Por Jeremias Macário*
Mais uma Conferência do Governo Baiano, dessa vez na área da Comunicação Social para traçar políticas públicas, visando a formação da cidadania e o desenvolvimento local. Mas, pelo estilo de eqüidistância em relação ao centro de decisão do nosso povo, está mais para uma circunferência. Primeiro, a localização do evento, lá na Uesb(Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) já não foi uma escolha acertada para seus objetivos de democratização da comunicação. Não tenho nada contra a Uesb, mas em se tratando de comunicação social, a sua realização no centro da cidade daria um caráter de maior aproximação e integração com a comunidade.
Nos tempos de hoje, da era digital, virtual e da internet, os debates têm que sair do círculo acadêmico entre estudantes, professores e técnicos, para a esfera popular das lideranças e dos segmentos organizados da sociedade. Outro ponto é que a coordenação foi imposta de cima para baixo, isto é, sem representantes da comunidade. Para ser mais claro, o comando da organização do evento já veio pronta lá de Salvador, do governo. Apesar da televisão, do rádio e da internet, a comunicação ainda é um pacote fechado das elites, onde impera o monopólio e o latifúndio dos grandes grupos.
Por que essas conferências e debates não conseguem sair do seu casulo acadêmico e penetrar na essência do pensamento da periferia? Como falar em democratização da comunicação sem procurar saber o que pensa os cidadãos que vivem nas classes mais baixas? Precisamos saber deles o que é a comunicação, como deve ser feita a comunicação e o que eles querem receber, especialmente em se tratando de políticas públicas. Temos a mania de ficar divagando em elucubrações e teorias, decidindo pelo cidadão.
Um emaranhado de informações, muitas delas desencontradas e enganosas, é jogado para a população que fica confusa para definir o que é certo ou errado. Sem condições de depurar o que é mesmo verdade, o cidadão mais comum fica sem condições de se defender das armadilhas da comunicação. Daí ser necessária uma discussão com as comunidades dos bairros para que elas saibam interpretar as mensagens e comecem a exigir informações transparentes da parte de nossos governantes. A participação dos segmentos e das lideranças é uma maquiagem. Como é feito o processo de indicação de seus membros? Pelas comunidades?
A criação de conselhos comunitários de comunicação, com o acompanhamento do Ministério Público, seria o caminho mais confiável para a compreensão do problema, além de ser instrumento de reivindicação dos direitos de cada um por uma informação séria e de qualidade. Do jeito que estão sendo feitas essas conferências, as diretrizes para as políticas públicas de comunicação como fator de inclusão social estão vindo de cima para baixo. De lá de cima, numa linguagem acadêmica, se gasta tempo e dinheiro se discutindo regimentos internos, critérios, metodologias e outras baboseiras.
Os governos nunca deram importância para a mídia do interior que a chamam de imprensa “caipira”, e centralizam suas ações, espaços e informações na capital. Desconhecem a história do jornalismo do interior e o tratam com se fosse feito apenas por incompetentes e picaretas. Aliás, a impressão que se tem a partir das edições e da pouca literatura publicada, é que a história da imprensa da Bahia é só a da capital Salvador. A do interior não existe, não tem importância. Enquanto isso, por falta de apoio e incentivo, a memória do jornalismo do interior está se acabando com o tempo.
Falar em democratização da comunicação é ter acesso a ela e, acima de tudo, ser participante do processo. As concessões públicas aos meios eletrônicos, como aconteceram no ano passado, são renovadas pelo Congresso à revelia do público, sem nenhuma avaliação dos segmentos da sociedade. Boa parte das rádios está nas mãos dos políticos que manipulam a informação de acordo com seus interesses. Se querem mudar, comecem a fazer a moralização por cima.
Da forma como está sendo embrulhado o pacote, está se tentando impor uma política pública de comunicação, sem espaços para a crítica. Isso ficou evidente na constituição do regimento que criou o Grupo de Trabalho responsável pela Conferência de Comunicação. A direção da TV Pública, por exemplo, foi indicada pelo Presidente da República, mas as mentes ditas mais esclarecidas não fizeram nenhuma oposição ou crítica.
Será que estamos no caminho certo, ou apenas andando em círculos para confundir a opinião pública (se é que ela ainda existe)? O formato dessa conferência, tendo à frente os agentes do governo, os comunicólogos e os doutores da comunicação, tende a levar a discussão para o campo acadêmico, deixando de lado o pensamento dos cidadãos comuns das periferias. A Conferência tem que ser de baixo para cima, não a partir de uma linguagem embolada de difícil tradução.
* Jeremias Macário é jornalista |