Por Luiz Gonzaga Bertelli*
Os 200 anos da criação do ensino superior no Brasil, talvez eclipsados pela chegada da Família Real portuguesa em 1808, não têm merecido a devida atenção. A efeméride é um ótimo motivo para um balanço sobre a qualidade da formação acadêmica em dois séculos de história. Essa foi a proposta do número 81 da revista Agitação, que é publicada pelo CIEE e distribuída nacionalmente, a cada dois meses. O resultado não é dos mais animadores, a começar pela constatação de quão tardia foi a instalação de uma faculdade na colônia portuguesa – nas espanholas havia universidades desde o século 16.
Além de driblar mais de dois séculos de atraso, a universidade brasileira precisou superar outro problema: o ensino excessivamente elitista. Somente na década de 90, com a multiplicação de instituições de ensino particulares é que camadas sociais antes excluídas passaram a ter acesso aos campi e direito ao diploma. Com um detalhe: isso ocorre quando o chamado “canudo” do ensino superior já não é mais garantia de emprego, embora continue sendo um item importante tanto no currículo dos futuros talentos, como na sua futura qualificação profissional.
Atenuado o problema da quantidade, a vilã agora é a baixa qualidade de ensino, que perpassa todos os níveis. No ranking das 200 melhores universidades do mundo, somente duas representam o Brasil: a Universidade de São Paulo (175ª posição) e a Universidade Estadual de Campinas (177ª), enquanto Estados Unidos e Grã-Bretanha juntos emplacam 84 citações. O diagnóstico para a triste situação da educação não é fácil de ser encarado, pois nem sempre a culpa é só do governo.
Em análise para a Agitação, o sociólogo José Pastore foi ao cerne da questão: “Há certo conluio entre alunos e professores em favor do mau ensino”. Os estudantes mostram-se interessados mais no diploma do que no conhecimento e, para piorar, “os professores apenas pretendem se manter no emprego”. Como melhorar a educação superior se as partes envolvidas estão satisfeitas com a mediocridade? Uma das saídas está indicada em pesquisa independente do instituto TNS InterScience, segundo a qual o estágio complementa efetiva e positivamente o aprendizado acadêmico e, de quebra, contribui para aprimorar o ambiente das salas de aula. Para 96% dos professores, um estudante estagiário se relaciona melhor com os mestres e os colegas de classe, além de se revelarem mais exigentes, trazendo para o curso as percepções constatadas no mundo do trabalho e cobrando ensinamentos mais profundos.
Embora esse impacto positivo seja inerente ao estágio, como atividade pedagógica, é evidente que os jovens e o próprio país teriam muitíssimo a ganhar se governo e sociedade, finalmente, decidissem colocar a educação no topo das prioridades nacionais e as escolas superiores se convencessem da necessidade de reduzir a distância entre suas grades curriculares e a realidade do mercado de trabalho.
(*) Luiz Gonzaga Bertelli é presidente executivo do Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE, da Academia Paulista de História – APH e diretor da Fiesp. |