Por Jeremias Macário*
“Esqueçam Maio de 1968” – disse Daniel Cohn-Bendi, um dos líderes daquele movimento de Paris que espantou o mundo, tanto como outras manifestações iguais dos jovens, operários e intelectuais, espalhadas em redor do globo terrestres. Não dá para esquecer a vontade de espírito de renovar, mudar e revolucionar a sociedade conservadora e fechada em seus mitos daquela época. Pena, que como disse o escritor Zuanir Ventura, foi o ano que não terminou. Para complementar, diria que foi uma sinfonia inacabada, mas o sonho não acabou.
Não se pode falar de 68 sem se reportar ao começo de tudo que foi o final da década de 50 e início dos anos 60, com o movimento dos hippies cabeludos, das canções musicais da Bossa Nova e do Tropicalismo(Brasil), de Bob Dylan(EUA), dos Beatles, na Inglaterra, das ditaduras militares na América Latina, da Revolução Socialista Cubana(1959), da guerra do Vietnã, da pílula anticoncepcional e da liberação sexual. Foi o desejo em pleno fulgor, e o calendário se abriu em chamas.
Tudo isso batido num liquidificador resultou nos movimentos de 68 em Paris(França), em Praga, (Tchecoslováquia), dos contras à guerra do Vietnã, nos Estados Unidos, da Revolução Cultural, na China, e manifestações por mudanças em outros países, inclusive no México, nas ex-colônias africanas e até na Rússia Comunista, de forma mais tímida e abafada pela repressão. Não podemos deixar de citar o assassinato de Martin Luther King e o vôo pioneiro da Nave Apolo 7.
Naquele dia 12 de maio de 1968, há 40 anos, os estudantes saíram da Universidade de Nanterre(Paris) para dar um sonoro não à ordem declarada ao consumismo, à moral burguesa e aos bons costumes. Foi o dia da Paris em chamas. O estopim de tudo foi a proibição do acesso dos estudantes do sexo masculino aos dormitórios das jovens na residência universitária de Nanterre. Foi o choque contra os ranços conservadores, autoritários e patriarcais. Foi o choque contra as injustiças sociais. Descontrair era a palavra de ordem, e o mundo nunca mais foi o mesmo.
A propagação do movimento às demais universidades, inclusive à Sorbone, foi rápida. Em um mês, os estudantes formaram trincheiras de guerra e das ruas arrancaram paralelepípedos. Operários e intelectuais entraram em choque com as polícias do governo Charles de Gaulle que foi obrigado a procurar abrigo numa base aérea. Os protestos contra as medidas nas áreas da cultura e do ensino foram abafados, mas o ano marcou um divisor de águas; um corte na história contemporânea.
A música, a dança, as roupas e as referências visuais estampavam por toda parte em cores diferentes nos gritos de mudanças. O existencialista Jean Paule-Sartre se comoveu e apoiou. No embalo do descontentamento houve rupturas dos militantes comunistas que não mais aceitavam o mito da União Soviética. Foram denunciados os crimes do Stalinismo, deixando nua a ditadura do proletariado.
Na América Latina, os estudantes desnudavam o repúdio contra a acomodação dos partidos comunistas e dos segmentos sociais diante dos regimes militares apoiados pelos Estados Unidos. Como ensinava o companheiro Che Guevara, era preciso ousar lutar e ousar vencer. Nos EUA, os estudantes tomavam as ruas para protestar contra a guerra do Vietnã. Embora a invasão dos tanques russos em Praga(Tchecoslováquia) tenha sido em agosto, as reformas políticas tiveram início em maio. Foi uma Primavera sem flores. Na China, a Revolução Cultural esmagava as idéias capitalistas que tentavam imobilizar o Partido Comunista.
Os jovens queriam tudo já. As mulheres lutavam pela libertação da escravidão doméstica e do patriarcalismo burguês. Os eventos representavam um legado de lutas e conflitos. Foi o tempo de inquietação e angústia que denunciavam a falência do modelo educacional do Ocidente. Foi a era de Aquarius e do psicodelismo. Os movimentos radicalizavam na crítica ao capitalismo alienante, desumano, predador e repressor. A juventude insurgia contra uma vida insosa.
Maio de 68 foi a explosão do espetáculo. Foi uma Revolução cheia de bandeiras, de imaginação, de poesia, de rosas vermelhas e negras, que mudou a história do século XX. Foi a poética da ação, do gesto e da coletividade. As pichações e os slogans foram românticos e revolucionários, como é Proibido Proibir - A Imaginação no Poder, Sejam Realistas, Exijam o Impossível - Viver sem Horas Mortas -, Fruir sem Entraves - Sob o Asfalto, a Praia - Solidários e Não Solitários - Mesmo se Deus Existisse, Seria Preciso Suprimi-lo - A Liberdade é o Crime que Encerra Todos os Crimes - A Economia Está Enferma, Então é Bom que Morra Logo - Nossa Esperança Só pode Vir dos Sem-Esperança - A Maior Parte não Morre Porque Já Está Morta - A Rua Vencerá - Sejam Sujos, mas Jamais Açucarados - A Desordem Sou Eu - Não Vamos Reivindicar Nada, Nem Pedir Nada - Tomaremos e Ocuparemos - Só Sossegaremos Quando Enforcarmos o Último Burocrata com as Tripas do Último Capitalista - As Usinas aos Trabalhadores - Esqueçam de Tudo que Aprenderam, Comecem a Sonhar - Barricadas Fecham Ruas, mas Abrem Caminhos e Corre, Camarada, Que o Velho Mundo Está Atrás. O ano de 68 foi um tsunami que balançou os pilares do conservadorismo autoritário.
No Brasil, a força dos festivais da canção popular com Chico Buarque, Caetano, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Radamés e outros, embalou o sonho da juventude que virou pesadelo com o AI-5 de dezembro de 68. Antes, em abril, a polícia mata o estudante Edson Luiz, no Rio, e acontece a passeata dos 100 mil. A canção “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” armou os movimentos em busca da liberdade, da libertação e pela justiça social. Foi o início da guerrilha no nosso país. Na Bahia, José Carlos Capinam escreve Soy Loco por Ti, América e Miserere Nobis. Sobre o 68, ele mesmo afirma que queríamos mudar a sociedade e tínhamos uma visão irônica e irreverente que atingia a família, a religião e o status quo econômico e político.
O ao de 68 não foi uma derrubada da Bastilha como se propunha. Aliás, as bastilhas continuam nos aprisionando. Não houve guilhotina para os reis e rainhas. Os reacionários burgueses e os pensadores de elite não foram exterminados. Acabou a Guerra Fria, mas hoje temos a maldita Globalização. A paranóia de uma guerra nuclear de um mundo bipolar entre Estados Unidos e União Soviética foi substituída pelo terrorismo provocado pela dominação unipolar imperialista. O Vietnã foi substituído pelo Iraque e pelas ameaças dos EUA ao Irã. Israel continua encurralando os palestinos e sempre se faz de vítima como nação que só defende.
Conquistamos reformas sociais consideráveis nas relações entre homens e mulheres, no modelo familiar, na escola, na intimidade, no diálogo, na liberdade, mas continuamos numa encruzilhada de desafios. Os conflitos entre pais e filhos continuam a aumentar. Ainda existe muito por fazer numa sociedade que permanece injusta e vive sob a ditadura do consumismo e do desrespeito pelos políticos. Há muito que combater contra a homofobia, o tráfico de pessoas, a usurpação da ética e contra a violência. Apesar de todas as políticas voltadas para a igualdade, imperam a concentração de renda, a desesperança e a indiferença, nos enclausurando na cultura do medo e da solidão.
Quarenta anos após 68, e sessenta da Declaração Universal dos Direitos Humanos, razões não faltam para as lutas serem renovadas. A mídia insiste em fazer dos sofrimentos um espetáculo. A sociedade continua a ser seduzida pela crise de valores, cultivando o individualismo e fugindo de seus compromissos com as questões coletivas. A Amazônia está sendo desmatada pelos empresários, madeireiras e grileiros. Vivemos num Brasil das cotas, das bolsas e da enganação. Três quartos da riqueza estão com 10% da população. A desigualdade está pior que antes do golpe de 64. Os pobres pagam 44% mais impostos que os ricos. No lugar do lucro, o progresso passa por cima da fome e deixa para trás um monte de ruínas e escombros. Precisamos recuperar o legado de esperança de 68. O que conseguimos conquistar é muito pouco. O sonho não acabou.
* Jeremias Macário é jornalista |