Por Jeremias Macário*
O romancista José de Alencar que poeticamente descreveu a beleza, a pureza e o vigor das nações indígenas em seus livros, se vivo fosse, teria que pintar um quadro diferente. Talvez tivesse que narrar que nos tempos de hoje o índio não dança mais o Toré, nem pratica seus rituais ancestrais oferecidos aos seus deuses como há 150 anos quando foi escrito o Guarani, do herói Peri. Com as novelas, o computador, os programas de domingo do Faustão, do Silvio Santos e os espetáculos dos noticiários nas tvs, não sobra mais tempo para a dança.
Conquistado, escravizado e explorado pelos brancos ao longo dos últimos cinco séculos, o índio não quer mais apito, nem tampouco caçar e pescar nas florestas. Se os irmãos Villasboas partissem hoje para a Amazônia, teriam que levar como presentes as últimas tecnologias de celulares, televisores e computadores, de preferência leptoops. O Peri, herói forte, perfeito e exemplo de virtudes, descrito por José de Alencar, foi contaminado pelos truques da civilização branca que desfigurou sua cultura e profanou seus bens materiais e imateriais.
O mito de um novo homem nascido da união entre o branco e o índio como no livro de Iracema, ficou na ficção do romancista. Não existem mais motivos para o Peri salvar sua Ceci e cumprir o acordo feito com o fidalgo português. O branco foi passando por cima e dizimando as tribos, impondo suas culturas. As que restaram, perderam suas identidades com a evolução de um progresso destruidor, chamado capitalismo selvagem. Lembram do índio Galdino(nome de branco)que foi queimado numa calçada de Brasília por rapazes burgueses, sem formação? Pois é, ninguém importa mais.
O índio perdeu seus hábitos e costumes. Seus últimos vestígios culturais estão se diluindo diante de uma sociedade consumista e eletrônica. Com o branco, aprendeu até a trapacear, depredar a natureza e negociar com ela para auferir os bens materiais cobiçados pelos seus conquistadores. Não tem mais tempo para dançar seus rituais. Agora, as tribos fazem shows pagos pelos brancos ou para as televisões. As novas gerações preferem ficar conectadas na internet ou numa novela, a praticar o seu Toré. Lá se foram seus cantos e suas festas para comemorar a fartura na pesca e na caça. Lá se foi a poesia de uma vida em comunhão com a natureza. Não usam mais o tacape, o arco e a flecha, a não ser como produtos artesanais de venda.
As florestas com seus segredos, não representam mais a magia e o encanto de seus deuses. As ocas viraram casas de brancos. Não existem mais jesuítas para catequizá-los, mas ONGs mal intencionadas, muitas delas estrangeiras, visando o domínio de territórios. Com interesses escusos, o branco gringo continua iludindo o índio. Chega de manso como caridoso e benfeitor de obras sociais, como na Amazônia, para depois dar o golpe mortal.
Sou obrigado a concordar com o general Heleno quando criticou duramente a política do governo que está sendo levada a criar verdadeiros territórios independentes como querem os americanos e europeus que proclamam que a Amazônia é uma área internacional. Enquanto isso, nosso presidente não se cansa de fazer campanhas políticas nos palanques, esbanjando palavrões e ditados ao gosto do nosso povo que esquece das ruínas que vivem a educação e a saúde. Agora é o branco mais sabido e astuto enganando o branco pobre de espírito e sem diretrizes.
É uma pena que os últimos remanescentes da nação indígena esqueceram de suas danças e foram tragados pelas negociatas com os brancos, vendendo madeiras e até se envolvendo com traficantes de drogas. Tribos como os Mongoiós e Imborés, que habitavam terras de Conquista, não existem mais. Quando não são as doenças, elas se diluem, ou são exterminadas como aconteceu nos Estados Unidos que massacraram seus povos. O índio não dança mais o Toré, nem quer apito.
* Jeremias Macário é jornalista |