelas brigas e desafetos de palanque do que mesmo por ideologia partidária. As farpas entre ambos, tempos atrás, era a tônica dos comícios e falácias na Praça Barão do Rio Branco (maior templo da história política de Conquista). Mais tarde fizeram aliança e no mesmo palco estavam sendo aplaudidos pelo eleitorado conquistense. Outro caso típico, certamente do mais famoso líder da oposição do interior da Bahia, José Pedral Sampaio, depois de muito tempo no anonimato, por ceifarem seus direitos políticos, é ovacionado aqui na mesma praça pelo então senador Antonio Carlos Magalhães – arquiinimigos políticos desde a época da ditadura militar. Como se nada tivesse acontecido. Por essas e outras, que aquele velho jargão não pode ser desprezado “eles se ofendem, mas.... depois se entendem!”
Já quando um cabo eleitoral, ou mesmo um pobre eleitor aperta a mão do seu adversário, lá vem os próprios parceiros a chamá-lo de “vira casaca, de falso, de incoerente, de traidor, até de mercenário.” Pensando bem, não é nada anormal políticos com ideologias diferentes se relacionarem, faz parte da civilidade, da educação e do processo democrático. Agora utilizar desse expediente para tirar proveito em benefício próprio ou por pura vaidade é simplesmente deplorável. |