Por Jeremias Macário*
Parafraseando o colunista Jânio Ferreira Soares, inspirado na música do nosso baiano “maluco beleza” Raul Seixas, eu deveria estar contente pelo Brasil ter ganhado três medalhas de ouro nas Olimpíadas de Pequim, mas confesso abestalhado que estou decepcionado. Não consigo ficar vibrando com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar, enquanto nosso esporte é elitizado, nossos deputados embolsam polpudas indenizações e predadores com suas garras ferozes rondam o nosso quintal.
Eu posso até ser um grande idiota, ridículo e limitado que só usa dez por cento da cabeça animal, mas aturar os berros ufanistas e escandalosos de Galvão Bueno, que quer me convencer de que somos uma potência Olímpica, e que algo diferente esteja acontecendo, é demais. Tem uma mosca na minha sopa que me faz embrulhar o estômago. Fosse na ditadura militar, Galvão Bueno seria promovido a general cinco estrelas.
A Globo mandou para a China um batalhão de repórteres e ex-atletas que só falaram abobrinhas e encheram a nossa paciência de otimismo. Quase R$700 milhões foram gastos para ficarmos atrás da Etiópia, Quênia e Jamaica. Não é querer menosprezar essas nações, mas comparadas como o potencial econômico do Brasil e o tamanho da nossa delegação, existe uma diferença muito grande.
Assim como o Raulzito, prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Dizia Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra, e é uma verdade. Já observou que quando a mídia endeusa um artista, intelectual, cientista ou um atleta “herói”, ninguém pode se arvorar a tecer críticas contrárias? Continuamos sendo patrulhados pela carneirada imbecil.
Pois é, se o cara tiver opinião diferente, pode ser linchado, ou considerado burro e alienado. Alguém aí pode discordar, nem que seja por um pouco, de Tom Jobim ou João Gilberto? O atraso de duas horas num show de João Gilberto serve como pretexto para aplausos. Qualquer besteira que esses ídolos intocáveis falem, soa como genialidade. Da Bossa Nova só se lê e escuta elogios rasgados. Que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado. E lá vai o nosso Raulzito “maluco” soltando seu verbo. As medalhas não são do Braaaaaaaaaaaaasil. São dos atletas elitizados, sem apoio do país.
As obras de transposição do rio São Francisco avançam, enquanto a revitalização está parada e ninguém sabe responder em Brasília o seu andamento e o órgão responsável. Na outra ponta maldita temos a gastança dos 513 deputados com as tais verbas indenizatórias. Só neste mandato já torraram R$121 milhões. Cada um pode gastar por mês até R$15 mil. Diz o diretor-executivo da Transparência Brasil, Cláudio Abramo, que a existência dessa verba é esdrúxula. Ademais, nesta época, nem estão trabalhando. Os deputados federais baianos Walter Pinheiro e ACM Neto estão no rol dos maiores gastadores. Pinheiro já gastou R$ 257.946 e o neto do ACM, outros R$$254.905. Entre os 81 senadores, as despesas já totalizaram (em cinco meses) R$5,5 milhões. A medalha de ouro nos gastos foi para o senador baiano João Durval.
A Assembléia Legislativa da Bahia só começou a liberar as cifras com as verbas indenizatórias dos 63 deputados há um mês, mesmo assim, não existe transparência total. Cada um tem direito ao mesmo valor (R$15 mil por mês) dado ao deputado federal. A Controladoria Geral da União anunciou que de 2001 a 2008, a corrupção desviou cerca de R$3,3 bilhões em verbas federais. Sabemos muito bem que não foi só isso. Mesmo assim, já imaginou esse dinheiro sendo investido nos esportes!
Mas é tudo muito vergonhoso nesse nosso Brasil varonil. Depois que o Supremo Tribunal Federal cortou o nepotismo nos três poderes, logo apareceram deputados querendo fazer um mimo para os ministros. Estão com proposta de inclusão de reajuste salarial para esse poder Todo Poderoso. Esses ministros já ganham R$24.500,00.
Voltando ao ouro de tolo, Érico Veríssimo dizia em sua coluna que ganham mais medalhas os países mais bem alimentados e ricos, que podem investir mais em esportes e preparação de atletas. No nosso, existe dinheiro, mas é tragado pela corrupção, pelos desvios e a má aplicação. Mas, não precisa lamentar, ganhamos de todos nas categorias choro em equipe.
Agora temos as olimpíadas das eleições e eu acho tudo isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa. Estão se matando por aí para se sentar numa cobiçada cadeira de prefeito. Nos grotões do nosso interior, ainda predomina o voto de cabresto, embora contestem os cientistas políticos de gabinetes de ar condicionado. O infanto-juvenil de 16 anos pode votar, mas não pode ser responsável pelos seus atos. Contrariando a Constituição, o analfabeto pode ser eleito, e o pior é se eleger com uma penca de processos na Justiça.
Não posso entender tanta gente acreditando na mentira o tempo todo. O que mais preocupa é o silêncio dos bons. É a Igreja invisível na qual o povo confia cegamente. A gente podia continuar falando um montão de coisas, mas, ainda sim, o maluco sou eu.
* Jeremias Macário é jornalista |