Por Paulo Pires*
Quando morre um grande: Dorival Caymmi
“Um bom lugar prá passear, Copacabana”. Eis aí um dos temas criados pelo grande Caymmi para homenagear o bairro onde morou boa parte de sua vida. O Brasil recebe com pesar a despedida do velho bardo. Ou rapsodo, como disse Assis Chateaubriand naqueles idos de 1938. Dorival, recém chegado ao Rio de Janeiro, estava no estúdio da Rádio Tupi fazendo um teste com Dermeval Costa Lino, quando o poderoso Assis Chateaubriand adentrou o ambiente. Dr. Assis, aos brados, como era do seu costume, procurava pelo Diretor artístico. Dermeval era o diretor e estava naquele momento ouvindo canções de um baiano que acabara de chegar.
Assis Chateaubriand, por uma coincidência dessas que descem do além, resolveu ouvir o baiano também. No meio da audição, o poderoso dono da Rede Associadas bradou com o diretor: “Seu Dermeval, contrate este homem! Este rapaz é um jogral, um rapsodo!”. Acertou em cheio! Chateaubriand percebeu que não estava diante de um cantor qualquer. Aquele moço, de voz poderosa e um violão totalmente escalafobético proporcionava algo diferente do que ocorria na Música Popular Brasileira de então. Dorival Caymmi era não apenas diferente. Era um inventor. Uma fonte, um originalíssimo criador que só o Mar poderia hospedar a sua imensa sensibilidade.
A partir daquele momento começou a correr mundo. Sua voz se espraiou pelos quatro cantos do planeta. Por onde passou encantou pessoas, multidões e em particular os grandes músicos. Sua música era um mistério. Não acadêmico, aplicava ao violão uma seqüência de acordes distorcidos (mal aprendidos) que fizeram de sua arte uma expressão absolutamente genial.
Ao chegar ao Rio de Janeiro, foi anunciado por algumas pessoas “que havia um baiano em Copacabana tocando um violão troncho, com uma voz espetacular”. A notícia se espalhou e Garoto (o primeiro grande violonista brasileiro de formação acadêmica) foi ver o “que é que o Baiano tinha”. Quando encontrou Dorival, ficou anônimo, à distância, observando a voz e o violão do artista. Depois que ouviu o bastante, se aproximou e perguntou-lhe: “Onde aprendestes a tocar este violão?”. Caymmi disse que foi na beira da praia e junto aos tocadores de violão no Cais de Salvador. Garotou pediu-lhe para repetir algumas canções. A partir daquele momento, tornaram-se amigos para sempre.
O violão de Caymmi é uma coisa estranha. Os acordes são distorcidos, enviesados, mal colocados. Todavia, externam uma tonalidade saborosa, deliciosa. Creio que foi justamente isso que encantou e atordoou a todos. Os grandes músicos americanos que o ouviram ficaram maravilhados. E olhe que a turma que ouviu era boa de serviço. Dizzy Gillespie, County Basie, Duke Ellignton, Louis Armstrong e Cannoball Aderlley, foram alguns, dentre muitos, que ficaram impressionados com a música do Baiano.
O artista Caymmi, além de figura humana extremamente dócil, era possuidor de um magnetismo surpreendente. A voz tonitruava paralela ao delicioso timbre do violão glissando. Os olhos cintilavam e as canções iam para a alma do ouvinte. Era fantástico o som Caymmi. Um timbre poderoso e autêntico que em raras exceções não era admirado.. Meu amigo Antônio Roberto, por exemplo, não gostava muito do jeito Caymmi de cantar. Era um dos poucos que conheço. O Tim Maia, quando estava cheio de canjimbrina, ligava de madrugada para o Baiano e perguntava: “Caymmi, você ainda é o meu patrono musical? Quero também que você me adote como filho, certo?”. Caymmi do outro lado da linha, respondia carinhosamente: “Certo”.
Uma das melhores apresentações de Caymmi foi na Rede de televisão CBS, programa Andy Williams, passado costa a costa nos Estados Unidos. Naquela noite memorável, 80 milhões de americanos puderam assistir o grande baiano cantando, dentre outras, uma canção que deixou todo mundo de boca aberta (inclusive o apresentador). Dizia a canção: “O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito!....”. Ontem ele morreu de frente para o Mar, em Copacabana. Morreu junto àquele que foi um grande companheiro e uma das suas maiores fontes de inspiração. É doce morrer no mar, nas águas frias do Mar. Um abraço para todos e até a próxima. A benção mestre Dorival Caymmi.
Paulo Pires (*) Professor UESB-FAINOR |