Por Paulo Pires*
Baba cachorrão
O Brasil está sofrendo uma das maiores crises institucionais de todos os tempos. É que a Mulher Melancia entrou na justiça contra Thammy Gretchen, reivindicando a autoria da música “Baba Cachorrão”. Vejam a que nível chegamos. Imaginem vocês, nosso judiciário, super bem pago pelo contribuinte, acionado pelas litigantes para discutir o direito de autoria dessa obra prima...
Não faz muito tempo os nossos jornais se ocupavam exclusivamente de polêmicas envolvendo gente como Rui Barbosa e Tobias Barreto, Sílvio Romero e José Veríssimo, José Guilherme Merquior e Marilena Chauí, todas destacadas figuras de nossa “intelligentzia”. Hoje, o debate está na órbita da Mulher Melancia e Thammy, filha de Gretchen (aquela de Conga, Conga, Conga). A filha da rainha do bumbum gosta de lambança. Toda semana se apresenta na televisão com direito a produção e baixaria deslavada, tudo pago por diretores de televisão de responsabilidade social altamente duvidosa. Mas o que se há de fazer?
Temos que conviver com isso. De minha parte posso dizer que fiquei meditando sobre o problema. Confesso que pela qualidade da música e beleza dos versos, minha intuição diz que a obra pertence à filha de Gretchen. A letra é fantástica. A música nem se fala. A obra é de tal modo bem composta que não tiro a razão de elas brigarem pela autoria. Trata-se de uma forma de expressão, cuja estética é absolutamente inédita, original, pulsante. E ainda tem uma vantagem: O conteúdo da obra aponta para novos rumos de nossa cultura. Tanto a música, quanto a letra.
A Rede TV apresentou três programas - TV Fama, Luciana Gimenez e Pânico - dando total cobertura à questão. A abordagem dos programas foi responsavelmente profissional. Foram colocados os pós e os contras. Advogados especialistas em direitos autorais se pronunciaram, fizeram defesas, desferiram ataques e deram pareceres. Contudo, as litigantes não chegaram a um acordo. Trata-se de uma desavença sofisticada, importantíssima. Digo mais: Se a coisa continuar nesse clima, é assunto para ser decidida em uma Corte internacional, tipo a de Haia (onde Rui Barbosa deu um showzinho particular).
Ultimamente, diante de inúmeras pendengas envolvendo direitos autorais, tenho dedicado parte do meu tempo apreciando as causas de tantas demandas. Engraçado é que essas brigas estão sempre relacionadas a autores geniais de nossa música, no caso a Thammy Gretchen e Mulher Melancia. Vivemos um momento ímpar. Nossa cultura está em crise. Precisamos com urgência dar uma solução para questões como essa. O Brasil não pode ficar indiferente ao problema.
A cultura é um dos componentes mais importantes de uma sociedade. Por isso, cumpre a todos nós, séria atenção para bom desfecho do problema. Imaginem até o fim do ano o País ficar privado de ouvir Baba Cachorrão. Vai ser um verdadeiro holocausto cultural. Não quero nem pensar nisso! Os tribunais precisam se apressar, precisam agir rápido. A sociedade reclama. Queremos que ações sejam interpostas para que a música seja imediatamente liberada. Precisamos gozar do seu ritmo, dos seus versos, enfim, de sua beleza. O que será de nós sem o Baba Cachorrão?
A Mulher Melancia diz que não quer mexer na questão agora, porque está inteiramente voltada para o seu trabalho fotográfico na revista Playboy. E nós, o que será de nós? Acho que a Senhora Melancia deveria ter um pouco mais de consideração com o seu fã clube. Estamos aqui, babando, esperando, nos espremendo, gritando, berrando, e, cadê a música? Precisamos de uma resposta urgente. É impossível para pessoas de bom gosto (como nós) não se afligirem com essa situação. Se alguém tiver acesso à filha de Gretchen (Thammy) ou a Mulher Melancia, diga às duas que briguem depois, mas, por favor, liberem a música. A obra é tão genial que agrada tanto a crianças e adolescentes quanto a velhos babões. É coisa de gênio. Estamos ansiosos. Mandem notícias urgentes sobre a liberação de Baba Cachorrão. Um abraço cordial e até a próxima.
Paulo Pires (*) Professor UESB-FAINOR. |