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NOTURNO DE VITÓRIA DA CONQUISTA
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:Publicado em 13/07/2008, às 10:15

À Vicente Quadros
Por Mozart Tanajura*


Vai-se avermelhando o poente  
E ainda bem a noite não desce,  
o nevoeiro cobre a serrania  
E na distância pontos indecisos
            vão sumindo.  
Agora, noite  
Miríades de lâmpadas acendem  
em meio a garoa que cai intermitente.
Vento fino feito navalha,  
dilapida as carnes e os edifícios.  
Luzes e raios que piscam na falda
            do Periperi.

Serão estrelas?  
— São faróis na BR-116, Rio-Bahia.  
Companheiro em trânsito,  
que vais descendo serra, vindo da Bahia,
ou subindo, vindo de Minas Gerais,  
vem ver a nossa cidade.  
Mas silêncio, ela vai nascer,  
ou a sua história.
                  
Manhã de 9 de novembro de 1840.  
Do sertão de Caetité está chegando  
Joaquim Venâncio de Almeida.  
Ele vem, da parte do rei,  
instalar a Imperial Vila da Vitória.  
João Dias de Miranda,  
último filho vivo do Coronel João
                Gonçalves da Costa,  
conta as sagas da conquista e fundação
                do arraial:  
— Meu pai, junto a mim, no combate decisivo,
quando os índios, rebelados, ameaçavam-nos
vencer, fez uma promessa à Virgem: — se
a vitória fôr nossa, ó Nossa Senhora da Vitória,
mando fazer uma igreja onde a vossa imagem
será louvada para sempre!

E naquele instante angustioso, como por  
milagre, os índios foram cedendo, cedendo,  
e a vitória ficou de nosso lado.

A capela e o povoado foram construídos.  
Agora, silêncio completo.  
Luiz Fernandes de Oliveira  
está assinando o Auto de Posse  
como primeiro presidente da Câmara.

Agora, a Vila está crescendo.  
Já tem barracão, casas de telhas e quitandas.  
Os senhores vereadores passeiam  
pelo terreiro da Imperial Vila da América 
Passam-se os anos como num romance.  
A cidade progride.  
Multiplicam-se as casas e as ruas  
que surgem batizadas pelo povo:  
Rua Grande, Boiada, Espinheiro,  
Muranga, Magassapo, Vargem, Sete Casas,  
Juazeiro, Misericórdia...  
Aparecem as avenidas e os bairros  
que crescem desordenadamente.  
De toda parte vem gente para ficar.  
gente, filho do Norte,  
gente, filho do Sul  
os nossos irmãos do Nordeste:  
alagoanos, sergipanos, paraibanos,  
pernambucanos...
retirantes que fogem à seca  
E os sertanejos da caatinga esturricada:  
toda esta gente morena e máscula
             que tem o Brasil!  
E vem também do estrangeiro,  
que o estrangeiro é boa praça:  
americanos, japoneses, italianos, sírios, gregos, libaneses...  
É Conquista que surge.  
Enamorado de suas belezas e da sua história,
canta o seu filho querido,  
poeta e cronista da cidade,  
Bruno Bacelar de Oliveira:  
“Grande, boa e hospitaleira,  
Conquista hospeda quem queira  
No seu solo trabalhar.  
A todos tem como filho  
E trata com afeto e brilho  
Ao que deseja lidar.  
É fria, quando na serra,  
cai a neve e cobre a terra,  
Algente véu de algodão,  
Assim de noiva vestida,  
A cidade preferida,  
Fala mais ao coração.  
Três sangues deram-lhe a sina:  
Africano o de Faustina,  
A nota de Mongoiós;  
De João Gonçalves, fremente,  
O português latente  
E caboclo o de seus avós”.  
Conquista agita, estremece, avança,  
nada a detém nesta dança  
do seu dinâmico destino.  
Nomes e numea, hoje,  
cantam a sua vitória:  
Terminal rodoviário, estádios de futebol,
hospitais, rádios que levam longe o sou
                       progresso;  
Rádio Clube de Conquista, líder e pioneira,
Rádio Regional, a dinâmica do ar, FM e  
Bandeirantes, praças arborizadas, canais  
de televisão, feiras cobertas, centro de  
Abastecimento, Mercado de Artesanato  
onde se vende de tudo: cestas , gamelas, toalhas
bordadas, bijouterias, bonecas de pano,
panelas de barro, peneiras de taquara, caçuás...
tudo feito pela mão de nossa gente,  
jornais, Centro Industrial, polo cafeeiro,
colégios, universidades, edifícios re-  
sidenciais, centro de comércio e lazer,  
energia elétrica, água tratada, conjuntos  
de habitação popular, Casa da Cultura, museus,
bibliotecas, arquivos, ateliês de artes plásticas,
transportes urbanos e rural.  
E suas belezas naturais quem saberá decrevê-las?
A Serra do Periperi, a Lagoa das Flores,  
a Serra da Tromba, visão edênica do poeta
Maneca Grosso, o mirante da Serra do Espinhaço,
o Poço Escuro com suas árvores nativas e  
águas cristalinas, a Cachoeira do Marçal,  
os pores-de-sol suaves, cor-de-rosa.  
lilazes, roxos sangrentos....  
E o que a não do homem criou  
no desejo do eternizar-se?  
As estátuas de Cajaiba, o Cristo de Mário Cravo,
a arquitetura da lª Igreja Batista, o Solar dos
Fonsecas, a pintura de Egberto Aragão e Romeu Ferreira,
os poemas de Camilo de Jesus Lima e Jesus Gomes  
dos Santos, a filosofia de Yolando Fonseca e a filologia
de José de Sá Nunes.  
As fazendas de nomes expressivos:  
Quatis, São Bernardo, Graciosa, Batalha,  
Borda da Mata, Recruta  
com seus rebanhos bovinos: nelore, holandês,  
gir, hereford, guzerá...  
Êh, boi!  
boi que uma dia Martin Afonso de Sousa  
trouxe para a sua capitania  
e se espalhou por esse Brasil gigante.  
Companheiro em trânsito,  
vem ver a nossa cidade  
em seu noturno envolvida.  
Vem , vem comigo.  
Uma noite...  
Caminhemos juntos.  
Silêncio, no ouves?  
São as rosas desabrochando  
nos jardins das residências.  
Todas as noites eu ouço elas desabrocharem  
metade cheia de pétalas,  
metade cheia de cal,  
grandes rosas noturnas  
que crescem e se avolumam  
pela grande noite da conquista.  
As vozes das tribos mortas  
estão ecoando nas quebradas.  
— Adeus, cabanas de índios.  
— Adeus,filhas das florestas  
que tecem flores mais lindas
que as orquídeas da campina.  
— Adeus, chefe Capivara  
Suas terras sero tomadas  
pela armas assassinas.  
 
— Não peguem nestas roupas envenenadas. 
— Não comam destas comidas triçoeiras.  
— Fechem as portas de suas cabanas  
— Escondam bem os seus arcos,  
olhem que vão cortar suas cordas.  
O coro das senzalas,  
envolto nas vozes dos grilos,  
vão se ensurdecendo nas últimas esquinas.  
— Foge, Leocádia, foge Eói, foge Joaquim,  
escravos do Coronel Felisberto Pereira de Oliveira.  
— Fogem negros mocambados.  
Lá vem Capitão-do-mato  
trazendo correntes, gargantilhas, açoites  
e uma tropa de 400 cartuchos  
para exterminá-los de vez.

Maurícia, linda mucama,  
matriculada na Intendência,  
está comprando a liberdade  
por 400 mil réis.  
Sorte igual no teve a pobre Inês...  
Deu tudo que tinha:  
suor, amor , economia.  
Empenhou jóias, ouro, prata,  
mudou de dono e senhor  
e não teve a sua alforria.  
Companheiro em trânsito,  
que nesse silêncio da noite,  
meus passos seguem em visita  
veja quem vem de longe  
nesta romaria esquisita:  
São cavaleiros embuçados  
que vão deslizando como sombras
pela grande noite da terra.  
São jagunços apressados  
que disparam pela Rua Grande
onde Meletes e Peduros  
digladiam sem cessar.  
Tibúcio foi baleado,  
Teotônio morreu,  
Neca Andrade não se sabe  
para onde foi  
Maneca Moreira correu  
e o juiz subiu a serra  
montado num boi.  
Êta Conquista de morte!  
Mal cessa a guerra dos Meletes,
Olimpinho, numa coorte,  
vem dar o troco do fogo  
acontecido em Verruga.  
Conquista, desprotegida,  
não sabe como fazer.  
— Reunam-se os homens de bem,  
— Toquem os sinos em debandada,
Olimpinho é de tremer.  
Dino salta na frente,  
a jagunçada o acompanha,  
põe o valente a correr.  
Vão-se os jagunços,  
ficam os letrados com seus jornais.  
Escrevem, discutem, brigam, iluminam  
porém as chamas se levantam  
no ar em espirrais.  
Há gritos, vaias, falação.  
— Queimaram O Avante,  
o órgao da revolução.  
Fala toda a imprensa  
do atentado sem perdão  
deste do Avante  
e de outros que virão.

O coro dos mortos se confunde  
com os ventos da madrugada:  
— Nesta terra da Conquista  
mata-se por dem-reis-coados  
e por-dê-cá – aquela-palha  
Mata-se no claro dia,  
no escuro das valas  
ou na noite enluarada.  
Mata-se por empreitada,  
por tal preço combinado,  
a domicílio ou no mato,  
a prestaço ou fiado.  
Mas a voz do poeta,  
que vem da celeste altura,  
abafa os rumores da noite:  
—“Conquista, tesouro imenso,  
o mais belo da Bahia.  
Tem mais brilho aqui o sol,  
tem mais amores em teus lares  
que luzes o arrebol”...  
Companheiro em trânsito,  
Adeus! podes seguir teu caminho.  
As rosas desabrocharam no silêncio da noite.  
O nascente tinge-se de ouro  
e a névoa deixa a serrania.  
Agora, dia.  
Conquista se veste de esperança  
para a festa da manhã
Já se ouve carros que roncam no asfalto,
ferros que malham nas oficinas,  
portas que rangem e abrem,  
caminhões que descarregam,  
ônibus que partem,  
came1ôs que apregoam  
carregadores que suam,  
bóias-frias que vão para os cafezais,
carroceiros que gritam apressados,  
estudantes que vão às aulas,  
gente que busca o trabalho:  
homens, mulheres, crianças.  

Do barburinho da rua,  
tecida no afã de cada dia,  
com ferro suor e argamassa,  
está surgindo a Grande Conquista.
 
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