Por Jeremias Macário*
Houve tempo em que o 1º de maio era lembrado com passeatas, protestos e movimentos reivindicatórios em defesa das classes trabalhadoras e da coletividade. Os estudantes, sob o comando da UNE-União Nacional dos Estudantes, participavam das lutas sociais e empunhavam bandeiras, clamando pela melhoria do ensino, por melhor distribuição de renda, por mais emprego, seriedade dos políticos e até pela reforma agrária. Hoje, o 1º de maio é comemorado com shows e sorteios de prêmios, como um produto embalado e aguado, com cheiro mofo de acomodação e alienação.
Não se fazem mais 1º de maio como antes, quando as lideranças trabalhistas, estudantis, os intelectuais de esquerda e até representantes da Igreja Católica bradavam nas ruas e praças públicas, rogando por justiça, educação e saúde de qualidade e, acima de tudo, democracia e liberdade de expressão. A ditadura militar se foi, mas por algum tempo a sociedade continuou mobilizada e até derrubou um presidente da República. Um partido de esquerda foi fundado e nele se via a saída para as mudanças, especialmente na área social e na ética dos poderes constituídos.
Os tempos se passaram, talvez 10 ou 20 anos, e as reformas profundas não foram consolidadas; a ética se deteriorou com a proliferação da corrupção em todos os setores governamentais e políticos; a saúde e a educação permanecem precárias; e aumentou o desemprego e a violência nas cidades e no campo. Mesmo assim, os segmentos “organizados”(nem tanto) e as instituições se acomodaram e fazem shows e sorteios que não empolgam mais o povo que passa. Os esteios pensantes da intelectualidade e os dirigentes máximos das entidades não aparecem mais. Aproveitam o feriado para veranear.
O que houve com o sonho? A luta por uma sociedade mais justa, igualitária e humana? O que houve com a ética e a coerência de princípios? O que houve com o pensamento coletivo e socialista? Que fim levou a marcha de faixas e cartazes, cortando as multidões com frases e dizeres contra a exploração, a falta de respeito para com a coisa pública e a favor dos direitos dos cidadãos? Que democracia é essa? Para onde vamos?
Temos hoje 11 centrais sindicais espalhadas por todo país e diversas organizações estudantis, além da UNE, que mal conseguem levantar uma bandeira pela redução da jornada de trabalho. Essas entidades perderam suas identidades, e os movimentos se fragilizaram depois que passaram a receber as benesses do governo. Uma parte delas foi cooptada e a outra seguiu a política, fechando as porteiras da renovação de seus quadros de dirigentes. Os cargos públicos, cerca de 30 mil, como comentam, se tornaram prioridade.
Diante de toda essa fragilidade, a manutenção do imposto único sindical obrigatório é uma aberração, como também uma interferência do Estado. Mas, as centrais não analisam por esse ângulo e entram em contradição quando argumentam que se o Governo, através do Tribunal de Contas da União, exigisse a prestação de contas desse imposto, aí sim, seria uma interferência do Estado. O pior ainda é querer enganar com palavras, dizendo que esse dinheiro não é público. Ora, se o dinheiro sai do bolso do trabalhador por obrigação, ele passa a ser público. O próprio nome imposto já diz tudo. Como a verdade muda e troca de posição e interpretação!.
Temos ainda, senhores leitores, muitos dirigentes sindicais que se perpetuaram no poder e moram em mansões com carros de luxo em suas garagens. Temos também suspeitos de desvio de recursos, como o deputado Paulo Pereira da Silva, “o Paulinho”, da Força Sindical, que está sendo investigado pelo Ministério Público Federal. De acordo com as apurações, o senhor “Paulinho” desviou R$325 mil do BNDES.
Diante de tudo isso, é duro ver e ter que engolir os elogios de Lula a presidentes da ditadura militar. É duro ver o presidente defender, nos palanques políticos, o governador do Ceará, Cid Gomes, que fretou um jatinho por R$388 mil é levou sua sogra e parentes de familiares dos acompanhantes para o exterior. É duro ver as coligações com os antigos coronéis conservadores e lambe botas dos generais da ditadura. É duro ver as alianças, beijos e apertos de mãos com os piores personagens envolvidos em falcatruas e considerados assaltantes dos cofres públicos.
Aonde enfiaram a decência e a coerência ética defendidas lá atrás por esses mesmos “esquerdistas”, muitos deles tidos como intelectuais? Aonde está a real reforma agrária com acesso igual à terra para todos? Aonde está o ensino de qualidade que foi maquiado demagogicamente pelo sistema de cotas somente para negros e não para todos os pobres? Esse sistema só faz estimular a divisão. O fato de ser negro não torna a pessoa incapaz. O que todos precisam, negros, brancos, mestiços e pardos, é de amparo e de boas escolas públicas. Já que criaram cotas, elas deveriam ser para todos os pobres. A pobreza é que impede a pessoa de galgar a universidade. A igualdade jurídica é uma falácia.
Mas, a nossa sociedade está sedada pelo individualismo e pela enganação de políticas aparentemente reformistas e sociais, mas que não passam de assistencialistas e paternalistas. São políticas onde os ricos ensinam a pensar como defender seus interesses. Como a maioria da população não tem instrução, é só sapecar o termo elite para quem levanta as críticas, e tudo está resolvido. Na verdade, somos vítimas desse capitalismo que traz o germe da destruição, como dizia Marx. É esse capitalismo que incute nas pessoas o desejo irracional de possuir coisas inúteis e deixa o povo cada vez mais alienado.
* Jeremias Macário é jornalista |