Por Francisco Ailva*
Eu poderia ter intitulado esta minha crônica com o título da composição do imortal Sérgio Freitas Bittencourt, que tão prematuramente deixou órfão o jornalismo e a composição da musica popular brasileira: “Ta faltando ele”. O Sérgio Bittencourt quando compôs essa música e tão sabiamente a entregou ao também imortal Nelson Gonçalves para cantá-la, quis o filho que o era, prestar a sua homenagem ao seu amado pai Jacob Pick Bittencourt ou simplesmente Jacob do Bandolim, que também, prematuramente, aos 51 anos de idade, deixou o chorinho brasileiro a chorar para sempre. O seu famoso filho, que morreu aos 38 anos de idade (09/07/1979), que era hemofílico, deixou uma mensagem de saudade e de amor sublime que um filho pode ter pelo pai. A herança deixada pelo Jacob, não se resume só nas suas canções e chorinhos; tem também, o legado de seu filho, o Sérgio Bittencourt.
O dia dos pais que a cada ano se renova em nossos corações, aumenta mais ainda a possibilidade de podermos cantar a música do Sérgio. Pois, felizes ainda são aqueles, que podem contar com a insubstituível presença do seu amado pai. Naquela mesa, naquele sofá, naquele banco da praça, naquela roda de amigos, ainda, para muitos, se podem encontrar o seu pai querido; mas, quando você o procura naquela mesa, naquele sofá, naquele banco da praça e naquela roda de amigos e não o encontrar; resta-lhe procurá-lo dentro do seu coração, dentro das suas lembranças e, saber que um dia o seu filho amado também o procurará e também não o encontrará, senão, pelas suas ações de bom pai que foi para com os seus filhos. Sempre presente, nos bons e maus momentos de nossa vida.
O meu pai, o seu Francisco, não foi homem letrado, não conhecia as três primeiras letras do alfabeto. Falar com fluência, nem pensar, quando o fazia, somente com os seus amigos que entendiam a sua linguagem comum, amigos, que, como ele, padecia do mesmo mal do analfabetismo. Portanto, meu pai não era erudito. Os diálogos entre eu e meu pai não foram exatamente os diálogos que os filhos das décadas de 70 e 80 deveriam ter tido com os seus pais, talvez, mais pela sua diferença de idade – cinqüenta anos nos separavam - do que, pela sua incapacidade de falar dos mesmos assuntos e conhecimentos trazidos da escola para casa, assim como, do convívio com os colegas e amigos. Mas, de uma coisa eu estou certo: o seu silêncio a respeito dos mais diversos assuntos sinalizou o meu caminho, ser pobre na vida, para o meu pai foi uma contingência. Foi homem de posses, e de títulos honoríficos herdados do meu avô; cujos títulos, o Estado Novo de Getúlio se incumbiu de extinguir. O analfabetismo do meu pai, o seu jeito humilde de ser, a sua conformação com o estado de coisas que se abateu sobre a sua vida, e sobre os quais estavam sob a sua responsabilidade, me fez procurar ser um homem diferente do que foi o meu pai, entretanto, a sua honradez, a sua humildade, o seu caráter, a sua honestidade e a sua bondade, serviram para me formatar enquanto filho que fui, amigo, colega, esposo e pai que sou. O meu pai se foi quando eu ainda estava na fase final da minha adolescência, sei que, muito do que eu recriminava nele, era resultado da fase da “aborrecência”, entretanto, na sua sabedoria, ele jamais se levantou contra as minhas insolências; ele me entendia, eu não o entendia; ele se calava e eu me exaltava. Meu Deus, como pude ser tão insólito?! O seu Ludovico pai, teve no seu filho um parceiro ideal. O pai entendia o filho que, sabia entender o pai, melhor ainda: ambos se respeitavam. Ainda assim, o Paulo Ludovico Filho tem as suas “mea culpa”. Na verdade, o Paulo filho queria mesmo era ter sido irretocável no trato para com o seu pai. Pois, hoje, nós que somos pais, sabemos o quanto os nossos verdadeiros pais sofreram para nos fazerem sermos o hoje somos.
Para mim, todo dia é dia dos pais; pois, não há dia da minha existência em que eu não me lembre do meu amado e saudoso pai. A sua vida, ele não deixou de viver por falta das letras; mas, as notas musicais davam o tom da sua inteligência. Assim como o Sérgio Bittencourt, eu também, fecho os meus olhos e ainda vejo o meu pai sentado num canto da sala com a sua viola solando “Chico Mineiro”, “Festa do Divino”, “A Rainha do Paraná” entre tantas outras que fazia parte do seu próprio repertório. Mas, ele não só tinha intimidades com a viola, a sanfona de oito baixos era uma das suas companheiras nos seus momentos de íntima solidão; quando ele tocava a “Triste Partida” de Luiz Gonzaga, eu sabia que ele não queria ter platéia e muito menos ser interrompido; isso eu aprendi a respeitar! Pois, naquele momento meu pai falava com a autoridade de quem conhecia as letras da linguagem universal, eu não as conhecia como ainda não as conheço... Ao meu pai, aos pais cultos e eruditos, e aos incultos e não eruditos, UM FELIZ DIA DOS PAIS!
*Francisco Silva Filho – Curitiba-PR |