Por Paulo Pires*
Baleiro, Bebè e Carcará
Não faz muito tempo, Anderson Oliveira publicou no Blog (o de Anderson, claro) fotos de uma das figuras mais notáveis da Alameda Ramiro Santos. Trata-se de Carcará. O cidadão que poeticamente atende por esse nome é aquele que anda com uns penduricalhos (martelos, alicates, pés de ferro e outros bichos) gritando: “Olha a feijoada”. Nós, transeuntes menos avisados, quando ouvimos o grito de guerra, constatamos que a voz vem de um senhor de aproximadamente 60 anos. O seu brado ecoa há muito tempo. Nos idos de 1960, minha geração já o identificava: “Olha a feijoada!”. E sabia: Era Carcará!
É interessante como as pessoas definem suas profissões. Cada um de nós, à medida que vai tomando consciência da importância de uma atividade, identifica o que quer fazer, e assim vai levando a vida. Embora exista gente por aí que entra ano e sai ano sem ninguém saber o que ela faz. Mas isso é normal. Prá ser sincero, algumas pessoas que só me conhecem de vista acham também que não faço nada. Portanto, no julgamento delas sou um desocupado. Ah, como seria bom se fosse verdade!
Mas tudo bem. O que importa é a pessoa ter um trabalho. Nesse caso, Carcará encontrou o seu. Do mesmo modo o Baleiro também. Á partir de 1960, o Baleiro Zé comprou um tabuleiro (ou será que ele mesmo fêz?), encheu-o de chicletes Adams, caramelos Embaré, drops Halls, docinhos de leite, amendoins e jujubas. Nesses quarenta e tantos anos criou com dignidade sua família. De troco, tornou-se admirado e ganhou reconhecimento da sociedade. Merece um prêmio pela dedicação e perseverança.
O terceiro personagem é nosso amigo Bebé. Dos três, talvez este seja o mais antigo. Na Alameda sua voz é um verdadeiro pano de fundo para o burburinho do corredor. A sua sonoridade gritando “Olha o mata barata” ou “2 cabides por R$ 1,00” constitui-se numa espécie de notas musicais. Notas que funcionam como intervalos entre um carro de som e outro, passando pela Nove de Novembro e Barão do Rio Branco. É uma voz inconfundível. Acostumamos-nos a ela. Parece que a Alameda colocou na alma a voz do vendedor ambulante. Este é outro que merece prêmio.
E o Anderson, que tem faro para eventos e personagens históricos, retratou os três, levando-os para o Blog. Fêz muito bem. Agora com as novas tecnologias é possível não apenas fazer as fotos, como também realizar entrevistas deixando nossa sociedade com registros sobre o início do século XXI. Boa idéia!
Em relação às fotos antigas, posso dizer que têm provocado um clima de nostalgia sensacional. As pessoas que conheceram a cidade antigamente ficam enternecidas com as imagens. Todos desejam ver mais páginas com fotos. André Cairo tem um bom estoque e eu vou conversar com ele para fazermos uma crônica sobre a Confeitaria Araci (leia-se: Empresário e desportista Lourival Cairo).
Voltando aos três amigos diria que são exemplos de dignidade. São pessoas simples, porém comprometidas com os seus afazeres. Quase cinco décadas de trabalho, perseverança e compromisso com a sociedade. O Baleiro permanece com o mesmo interesse com os seus produtos, Bebé idem, Carcará nem se fala. Empolgam-se quando falam dos seus trabalhos. Sabem que fazem e vivem de forma limpa, que gostam da cidade e que ela há muito os aprovou.
De minha parte, todas as vezes que os encontro corro para cumprimentá-los. São cidadãos de primeira qualidade. Não têm rastros negativos por onde passam. Ao contrário, deixam sempre exemplos para as pessoas. Não ficaram ricos, mas consideram isso secundário. Examinando melhor a questão, creio que se consideram ricos. Pelo menos foi isso que senti, quando os ouvi. E acho que têm razão. A riqueza é uma avaliação que transcende acúmulos de patrimônio. Salve os ambulantes! Viva o Baleiro, Bebé e Carcará. Um abraço cordial e até a próxima.]
Paulo Pires (*) Professor UESB-FAINOR. |