Por Paulo Pires*
Medalhas de Ouro
Aos que estão decepcionados com o desempenho dos nossos atletas nas Olimpíadas de Pequim, aviso logo: Estou achando nossos representantes maravilhosos. Prá não dizer ótimos. Se formos levar em conta que a maioria desses atletas são gente do povo e que o povo no Brasil só começou a ser incluído na história do País a partir da década de 30 do século passado, estamos indo muito bem. O Brasil é um país novo. Novíssimo. Repetindo: O povo brasileiro só começou a existir e a participar da construção do País a partir de Getúlio Vargas. Mesmo considerando que Dom Pedro II fez um reconhecido esforço para nos incluir na História, sua luta foi insuficiente. Os governantes e a elite burguesa brasileiros nunca pensaram no povo como entidade participante. O que existia era uma aliança repugnante entre governantes e coronéis, tornando a grande massa social uma entidade abstrata. Abstrata sob o ponto de vista das decisões econômico-político-sociais. Resumindo: O povo nunca participava dos centros de decisão.
Quando Getúlio começou a incluir o povo no centro de algumas decisões, logo surgiu o glossário político ideológico da burguesia para alcunhá-lo de populista. Populismo, êta palavra nojenta! Os políticos detestam, os críticos burgueses repetem-na e os apaniguados pelo Sistema (palavra fora de moda) adoram usá-la para depreciar a quem toma partido pelos menos afortunados.
Na Internet essa burguesia não se cansa de mandar mensagens para sacanear o Sr. Lula da Silva. Começam suas críticas sempre mencionando que o presidente é analfabeto. É uma tática de baixo nível. Aliás, a burguesia é e sempre será uma casta de baixo rendimento moral. E Cazuza, um poeta que emergiu dessa casta, ao observar com indignação e acuidade o meio de onde viera não titubeou e afirmou em uma entrevista que a burguesia fede. E fede mesmo. Depois, numa canção cheia de ácido e revolta, repetiu que as piscinas dos burgueses estavam cheias de ratos. Bem feito!
Cazuza sabia das coisas! Mas voltando aos nossos atletas, o que é que está acontecendo? Nada. Tudo normal. Aqueles que saíram da classe média alta e que tiveram apoio de suas famílias e de algumas empresas, se destacam e se sobressaem de maneira esperada. Os que não tiveram os privilégios de uma existência mais aquinhoada sofrem as conseqüências de um passado com deficiências alimentares, culturais etc. Qual é o problema? A meu ver nenhum. A coisa já está explicada.
A atleta brasileira que correu a Maratona chegou ao Ninho de Pássaro visivelmente em frangalhos. A moça perdeu a voz, o brilho dos olhos, a cor, o carmim dos lábios (se era que possuía algum), enfim, dava pena. Não sei nem como o nosso Comitê Olímpico permitiu que ela concorresse. Conforme a matéria feita pela TV Globo sobre ela, não faz muito tempo, a sua ocupação era no mato, com um facão na mão cortando e apanhando alimentos para sobreviver. A nossa atleta possui um biótipo que revela uma brasileira que mal acabara de sair dos grotões esquecidos pelo pode público. Sabe quais as chances de ela ter saído dali com uma medalha? Nenhuma. Ou melhor, só se Deus quisesse. Fora disso nem sonhar!
Portanto, Diego Hipólito, a irmã Daniela, Jade Barbosa (essa nem teve o prazer de conhecer bem a Mãe, falecida logo após o seu nascimento), Daiane dos Santos (maravilhosa), e tantos outros, são mais que merecedores de medalhas de ouro. Eles merecem medalhas para entrada no Céu. São medalhistas celestiais. Quando morrerem, na entrada do Céu, São Pedro dirá a eles: “Podem entrar meus filhos, vocês fizeram muito pelo Brasil!”. E eles, contentes, cantarão o Hino Nacional com lágrimas e risos. Meninos maravilhosos com bumbuns no chão e tudo, Deus há de recompensá-los!
Devemos nos lembrar, sobretudo, que há vinte anos só concorríamos em meia dúzia de modalidades. Hoje estamos presentes a um número enorme. Em compensação somos campeoníssimos em outras modalidades mundanas. Por exemplo: Sem Vergonhice a Curta e Longa Distância. Tiroteios e Assaltos em Meio da Rua. Golpes na Internet e Inadimplência no Comércio, só para citar algumas. Quem ganha de nós? Ninguém. Adoramos fazer política recheada de sacanagem. Quanto mais colocamos pilantragem na política para prejudicar um concorrente, mais nos sentimos vitoriosos. Temos um prazer sórdido de praticar visgaristagens. Tudo bem, dirá você, mas no resto do mundo também é assim. Certo, certo. Mas nós aperfeiçoamos os métodos. Por isso, aproveito para mandar para Marta da seleção de futebol feminino (dizem que se ela estivesse na masculina estaríamos bem melhor) uma saudação afetuosa, pois se trata de uma menina pobre vinda de um rincão distante do interior de Alagoas e, hoje, com todo merecimento, está sendo louvada, entre outras grandes publicações, pela poderosa Revista Time. Um abraço cordial para todos e até a próxima. Viva o Brasil!
Paulo Pires (*) Professor UESB-FAINOR. |