Por Francisco Silva*
De repente, quando nos descobrimos vivendo em terras que não as que são das nossas raízes, parece-nos que ficamos mais ousados, estamos sempre dispostos a fazer novas incursões por outras terras, visitar novos povos, conhecer novas culturas, fazer novos amigos. Aliás, a empresa, na qual me dediquei vinte oito anos da minha vida, nos dá cabedal suficiente para que, novas amizades além do coleguismo sejam travadas. Em se tratando de amizades, se muitas eu não fiz, nenhuma inimizade eu contabilizei; entretanto, estando morando na capital paranaense, fica-nos mais fácil de vez em quando sairmos e fazer uma visita a algum antigo colega ou mesmo um dos amigos que nós fizemos naquela casa maravilhosa. Pensando dessa forma, passei a execução, resolvi que iria visitar o nosso colega e amigo que passou alguns anos em nossa companhia aí no CESEC de Vitória da Conquista, o Celso que foi o nosso chefe geral (o gerente), que mora em Chapecó-SC neste mês nos receberia em sua casa.
Saindo de Curitiba para o oeste catarinense, a estrada a ser usada é a Transbrasiliana (BR 153), é uma estrada muito irregular e igualmente perigosa, mas, com o devido cuidado, viaja-se sem nenhum atropelo. Uma cidade que faz divisa com o estado catarinense, União da Vitória, aliás, a cidade de União da Vitória assim como Juazeiro faz irmã siamesa com Petrolina, também à cidade de União da Vitória faz irmã siamesa com Porto União em Santa Catarina; foi nessa cidade de Porto União, que eu resolvi parar e reabastecer o carro. Depois de reabastecido, as crianças (meus filhos) resolveram que iam até a loja de conveniências para comprar aqueles lanches maravilhosos que só eles têm paladar para deglutir tal iguaria; aí pronto, a viagem começa a atrasar, a patroa resolve que vai à toalete, e nós que nos sentamos atrás do volante não gostamos de dar vazão a essas descontrações que só eles têm saco para tal, todavia, como se demorava muito eu resolvi ir até a loja de conveniência. Um cidadão se dirige a mim e faz um comentário: eu vi o seu carro, e a placa me parecia familiar, e agora o vejo, e sei que, mais que familiar àquela placa que tanto me chamou a atenção (JLD), você é uma pessoa que eu conheci lá em Vitória da Conquista.
Fui tomado de surpresa, aquele cidadão parado na minha frente me conhecia, e eu, fiquei atônito. O senhor me conhece de onde em Conquista? Amigo, me respondeu ele, eu sou o Jailson eu fui contratado lá no Banco do Brasil junto com você, não se lembra? Ah! Agora começo a me recordar, claro que me lembro. Bom, quem atrasava a viagem até então, eram as crianças e a patroa; agora amigos, precisavam ver a cara de impaciência deles enquanto eu conversava com o Jailson. Papo daqui, papo dali e, eu não pude recusar o convite para almoçar na casa do amigo. Daí, as carinhas dos meus passageiros começaram a mudar as feições, a patroa do Jailson achou que deveríamos pernoitar – aqui no sul o termo correto é “pousar” - lá na casa deles. Eu fiquei meio que não querendo, mas, acabei sendo voto vencido, afinal de contas eu havia quebrado naquele encontro um jejum da loira gelada iniciado no penúltimo dia de férias lá em Olivença (20/01), uma vez que, em Conquista eu fui impedido de tomar as cervejinhas em razão de um tratamento iniciado pelo doutor Ricardo Rizério e que se prolongou aqui em Curitiba; mesmo tendo terminado a tratamento, eu continuei abstêmio. Agora então, com esta nova lei, não é nem um pouco confiável se arriscar.
Convite aceito, acomodações arrumadas, o amigo Jailson Becker que é paranaense e que foi para Conquista ainda garoto na época áurea do café com os seus pais, experimentou muito da nossa hospitalidade conquistense, e um dia acabou por ser contratado no Banco do Brasil, assim como eu também fui, passamos naquela casa seis meses de contrato de trabalho temporário; ele saiu, eu fiquei, passei no concurso do banco. O meu inesperado anfitrião acabou por me revelar uma surpresa que quase me arrancou lágrimas: ele mantém em seu arquivo vários números dos BIP’s (Boletim Informativo Periódico) do Banco do Brasil, onde, entre as notícias do banco havia também um espaço dedicado aos escritos dos colegas de todo o país “História não Escrita”, e também, vários números de O PIQUETE. Para explicar esta sua coleção, ele tinha um parente dentro do Banco, que lhe encaminhava todos os números dos informativos citados. O que me tirou o sossego foram os PIQUETES (informativo do Sindicato dos Bancários de Conquista), que em muitas daquelas edições tinham as minhas crônicas, havia também as crônicas do Zé William e de outros colegas como o Armando Mônaco e por aí se vão. Confesso que eu já havia me esquecido o quanto eu já tinha escrito, e a qualidade da minha escrita; eu tinha, e não me lembrava disso, um estilo bem satírico e irreverente, via as coisas das maneiras mais engraçadas, e dessa forma eu colocava no papel. Um desses meus escritos, publicado no PIQUETE de 05/06/1996 edição de número 291 – ele me presenteou com este exemplar - trouxe uma dessas viagens extraídas do meu imaginário que eu intitulei de “O RABO E A HUMANIDADE”.
Fiquei muito feliz, pois, todos ali nas redondezas das suas amizades já conheciam os meus escritos, queriam saber se o Nemark, o Eduardinho, a colega contratada citada na crônica realmente existia. Esse escrito que envolve os colegas citados, eu nomeei de: “O Escândalo da Mandioquinha” - esta é uma referência que eu fiz ao propalado “escândalo da mandioca” acontecido em Floresta-PE no ano de 1978/79. Amigos, eu saí de casa para uma viagem até Chapecó que deveria durar três dias, no meio do caminho eu fiquei, o colega Celso e a dona Terezinha ficaram para outra oportunidade. O meu próximo escrito será o reescrito “O Rabo e a Humanidade”, ele, para quem já leu e se lembra, terá algumas sutis adaptações, mas, o espírito da sátira continuará o mesmo.
*Francisco Silva Filho – Curitiba-PR |