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OS INCONFORMISTAS
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:Publicado em 29/03/2008, às 16:21

Por Luciano Pires*

Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil em greve A deputada Alice Portugal (PCdoB/BA) discursou na sessão da Câmara dos Deputados do dia 27 de março, manifestando suas solidariedade às reivindicações dos auditores fiscais da Receita Federal do Brasil e apelando ao Ministério do Planejamento para que honre o acordo feito com as entidades representativas da categoria em 2007.

– Sessenta e cinco? Pô, vou fazer cinqüenta e dois. Só mais treze anos? Que horror! Aposentadoria? Pijamão? Papete? Aaaaahhhhh!!!!!!

Aos sessenta e cinco eu faria parte de uma categoria diferente de cidadão. Tenho impressão que para a sociedade, ter mais de sessenta é como ter uma deficiência física... A pessoa é rotulada como “limitada”.

E naquela hora caiu a ficha. O que será que a sociedade reserva para mim daqui a treze anos?

Lembro-me claramente quando, nos anos 80, Jô Soares anunciou que deixaria seu programa de humor para dedicar-se a entrevistas. Saiu da Globo e foi para o SBT, o que foi considerado uma loucura. Ele estava com cinqüenta anos e era um sucesso como humorista. Fiquei impressionado com a coragem daquela decisão. Aos cinqüenta, quando a turma pensava em aposentadoria, Jô decidia começar de novo... Precisei amadurecer vinte anos para entender as razões daquela decisão maluca.

Um outro acontecimento ocorrido durante minha viagem ao Campo Base do Everest em 2001 também é exemplar. Enquanto eu estava lá, uma equipe tentava chegar ao topo da montanha mais alta do mundo. E no dia 25 de maio de 2001 a conquista do cume foi comemorada de forma especial. O principal componente do grupo era Erik Weihenmayer, um alpinista cego. Erik venceu desafios que a maioria das pessoas, com a visão perfeita, não consegue. E o médico que o acompanhava, Sherman Bull, aos 64 anos transformou-se na pessoa mais velha até então a conquistar o cume do Everest. Suas “limitações” foram vencidas, contra todas as previsões.

E pra ficar nos nossos exemplos, quem é que não lembra do Zagallo, aos sessenta e cinco anos, na Copa América de 1997 dizendo ao microfone da Globo: “vocês vão ter que me engolir”? O velhinho tapou a boca de todo mundo...

Pois bem. Jô transformou seu programa num sucesso e retornou para a Globo. Erik continua escalando, fazendo palestras e servindo de exemplo. Zagallo está com setenta e seis e só parou por causa da saúde.

O que é que esses caras têm de tão especial, que os faz capazes de surpreender diante dos obstáculos, das críticas e da incredulidade das pessoas?
Encontrei a resposta numa entrevista que Erik Weihenmayer deu após retornar do Everest. Perguntado sobre o que fez para – apesar de cego –  chegar lá, Erik foi direto:

– Jamais aceitei cumprir o papel que a sociedade reservou aos cegos.

Que tal?

A pergunta “o que é que a sociedade reserva pra mim?” só interessa a quem está conformado em ser mais um ressentido passivo

Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista. Faça parte do Movimento pela Despocotização do Brasil, acesse www.lucianopires.com.br.
 
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