Por Paulo Pires*
Como dizia Nei Ferreira
O ministro Ayres Brito do Superior Tribunal Eleitoral pediu ontem (31-07-2008), em rede nacional de televisão que os brasileiros ficassem atentos às eleições e não votassem em candidatos “que compram votos”. Em linguagem extremamente popular seu pronunciamento, creio eu, teve a clara intenção de atingir a todas as camadas da sociedade brasileira.
Penso que o brasileiro, individualmente falando, considerou a fala do ministro rigorosamente procedente. Alerto os leitores para dois aspectos: 1º) Não entendo nada de política; e 2º) Crônica, a princípio, não é espaço para a Política. Mas o tema é tão palpitante que não se pode passar ao largo dele. Então vamos lá.
À medida que o ministro falava, acompanhava o conteúdo e processava minhas inquietações. A primeira delas é: Por que nós (nós mesmos!) elegemos tanta gente sem vergonha? A culpa é do sem vergonha que se candidatou ou é nossa, também sem vergonha, que o elegemos? Confesso: não tenho ciência para identificar as causas dessa mixórdia.
Assunto complexo este. Mas não impossível de ser identificado. A política é uma ciência altamente intricada para idiotas, como eu. Não entendo, nunca entendi, nem vou entender o que se passa nesse belo campo da atividade humana. Existem muitas dúvidas quanto a sua classificação. Será a Política uma ciência? Ou uma arte? Os conceitos que são dados a ela, variam como se fosse um caleidoscópio. É linda a Política. Feias são as coisas praticadas por alguns que estão dentro dela. Interessante é o cenário político. Varia de segundo a segundo. As ideologias dão as bases de partida, mas são os interesses que estabelecem as articulações. É um campo tão sutil que qualquer descuido faz com que um bom candidato tenha a sua derrocada prenunciada. Cuidado!
As eleições municipais brasileiras estão dando uma mostra maravilhosa de quão misteriosa é a arte da política. Em São Paulo o excelente Governador Serra (do PSDB) não apóia seu companheiro de Partido (Geraldo Alckmin). Ao contrário. Está fazendo campanha aberta para um filiado do DEM, prefeito Gilberto Kassab. Em Belo Horizonte está uma confusão tão engraçada que o eleitor, se pudesse, votaria em todos os candidatos. Em Salvador a coisa não está diferente. O governador Wagner apóia João Henrique, apóia Walter Pinheiro e apóia Antônio Imbassahy. O presidente Lula, que esteve esta semana na cidade, falou para os três candidatos o mesmo que o Pára-quedas falou para o ingênuo Português: “Estou contigo e não abro”.
Entretanto, o mais curioso nestas eleições ocorre em Porto Alegre. Lá, concorrem à prefeitura os seguintes candidatos: José Fogaça (atual prefeito), Onyx Lorenzoni (DEM), Paulo Rogowski (PHS), Maria do Rosário (PT) e Luciana Genro (PSOL). Se você é um leitor medianamente atento, há de relacionar o nome da última candidata a alguém famoso na política nacional. Claro que esse alguém é Tasso Genro. Sim, senhor: Luciana Genro é filha do nosso Ministro da Justiça, Tasso Genro. E sabe o que está acontecendo? O Senhor Genro não apóia a filha. Apóia a candidata Maria do Rosário, do PT. Vejam o que é que a política faz com a gente. Eles dizem assim: Política é política, família à parte.
Fico aqui pensando em Nei Ferreira, um dos mais autênticos políticos conquistenses: Faz tempo que não o vejo.. Político com idéias originais, nosso Nei certamente deve ter elaborado um glossário de termos e verbetes maravilhosos para nos colocar no complexo interior do mundo político. Ouvi-lo seria bom porque não teríamos a hipocrisia sustentada pelo “politicamente correto”. Quando não concorda com coisas ao seu redor, sua opinião “vai logo na pleura do interlocutor”. Foi o primeiro político do mundo a fazer uma projeção assombrosa sobre a possibilidade de se eleger ou não. Fazendo suas contas eleitorais, disse ele: “Estou contando tantos votos nesta eleição, mas como eleitor é bicho descarado, vou reduzir isso em pelo menos a metade”. Nei sabia das coisas. Por isso, como disse o ministro Ayres Brito, muito cuidado na hora de votar. E não se esqueça do alerta de Nei: “Tome cuidado, porque tem muito candidato descarado por aí”. Um abraço cordial e até a próxima.
Paulo Pires (*) Professor UESB – FAINOR. |