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O ESPETÁCULO E O SONHO
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:Publicado em 14/07/2008, às 08:12

Por Jeremias Macário*

Prometi não mais falar e escrever sobre as mazelas da política brasileira, da justiça injusta, dos corruptos que fazem do Brasil uma “suruba” orgística, da burguesia que vive em seus castelos com enxaqueca do povo e da nossa nação que não sente mais as desgraças que caem sobre ela. Falar das dores, das angústias, das revoltas contra os absurdos e a falta de vergonha nesse país, é o mesmo que gritar por socorro no deserto.

Nossa gente não se levanta e não dá bolas para o que acontece. Não importa mais com a roubalheira. Acha tudo normal. Mas, foi aí que pintou mais um espetáculo na praça, com aplausos e direito a réplicas e tréplicas dos seus atores, autores e personagens.

   Com o espetáculo, lá se foi mais um sonho de moralização e do orgulho de ser brasileiro algum dia. Lá se foi mais um sonho do direito de ser respeitado. Lá se foram nossas ideologias perdidas nas enxurradas das mentiras daqueles que prometeram mudanças. Roubaram nossos sonhos; vilipendiaram nossos lares; e estupraram nossas mentes e sentimentos.

  A esta altura, quem me lê já deve estar sabendo do meu rasgo de revolta. Falo do prende e solta do banqueiro safado Daniel Dantas e sua corja. Talvez meu protesto esteja desatualizado ao final deste comentário por outro escândalo de maiores proporções. O roubo no Brasil está mais dinâmico que os inventos tecnológicos para atrair clientelas.

  Bem, voltemos ao caso de um prende, e o outro solta. O ministro do Supremo, Gilmar Mendes, conseguiu roubar a cena que seria do banqueiro, e ainda invocou a questão do direito democrático. Condenou a forma como foram feitas as prisões e ainda disse que a Polícia Federal fez um espetáculo.

 Que moral tem o ministro e nós brasileiros de invocar o direito para um grupo de ladrões de colarinho branco? As cadeias estão superlotadas de negros, pobres e ladrões de galinha. Quando um pobre é preso, algemado, e leva porrada em plena praça pública, mesmo sem culpa comprovada, ninguém do Judiciário invoca esse direito. Que democracia é essa? Essas afrontas da burguesia só acontecem com a gente brasileira que não tem sangue na veia para reagir.

   Nossos atos de protestos são vergonhosos, de gentes andando nas ruas, vestidas de banco, pacificamente, que não dizem nada. Chora e lamenta um ente perdido pela violência, e logo a cena se repete num tom monótono e cansativo. Pedem desculpas e nada acontece.

     Não vão clamar por justiça nas sedes das delegacias, nem nos palácios do Judiciário quando um corrupto é preso, como fizeram com os Nardoni no caso do assassinato da menina Isabela. Que hipocrisia! Que vergonha! Não confio mais na recuperação moral do Brasil. Somos ludibriados por números e estatísticas maquiadas. Fingimos e vivemos no faz de conta.

      Enquanto isso, os escândalos batem todos os dias em nossas portas, roubando nossos sonhos. Montes e mais montes de dinheiro são despejados nas mesas e invadem nossos lares através das imagens de TVs. Fazem parte do espetáculo, só que é uma afronta ao sonho do povo que vê tanto dinheiro derramado, na maioria das vezes visto por famílias famintas necessitadas.

    Mas, além das falcatruas do banqueiro e sua quadrilha, lá vem o Senado e nos empurra goela abaixo um trem da alegria com a contratação de mais de 90 cargos com salários de R$10 mil.

   Nem vamos citar aqui as outras tantas mazelas dos políticos e corruptos de plantão. O espaço é pequeno e as pessoas nem estão mais a fim de ouvir isso. Estão mais voltadas para o consumismo, para as farras de finais de semana, para as cachaçadas e o carnaval que se aproxima. As portas estão abertas. Senhores! Façam seus roubos e aproveitem a lavagem.

   No livro A Resistência, do argentino Ernesto Sábato, é feita uma pergunta: Como é que essa gente não tem vergonha? O autor se referia aos corruptos politiqueiros, ditadores, propagandistas(todas as propagandas são enganosas), os que ganham com a fome e com a guerra, enfim, todos aqueles que podem ser descritos como “lobos dos homens”.

      É, não existe mais vergonha. Hoje, os maiores safados passeiam no meio das pessoas com largos sorrisos e ainda proferem palestras que falam de ética e moral, como se nada tivesse acontecido. Eles são tratados como distintos senhores pela mídia e nos meios solenes. É assim no Brasil. Fosse no Japão ou outro país asiático, o corrupto  praticaria o suicídio. Aqui ninguém se incomoda. Ao contrário, tem-se orgulho. Já foi o tempo em que as pessoas cumpriam suas promessas, bastando apenas a palavra.

       No Brasil, as relações setor privado e publico são perigosas e recheiadas de propinas, conforme constatação de uma pesquisa sobre o tema. O empresário é tentado a dar uma propina para vencer sua licitação. Funcionários sem competência são nomeados pelos politiqueiros e aí fazem a festa. É forte a presença da corrupção no mundo dos negócios.

       Para completar minha lamúria, outra decepção nossa é a existência de sindicatos “chapa branca”, como a CUT atual e a Força Sindical. Ninguém nem está mais aí para o que vem ocorrendo. Não existem mais mobilizações para combater as reformas neoliberais e as sujeiras. O imposto sindical obrigatório, antes contestado, agora é recebido de braços abertos.  O combate sempre foi uma bandeira da CUT. São as mesmas relações perigosa ocorridas entre os sindicatos e o presidente Getúlio Vargas. Mas tudo isso tem explicação: a maioria dos dirigentes sindicais estão se refestelando em seus pomposos cargos no governo.

         Sem mobilização dos estudantes, operários, instituições, organizações classistas para exigir moralização, os espetáculos continuam e o sonho de dias melhores vão murchando. Até quando Catilina abusará da paciência desse povo sofrido e enganado com esmolas de Bolsas Famílias e outros programas assistencialistas?

* Jeremias Macário é jornalista

 
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