Por Mozart Tanajura*
A festa de Nossa Senhora da Vitória iniciou-se, provavelmente, em 1807, data em que construída a primeira capela em homenagem à santa.
Segundo cronistas antigos que trataram do assunto, a construção desta igreja deveu-se a uma promessa do fundador da cidade, cel. João Gonçalves da Costa, por ter saído vitoriosa na guerra contra os índios.
A festa é apenas uma tradição que se enraizou na alma de nossa gente. Mas na verdade que desde o início da nossa história. Alguns aprendizes de historiadores procuram contestar o fato porém o próprio Ruy Medeiros, um dos historiadores mais contundentes, aceita a explicação dos cronistas, apesar de fazer algumas restrições sobre a festa e o nome de sua homenageada.
Bruno Bacelar, primeiro historiador das tradições conquistenses, foi também um dos que aceitaram o fato como ele se deu. Em um dos seus artigos, ele diz que a primeira missa da festa de Nossa Senhora da Vitória foi celebrada em 1811. O sacerdote que a celebrou veio de Minas Gerais, provavelmente da Vila do Rio Pardo que era a matriz de todas as igrejas da região.
Naquele dia em que o vigário veio do norte de Minas Gerais talvez em desobriga, o Arraial da Conquista - escreveu Bruno Bacelar, foi despertado pelos sinos em repiques estridentes, chamado a população para o ato solene. Os velhos bacamartes e as vetustas espingardas, trazidas pelos aventureiros, narrou ainda Bruno Bacelar - ´´ roncaram de novo de quando em quando. Metido em seu jibão de batalhador incansável, chapelão de sertanista indomável à cabeça e barbas brancas respeitáveis, imaginou o nosso historiador, ´´ João Gonçalves assistiu impertubáveis à alegria estranha de sua gente. ´´ Em redor do sacerdote, em meio a população, também assistiram à missa o capitão-mor Antônio Dias de Miranda e o sargento-mor Raimundo Gonçalves da Costa, ambos filhos do velho conquistador. Todas asa casas do largo onde se situava a igreja tinham guilhardas de folhas verdes e flores silvestres, costume que se prolongou por muito tempo, sempre que havia acontecimento festivo na vila.
Depois desta primeira missa realizou-se a procissão, como fim do ato religioso do dia e, para marcá-lo, foi erguido em frente à capela um grande cruzeiro, que foi demolido, juntamente com a igreja em 1932.
Assim se realizou a primeira festa de Nossa Senhora da Vitória, que se prolonga até a época atual. No decorrer de todos esses anos, como é natural, ela sofreu várias modificações. Mas os moradores, os filhos da terra, por sua vinculaçao afetiva e pessoal aos costumes da cidade, sempre responderam pela preservação dos rituais de maior tradição. Com o tempo, esta tradição foi sendo desprestigiada, perdendo a festa as suas características locais. Antigamente, a festa oscilava entre as fronteiras do religioso e do profano. Realizava-se sob o comando de um festeiro, que era escolhido mediante um sorteio. A pessoa indicada se encarregava de organizar a festa. Esta começava com os giros da bandeira de Nossa Senhora da Vitória, pelas localidades vizinhas, a fim de angariar prendas e recursos financeiros para o novenário e leilão. A parte profana se realizava nas imediações da igreja. Geralmente constava de diversas atrações como barraquinhas, quermerses, apresentação da banda de música, prisões de namorados e os animados leilões, culminando com o último dia da festa, que constava de missa cantada pela manhã e procissão à tarde.
As prendas dos leilões eram arrematadas por altos preços pelos fazendeiros e negociantes, conforme o lance anunciado pelo leloeiro.
Aos poucos estas diversões foram caindo em desuso, e a festa como hoje a conhecemos, passou a ser organizada por uma comissão formada com antecedência, composta de senhores e senhoras da sociedade. Acabaram-se também o brilho e a animação de outrora, resumindo-se a festa, atualmente, na celebração de novenário, uma missa no último dia e uma procissão, que percorre algumas ruas da cidade, acompanhada por número de fiéis.
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Termino estas notas fazendo uma corrigenda sobre o nome da padroeira de Con-quista, para que o erro histórico não continue a ser vulgarizado. O nome padroeira é Nossa Senhora da Vitória, e o não das Vitórias, como a chamam os padres e os responsáveis pela diocese. Assim está escrito no livro Santuário Mariano, do frei Agostinho de Santa Maria. Diz ele: ´´ A primeira Paróquia, & Igreja Matriz, que teve a cidade da Bahia, que ao depois se chamou Cidade de Salvador, ou Bahia de todos os Santos, foi a casa de Nossa Senhora da Victória, título adquirido de uma grande vitória, que os portugueses alcanção contra os índios.´´
Na escritura de doação das terras se assentou a nossa cidade referência ao nome da " Capela de Nossa Senhora as Victória."
No mesmo documento lê-se: Nossa Senhora da Victória da Conquista, que acabou prevalecendo como o nome da própria cidade, em homenagem ao fato histórico.
Portanto, não se pode desprezar uma tradição que vem de muito longe, Ab urbe condita, como diziam os romanos. Desde os tempos da fundação da cidade. |