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A LIXEIRA DO SÃO JOÃO
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:Publicado em 25/06/2008, às 07:58

Por Jeremias Macário*

Um festival de atrações de bandas e sons eletrônicos com músicas e letras que beira à raia da lixeira da prostituição, do estímulo ao sexo fácil, nojento e putrefato, está conseguindo acabar com a tradição do São João. Além dos ritmos do axé music, do rock, da lambada e do pagode com suas guitarras elétricas que nada têm a ver com o forró, o baião, o xote e o xaxado, as crianças de dois a dez anos aprendem a cantar o “Chupa que é de uva” e “senta que é de menta”, sem contar o “beber até cair”.

Como se não bastasse tanta porcaria junta, quase todo interior pegou a mania de criar o tal do “forró indoor” onde a pessoa paga a camisa para ter acesso ao show e lá dentro beber até cair como diz a famosa música “hit parade” deste ano das festas juninas. Em Miguel Calmon teve o “Só Cana” e em Piritiba, o ForróGoró. A festa junina, na verdade, virou um grande festival das prefeituras e da iniciativa privada.

Em Jacobina, a prefeitura não fez festa para investir na micareta de julho. Conquista mete um espaço que mais parece uma festa fechada, com direito a revistas.  São João é na praça, com apresentação das tradições e cenários juninos. O policiamento é para dar a devida segurança e manter a ordem, sem essa de constrangimentos.

Para o antropólogo Roberto Albergaria, a decadência pela qual passa o forró é um reflexo da perda do espírito de convivialidade da Bahia em todos os setores. Até a metade do século XX tínhamos uma comunidade rueira, amigueira e festeira, onde existia a cultura da vizinhança e a sociabilidade característica da festa de São João.

Também, o historiador Milton Moura vê esse declínio como uma conseqüência da pasteurização da essência da festa, que reside no seu ritmo principal, o forró. “De todas as bandas que se dizem do estilo, nenhuma fala mais de terra ou de nada específico da festa de são João”. O que houve foi uma invasão extraterrestre de cantores sertanejos(românticos), de pagodeiros, axés e até de DJs.

Mas, o músico Zelito Miranda diz o contrário, ao argumentar que, o que está havendo pela via do forró eletrônico e da mistura da festa com outros ritmos é uma reciclagem da tradição do São João, para evitar o seu desaparecimento.

Um verdadeiro absurdo, sem nexo. Nem toda mudança significa evolução, e é o contrário do que ele está dizendo. A mistura está sim, acabando com a tradição. Ele apenas visa o lucro como o capitalista que passa o trator numa floresta em nome do progresso. Ele denomina seu estilo como forró temperado. Não existe isso. E ainda diz que existe um exagero na valorização do tradicional.

Já o forrozeiro Dominguinhos contesta, e indignado alerta que é preciso tomar cuidado com a descaracterização. “O tal forró eletrônico não é forro. Não adianta, é uma enganação”. Para ele, está faltando um pouco mais de respeito para com a música regional de um modo geral, que seja uma música feita por um pessoal que se importe com a qualidade. As letras são coisas que não podem entrar na casa de ninguém, Segundo ainda Dominguinhos, letras como “Beber, Cair, Levantar”, do Saia Rodada, são  abomináveis, que apelam para o grosseiro.

Como reforça Roberto Albergaria, a festa virou um grande festival de atrações. O São João tomou forma de festival, de espetáculo para as massas. Alguns chegam a dizer que é isso que o povo gosta, mas como comprovar se o próprio povo já recebe o pacote fechado das prefeituras onde muitos prefeitos faturam alto. É isso que dão ao povo? É pegar ou largar.

Sobre o “Chupa que é uma uva”, cantado pela banda Aviões do Forró, e “Senta que é de menta”, do Cavaleiros do Forró, Dominguinhos declarou que é tudo muito apelativo e descartável. As letras são péssimas e falam muita bobagem. É tudo antimusical. Rodrigo Mell, um dos autores de “Chupa... relativiza as acusações e, tentando defender a merda dele solta uma pedra: “Minha filha de dois anos canta”. Qual o discernimento que tem uma criança de dois anos? Ela canta o que ouve, e o pior é que cresce nesse ritmo degradante.

Um dos autores do “Senta... Sandro Melo também tem uma cantora de dois anos em casa, que capricha no “tchaca, tchaca, vuco, vuco” vindas da imaginação paterna. Que exemplo, hem!. Pois é, estamos numa encruzilhada de feiticeiros, ilusionistas e fúteis que trocam o zabumba, a sanfona e o triângulo pelas guitarras e mulheres de calcinhas rebolando as pernas e a bunda no nosso sagrado São João. A Daniela Mercury se veste de caipira mini-saia decotada para enganar e fazer crer que com isso  é também uma forrozeira.

Pobre do nosso São João onde o quentão e as comidas típicas são raridades e escassas. Deveria ter um projeto-de-lei do legislativo, aprovado pelo executivo, visando restaurar a tradição do forro autêntico, o chamado pé-de-serra. As prefeituras não poderiam contratar bandas que não fossem do legítimo ritmo. Enquanto isso, a festa junina, uma tradição da colonização portuguesa, com raízes no mundo pagão, está morrendo.    

  * Jeremias Macário é jornalista
 
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