Por Paulo Pires*
Dois poetas e eu
Hoje acordei com sensibilidade de poesia. Como sou um poeta de produção baixíssima - bissexto, na linguagem dos literatos - resolvi lançar mão de um poeta (mais admirado como cronista) e ocupar este espaço que deveria estar preenchido por uma crônica. Faço isso com tranqüilidade porque sei o que acontece quando confrontamos crônicas de um escritorzinho municipal (eu) com a poesia de um reconhecido escritor federal. Claro que a opção será sempre letra B. 0 escritor federal, no caso, é Antônio Maria. Ou, simplesmente Maria, como lhe chamavam os amigos (dentre esses, o mais querido, Vinícius de Moraes).
Fernando Pessoa, outro grande de nossa língua, disse que não existe nada mais ridículo do que cartas de amor. Tem toda razão o poeta. Todas as pessoas que já passaram pela experiência do amor ou da paixão (parece-me que muito poucas não saborearam essas experiências), sabem perfeitamente o que estamos dizendo. O amor é lindo! O amor é ridículo! O amor transforma! O amor muda as pessoas (e até os javalis!). Os animais quando entram em estágio de amor, mudam também. E por aí vamos....
As cartas de amor do primeiro ministro inglês Winston Churcill para a sua esposa são deliciosas. O grande estadista além de político excepcional era um ser humano dotado de um charme e um estilo inconfundíveis. Churcill chamava os filhos de cachorrinhos (imaginem como ele tratava a patroa!). Só lendo prá crer. Mas tudo se torna compreensivelmente delicioso porque feito e dito com amor. O amor é uma coisa sensacional. Creio que foi o filósofo Rousseau que justificou: “O amor purifica o excesso de nossas carícias”. Acho isso reconfortante: “O amor purifica o excesso de....”. Purifica mesmo!
Voltando às cartas de Fernando Pessoa não posso omitir dizer que a destinatária era a namorada Ophélia de Queiroz. O mais curioso é que essas cartas geralmente sofriam intromissão do seu famoso heterônimo Álvaro de Campos. Qual o problema? O problema residia no fato de Álvaro possuir uma característica àquela época pouco recomendável: homossexualidade. Por isso compreende-se a sua inquietação quando afirma: “cartas de amor são ridículas”. Quando Álvaro se intrometia, o fazia com desagrado porque o amor, no caso, era uma mulher. Ora, isso era insuportavelmente desagradável para quem estava no lado oposto.
O que nos surpreende nas cartas de Rosa são algumas descrições com, digamos, belos arroubos sensuais. Já ouvi por aí, que as mulheres de antigamente chegavam à velhice sem nunca serem beijadas pelos maridões. Acho isso lenda! Prá ser sincero, acho isso inverossímil. Não entra na minha cabeça que o sujeito fosse para o leito com a esposa, a amasse, sem tocar os seus nos lábios dela. Isso prá mim é impossível de aceitar. E o João Guimarães Rosa, pelo que relata, confirma o que digo. Claro que o autor de Grande Sertão também não é de tempos tão antigos. Mas a sua descrição de “momentos” ao lado da esposa é extremamente sensual. Além do que, devemos admitir, Rosa sabia das coisas.
Mas e você? Você escreve cartas de amor? Hoje não se escrevem mais cartas. Hoje mandamos e-mail, teclamos MSN, mas é tudo a mesma coisa. O amor continua. Claro que o ideal seria que todos se amassem mais. Infelizmente isso não é possível e o que muito se vê é violência. Você há de me contestar dizendo que a violência não tem como causa apenas o desamor. Sim, sim, você está certo. A violência é uma reação a muitas causas, ou seja, é conseqüência de um monte de injustiças e incompreensões. Então, o que fazer? É melhor amar.
Quanto a confissões amorosas arrebatadoras, o príncipe Charles da Inglaterra não deixou de ter uma bela participação. Num dos pronunciamentos que fêz para a namorada Camila Parker-Bowles disse para o mundo todo ouvir que gostaria de ser.... Bem, deixa prá lá. Desejo que vocês todos amem e não se sintam ridículos com declarações de amor. Ridículo é não amar. Na França dos anos 60, uma frase ficou famosa: Viva a diferença. Eu diria, do lado de cá: Viva o Amor. Até a próxima e um cordial abraço.
Paulo Pires (*) Professor UESB-FAINOR. |