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O BALONISTA
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:Publicado em 16/06/2008, às 08:17

Por Luciano Pires*

Ele nasceu numa pequena cidade, era inteligente e articulado. Um dia, já maduro, decidiu colocar em prática um sonho: subiria aos céus num tipo de balão e ao sabor dos ventos faria uma viagem inédita, como nunca antes havia sido feita. Muitos acharam que havia perigo, que a aeronave não era segura, que não havia condições de dirigibilidade e que as conseqüências podiam ser ruins. Mas ele tinha fé em sua competência para lidar com o imprevisto. Quando confrontado com argumentos contrários, respondia com a certeza dos obcecados. Algumas experiências prévias com balões deram-lhe ainda mais certeza de que seu sonho era viável. Levantou os recursos com gente que nele acreditou e construiu o balão conforme suas necessidades. Quando entrou na aeronave foi saudado por uma multidão que torcia por ele. E acenando entusiasmado subiu em direção ao céu. Para nunca mais ser visto. Muitas buscas foram feitas, sem sucesso. O balonista sonhador desapareceu com o vento...

Estou falando do padre Adelir Antônio de Carli que na manhã do dia 20 de abril de 2008 partiu de Paranaguá, no Paraná, a bordo de uma espécie de balão feito de centenas de balões de festa gigantes, não é? O padre desapareceu algumas horas depois sobre o oceano no litoral de Santa Catarina e ninguém mais soube dele. Esta história podia ser sobre o padre sim, mas é a de Salomon August Andrée, um engenheiro e aeronauta sueco que no dia 11 de julho de 1897, com dois companheiros, decolou de uma ilha no círculo polar para cruzar o Ártico num balão que batizou como “Águia”. Andrée desenvolveu um sistema rudimentar de dirigibilidade por meio de cordas que, tocando o solo, fariam com que o balão corrigisse a rota conforme necessário. Seu plano era frágil, repleto de falhas, mas quem o confrontou foi repelido pela teimosia do aventureiro.

O “Águia” voou até que, após dois dias e 475 quilômetros, vazamentos de hidrogênio provocaram um pouso em meio à desolação do gelo ártico. Mal equipados para caminhar no gelo e alimentando-se basicamente de ursos polares abatidos a tiros, os três exploradores chegaram quatro meses depois à ilha de Kvitoya onde morreram nas semanas seguintes. Seus corpos foram encontrados trinta e três anos depois.

Andrée e o padre Adelir eram loucos, irresponsáveis, megalomaníacos ou simplesmente teimosos? Talvez tenham sido presas de seu próprio sucesso. Tiveram um sonho, contaram para o mundo, conseguiram os recursos, a mídia deu-lhes destaque e eles não tiveram outra opção a não ser ir em frente. Admitir que pudessem estar errados não fazia parte de seus repertórios. Deu no que deu.
No entanto, não há como negar que ambos eram corajosos. E aqui cabe a pergunta: o que é coragem? É ausência de medo? Não. Ausência de medo é estupidez. Coragem é a capacidade de agir apesar do medo. Vem da segurança que temos quando sabemos do que estamos falando. As melhores e mais importantes  decisões de minha vida eu tomei com o estômago gelado. Essa sensação, misto de medo com ansiedade, indicava que eu estava no limite e que assim saía do “normal”, fazendo a diferença.
Usei o medo a meu favor.

Pois bem. No próximo dia 20 de Junho é minha vez. Embarco para a Rússia onde, a bordo de um quebra-gelos nuclear do exército russo, farei minha viagem para o Pólo Norte. Diferente do padre e de Andrée, cerquei-me de todas as garantias. Existem riscos? Sempre. Mas a vida me ensinou a diferenciar coragem de estupidez. Por isso, vou pro meu Pólo Norte. Com o estômago gelado. Que Delícia!
 
Volto dia 8 de julho com histórias pra contar.

Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista. Faça parte do Movimento pela Despocotização do Brasil, acesse www.lucianopires.com.br.

 
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