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ACADEMIA DO PAPO
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:Publicado em 06/08/2008, às 08:21

Por Paulo Pires*

Um restaurante chamado Bistrô

No final do século XX, reinava no mundo da gastronomia ocidental três franceses: Paul Bocuse, Gaston Lenotre e Pierre Troigros. Conforme os melhores guias de culinária do Ocidente, esses três cozinheiros enfileiravam o que havia de mais refinado no território das comidas. Os três foram responsáveis pelos melhores almoços, melhores jantares nos melhores salões do mundo. Eu que nunca tive o privilégio de participar desses festins, fico imaginando sobre a qualidade do que eles produziram. E agora, na atual conjuntura, só dá prá imaginar mesmo. É que com essa lei seca, implacável, evito sair de casa para não ser abatido por uma blitz do Departamento de Trânsito. Apesar de tudo, concordo que a lei é fundamental.

Só bebo em lugares perto de casa. E pelo visto, só mudarei de hábito quando a Polícia, por meio de uma lei mais impiedosa, multar quem andar chumbado pelas ruas do Bairro. Só está faltando essa! Mas o bom mesmo é que as pessoas estão se adequando à Nova Ordem. Eu já estou me acostumando com a Lei do Bico Seco. Há algum tempo passei a curtir minhas biritas, que não são poucas, próximo a casa onde moro. E adeus Bahia!

            Os donos de restaurantes que sentem o meu sumiço, se quiserem fazer um acordo comigo, estou topando. O acordo é o seguinte: Vou ao restaurante deles de táxi e na volta eles pagam um táxi para eu retornar. Evidente que isso só será consumado depois que eu fizer uma despesa compensadora em seus estabelecimentos. Quem me conhece sabe que tenho a incurável mania de sentar em um bar ou restaurante e só sair depois que o galo cantar pelo menos umas cinqüenta vezes. Só aí é que dou conta de ir embora. Adoro ficar em mesa de bar ou restaurante jogando conversa fora. Sou um razoável conversador.  Advirto, porém,  que sou razoável até não ficar prá lá de Marrakesh.  Depois disso, conforme ocorre com todas as pessoas que se excedem, perco o rumo e aí prefiro ouvir os meus convivas. 

            Por outro lado tenho uma grande vantagem sobre a maioria dos beberrões: Nunca falo alto. Não me exalto, não discuto política, nem falo da vida de ninguém (que esteja presente). Outra coisa também que não faço é usar celular em público. Prá falar a verdade, nunca saio com celular. Celular é coisa de pobre. Eu, Antônio Ermírio e Bill Gates não usamos celular em público (essa foi muito boa, ah, ah, ah!).  Esse aparelho é coisa para quem está cheio de pendências. Não é o nosso caso. Não devo nada a ninguém (também confesso que ninguém é louco de me vender fiado).  Quando saio de casa, verifico o bujão de gás prá ver se tá cheio, procuro ver como estão os mantimentos: o arroz, a farinha, o feijão, a manteiga e o pão. Depois que me asseguro disso, considero minha vida totalmente resolvida (como se vê, sou um sujeito realizado!).

            Até o ano passado, quando ia ao centro tomar umas biritas mais selecionadas, sempre dava preferência ao Restaurante Bistrô. Lá, encontramos um ambiente ótimo para os nossos padrões. Principalmente prá mim que sou sertanejo. Estar naquele espaço é quase fazer uma viagem para o outro lado do mundo. Muito bom. As pessoas são classudas, bem vestidas, elegantes na fala, nos gestos e no jeito de comer. Até o jeito de se cumprimentar é diferente daquilo que vimos em outros lugares. Não se vê aqueles espalhafatos dos botecos. As pessoas não dão porradas de suburbanos nas mãos das outras. É tudo muito aristocrático, civilizado. Gosto do que vejo.

            Ano passado quem esteve por lá foi o nosso tricampeão de automobilismo Nelson Piquet (pai do Nelsinho Piquet). Elogiou a comida e se disse muito satisfeito com a casa, com os garçons e com o dono da Casa, Paulo Baiano (filho de seu Neném Baiano). O proprietário morou um tempão na França e em boa hora colocou à disposição de sua cidade, nossa cidade, um restaurante de excelente nível gastronômico. Quem também esteve lá e não economizou elogios foi o nosso campeão Olímpico Gustavo Borges.

            Todas as vezes em que lá estive sempre fui bem atendido. Confesso não haver comido nenhuma vez, porque dei preferência às bebidas. Mas as pessoas que estavam comigo e comeram, adoraram! Isso me lembrou uma besteira que durante muito tempo esteve em voga em Ipanema. Um anarquista do famoso bairro carioca, classificado por Nelson Rodrigues como idiota necessário, afirmou que “Intelectual não come. Intelectual bebe”. Eu, mais idiota ainda, durante muito tempo incorporei essa idéia ao meu espírito. Pura bobagem. Comer é muito melhor. Vou ligar pro Bistrô e perguntar se eles podem me trazer de volta. Caso eles sinalizem positivamente vou lá, beber e comer tranqüilo. O ambiente é bom, a comida é boa, as pessoas são ótimas e o clima ajuda. Deus terá piedade de mim! Um abraço cordial e até a próxima.

Paulo Pires (*) Professor UESB-FAINOR.

 
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