.
.
  Canais
Página inicial
Fale com Paulo Nunes
Perfil
Comentários: regras
Vitória da Conquista
 
  Colunistas
Jeremias Macário
Luciano Pires
Francisco Silva
Paulo Pires
Dimitri Laguna
Jarbas Lacerda
Mozart Tanajura
Ruy Medeiros
Paulo Araújo
Paulo Nunes
 
  Institucionais
Municípios da Bahia
Assembléia Legislativa
Câmara dos Deputados
Câmara de Conquista
Revista Envolverde
Última Instância
 
  Serviços
Bancos
Correios
Previdência Social
Lista Telefônica
Loterias
Previsão do Tempo
Receita Federal
 
  Tempo
Previsão do Tempo
Todas as cidade da Bahia
 
 
 
 
 
 
 
SINFONIA INACABADA
comente imprima
:Publicado em 19/05/2008, às 08:41

Por Jeremias Macário*

“Esqueçam Maio de 1968” – disse Daniel Cohn-Bendi, um dos líderes daquele movimento de Paris que espantou o mundo, tanto como outras manifestações iguais dos jovens, operários e intelectuais, espalhadas em redor do globo terrestres. Não dá para esquecer a vontade de espírito de renovar, mudar e revolucionar a sociedade conservadora e fechada em seus mitos daquela época. Pena, que como disse o escritor Zuanir Ventura, foi o ano que não terminou. Para complementar, diria que foi uma sinfonia inacabada, mas o sonho não acabou.

Não se pode falar de 68 sem se reportar ao começo de tudo que foi o final da década de 50 e início dos anos 60, com o movimento dos hippies cabeludos, das canções musicais da Bossa Nova e do Tropicalismo(Brasil), de Bob Dylan(EUA), dos Beatles, na Inglaterra, das ditaduras militares na América Latina, da Revolução Socialista Cubana(1959), da guerra do Vietnã, da pílula anticoncepcional e da liberação sexual.  Foi o desejo em pleno fulgor, e o calendário se abriu em chamas.

Tudo isso batido num liquidificador resultou nos movimentos de 68 em Paris(França), em Praga, (Tchecoslováquia), dos contras à guerra do Vietnã, nos Estados Unidos, da Revolução Cultural, na China, e manifestações por mudanças em outros países, inclusive no México, nas ex-colônias africanas e até  na Rússia Comunista, de forma mais tímida e abafada pela repressão. Não podemos deixar de citar o assassinato de Martin Luther King e o vôo pioneiro da Nave Apolo 7.

Naquele dia 12 de maio de 1968, há 40 anos, os estudantes saíram da Universidade de Nanterre(Paris) para dar um sonoro não à ordem declarada ao consumismo, à moral burguesa e aos bons costumes. Foi o dia da Paris em chamas. O estopim de tudo foi a proibição do acesso dos estudantes do sexo masculino aos dormitórios das jovens na residência universitária de Nanterre. Foi o choque contra os ranços conservadores, autoritários e patriarcais. Foi o choque contra as injustiças sociais.  Descontrair era a palavra de ordem, e o mundo nunca mais foi o mesmo.

A propagação do movimento às demais universidades, inclusive à Sorbone, foi rápida. Em um mês, os estudantes formaram trincheiras de guerra e das ruas arrancaram paralelepípedos. Operários e intelectuais entraram em choque com as polícias do governo Charles de Gaulle que foi obrigado a procurar abrigo numa base aérea.  Os protestos contra as medidas nas áreas da cultura e do ensino foram abafados, mas o ano marcou um divisor de águas; um corte na história contemporânea.

A música, a dança, as roupas e as referências visuais estampavam por toda parte em cores diferentes nos gritos de mudanças. O existencialista Jean Paule-Sartre se comoveu e apoiou. No embalo do descontentamento houve rupturas dos militantes comunistas que não mais aceitavam o mito da União Soviética. Foram denunciados os crimes do Stalinismo, deixando nua a ditadura do proletariado.

Na América Latina, os estudantes desnudavam o repúdio contra a acomodação dos partidos comunistas e dos segmentos sociais diante dos regimes militares apoiados pelos Estados Unidos. Como ensinava o companheiro Che Guevara, era preciso ousar lutar e ousar vencer. Nos EUA, os estudantes tomavam as ruas para protestar contra a guerra do Vietnã. Embora a invasão dos tanques russos em Praga(Tchecoslováquia) tenha sido em agosto, as reformas políticas tiveram início em maio. Foi uma Primavera sem flores. Na China, a Revolução Cultural esmagava as idéias capitalistas que tentavam imobilizar o Partido Comunista.

Os jovens queriam tudo já. As mulheres lutavam pela libertação da escravidão doméstica e do patriarcalismo burguês. Os eventos representavam um legado de lutas e conflitos. Foi o tempo de inquietação e angústia que denunciavam a falência do modelo educacional do Ocidente. Foi a era de Aquarius e do psicodelismo. Os movimentos radicalizavam na crítica ao capitalismo alienante, desumano, predador e repressor. A juventude insurgia contra uma vida insosa.

Maio de 68 foi a explosão do espetáculo. Foi uma Revolução cheia de bandeiras, de imaginação, de poesia, de rosas vermelhas e negras, que mudou a história do século XX. Foi a poética da ação, do gesto e da coletividade. As pichações e os slogans foram românticos e revolucionários, como é Proibido Proibir - A Imaginação no Poder, Sejam Realistas, Exijam o Impossível - Viver sem Horas Mortas -, Fruir sem Entraves - Sob o Asfalto, a Praia - Solidários e Não Solitários - Mesmo se Deus Existisse, Seria Preciso Suprimi-lo - A Liberdade é o Crime que Encerra Todos os Crimes - A Economia Está Enferma, Então é Bom que Morra Logo - Nossa Esperança Só pode Vir dos Sem-Esperança -  A Maior Parte não Morre Porque Já Está Morta - A Rua Vencerá - Sejam Sujos, mas Jamais Açucarados - A Desordem Sou Eu - Não Vamos Reivindicar Nada, Nem Pedir Nada - Tomaremos e Ocuparemos - Só Sossegaremos  Quando Enforcarmos o Último Burocrata com as Tripas do Último Capitalista - As Usinas aos Trabalhadores - Esqueçam de Tudo que Aprenderam, Comecem a Sonhar - Barricadas Fecham Ruas, mas Abrem Caminhos e Corre, Camarada, Que o Velho Mundo Está Atrás.   O ano de 68 foi um tsunami que balançou os pilares do conservadorismo autoritário.

No Brasil, a força dos festivais da canção popular com Chico Buarque, Caetano, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Radamés e outros, embalou o sonho da juventude que virou pesadelo com o AI-5 de dezembro de 68. Antes, em abril, a polícia mata o estudante Edson Luiz, no Rio, e acontece a passeata dos 100 mil. A canção “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” armou os movimentos em busca da liberdade, da libertação e pela justiça social. Foi o início da guerrilha no nosso país.  Na Bahia, José Carlos Capinam escreve Soy Loco por Ti, América e Miserere Nobis. Sobre o 68, ele mesmo afirma que queríamos mudar a sociedade e tínhamos uma visão irônica e irreverente que atingia a família, a religião e o status quo econômico e político.

O ao de 68 não foi uma derrubada da Bastilha como se propunha. Aliás, as bastilhas continuam nos aprisionando. Não houve guilhotina para os reis e rainhas. Os reacionários burgueses e os pensadores de elite não foram exterminados. Acabou a Guerra Fria, mas hoje temos a maldita Globalização. A paranóia de uma guerra nuclear de um mundo bipolar entre Estados Unidos e União Soviética foi substituída pelo terrorismo provocado pela dominação unipolar imperialista. O Vietnã foi substituído pelo Iraque e pelas ameaças dos EUA ao Irã. Israel continua encurralando os palestinos e sempre se faz de vítima como nação que só defende.

Conquistamos reformas sociais consideráveis nas relações entre homens e mulheres, no modelo familiar, na escola, na intimidade, no diálogo, na liberdade, mas continuamos numa encruzilhada de desafios. Os conflitos entre pais e filhos continuam a aumentar. Ainda existe muito por fazer numa sociedade que permanece injusta e vive sob a ditadura do consumismo e do desrespeito pelos políticos. Há muito que combater contra a homofobia, o tráfico de pessoas, a usurpação da ética e contra a violência. Apesar de todas as políticas voltadas para a igualdade, imperam a concentração de renda, a desesperança e a indiferença, nos enclausurando na cultura do medo e da solidão.

Quarenta anos após 68, e sessenta da Declaração Universal dos Direitos Humanos, razões não faltam para as lutas serem renovadas. A mídia insiste em fazer dos sofrimentos um espetáculo. A sociedade continua a ser seduzida pela crise de valores, cultivando o individualismo e fugindo de seus compromissos com as questões coletivas. A Amazônia está sendo desmatada pelos empresários, madeireiras e grileiros. Vivemos num Brasil das cotas, das bolsas e da enganação. Três quartos da riqueza estão com 10% da população. A desigualdade está pior que antes do golpe de 64. Os pobres pagam 44% mais impostos que os ricos. No lugar do lucro, o  progresso passa por cima da fome e deixa para trás um monte de ruínas e escombros. Precisamos recuperar o legado de esperança de 68. O que conseguimos conquistar é muito pouco. O sonho não acabou.

* Jeremias Macário é jornalista

 
.
  Apoios
 
.
.
.
.
.
.
.
Hoje Pesquisas
.
Hoje Pesquisas
.
Fainor
.
Águia Filmes
.
  Outros canais
Conquista Bairro a Bairro
Artigos
Entrevistas
Cidadania
Especiais
Imagens
Polícia
Artistas
Saúde
Meio Ambiente
Música
Esporte
Vídeos
Conheça sua cidade
 
  BlogTV
.
.